O LADO PITORESCO DA MARINHA

"Você vivenciou na Marinha algum caso que seja excêntrico, inusitado ou interessante?

Durante seu tempo na ativa, já presenciou algum fato que chame a atenção por sua particularidade e unicidade ? Deseja que seu texto seja publicado nesta seção?

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ALMA DE MARINHEIRO
(Texto adaptado da crônica Alma de Soldado, do Sargento Lizzi)

Um dia, usei farda (mescla, burrinha, cinza, pirulito e alexandrino), usei perneira, usei pistola e fuzil, treinei ordem unida e desfilei pela independência do Brasil. Usei caxangá e boné, fiz continência pra Bandeira, para nosso Hino e pro maior, fiquei de pé para ver passar a autoridade. Fiz TFM, corrida e natação. Dei zero hora e dei rancho, saí de pau e fiquei de prontidão. Cantei o Hino Nacional, o da Bandeira e o Cisne Branco, ouvi Ordem do Dia e recebi condecoração. Servi embarcado, viajei adoidado, fiz exercícios de tiro, de reboque e de transferências de óleo, de cargas, e até de pessoal, treinei salvamento, resgate e abandono em naufrágio, combate a incêndios, controle de avarias, primeiros socorros e sobrevivência no mar. Guarneci postos de suspender e fundear, de emergência e de combate, passei noites na Central de CAV. Peguei mar de almirante e mar encrespado, reboquei mas nunca fui rebocado. Aprendi sobre honra, retidão, respeito, disciplina, hierarquia e confiança. Que armas não geram violência e flores não trazem a paz, e sim a intenção das mãos que as carregam, e que é preciso ética e moral de cidadão. Aprendi que devemos respeitar pai e mãe, o chefe, o companheiro e o subordinado.   Que a família é a base da educação e a Marinha é uma escola de vida.

Hoje estou reformado, já não uso farda, também não aceito vestir pijama. Algumas fotos já meio apagadas pelo tempo trazem gloriosas recordações de sufocos, socos, toucas e gozações mas a saudade dói no peito do velho marujo. Consola-me a consciência do dever cumprido. Minhas lidas agora são outras, outras são as preocupações, com as gerações futuras, futuros marujos, patriotas, cidadãos.

Ainda ouço o ruído dos motores, MCP e MCA, vislumbro ainda as esteiras brancas de espumas borbulhantes que as hélices agitam como rastros da embarcação. O caturro e as bandas já não me dão enjoos, já não lanço o cachorro n’água nem chamo o Raul. Lembranças, recordações, saudade dos camaradas dispersos pelo país afora e de quantos já se foram para outra dimensão cumprindo o destino dos humanos.

Sou marujo até debaixo d'água, sou submarinista. Marinheiro sou e serei até morrer, e "se marinheiro não fosse outra coisa não queria ser!"

SO-EL-SB JOSÉ MARIA DE FREITAS CAMPOS