"Você vivenciou na Marinha algum caso que seja excêntrico, inusitado ou interessante?
Durante seu tempo na ativa, já presenciou algum fato que chame a atenção por sua particularidade e unicidade ? Deseja que seu texto seja publicado nesta seção?
Envie sua contribuição para [email protected] e divulgaremos o seu material."
SEU LIBÓRIO
Seu Libório era um burro velho que vivia na Ilha da Trindade, o qual era sempre requisitado quando chegava a cabritada para ajudar a puxar a cabrita.
De tanto puxar cabrita, seu Libório se condicionou com o apito de fundeio e passou a fugir para o morro sempre que o apito soava. Era um Deus nos acuda trazer seu Libório morro abaixo para realizar o seu trabalho. Rebarbava, empacava, empinava, coiceava. Um homem sozinho não conseguia dar conta dessa faxina.
Por conta disso, houve um Comandante da Ilha que solicitou ao Comando de Operações Navais suprimir o apito de fundeio na chegada para a cabritada. Alguns Comandantes atendiam ao pedido, outros não.
* Apito de fundeio (ou de atracação) - Sempre que um navio de guerra fundeia, larga o ferro (âncora) num ancoradouro, ou quando a espia número um é encapelada no cabeço do cais para atracação, o comandante manda soar um apito longo.
A fim de evitar a faxina de capturar seu Libório no morro, a guarnição passou a prendê-lo próximo ao ponto de desembarque três dias antes da chegada da cabritada.
Nota: Cabrita era um batelão, isto é, um flutuante, sobre o qual eram desembarcadas as mercadorias destinadas à Ilha da Trindade. Dado que não havia como aportar navios os mesmos ficavam fundeados ao largo e as cargas destinadas à ilha eram desembarcadas na cabrita e esta era puxada para terra pela guarnição da ilha ou por Seu Libório.
Cabritada era a faina de abastecimento da Ilha da Trindade. A cada três meses a Marinha destacava um navio da frota de navios auxiliares para transportar do continente para a ilha: Alimentos, combustível, material comum, sobressalentes, pessoal militar para substituir metade do contingente da ilha e pesquisadores civis diversos.
Autoria: SO-EL-SB-RFº José Maria de Freitas Campos
RATOS DE PORÃO & PAPA VENTOS
Na minha Marinha, isto é, na Marinha à qual servi por trinta anos, sempre se manifestou a rivalidade entre esses dois grupos, os ratos de porão, ou seja, o pessoal da máquina, e os papa-ventos, isto é, o pessoal do convés.
Os papa-ventos sempre se regozijando das condições privilegiadas em viagem, admirando as nuances do mar, admirando o ondular das ondas e os carneirinhos nos mares espelhados, desfrutando das belas imagens dos golfinhos em disputa de velocidade com a belonave, do balé das baleias, das revoadas dos peixes voadores pelas costas nordestinas e do bailado e acrobacias das aves marinhas: gaivotas, fragatas e albatrozes, enquanto isso os ratos de porão, desprivilegiados, suportavam temperaturas elevadas, altos níveis de ruídos produzidos por motores e turbinas, e os indesejáveis mosquitos de água quente gotejante, resultantes da condensação dos vapores vazados em contato com as chapas do teto dos compartimentos de máquinas e caldeiras, mas ostentando o orgulho profissional de ser útil, de fazer parte da equipe que leva o navio enquanto que os papa-ventos fazem parte da equipe que o navio leva.
Uma tradição na “minha” Marinha era a farofa do foguista. Uma farofa seca e indigesta, feita com muita farinha e alguns nacos de carne seca e linguiça, que ficava à disposição para ser consumida por quem ia entrar de pau de zero às quatro e de quatro às oito. A farofa e o calor das Bravos obrigava o foguista a ingerir litros e litros de água durante o quarto de serviço, por isso não era incomum que os gorgotas de máquina apresentassem uma proeminência abdominal mais avantajada. No popular: a maioria dos velha guardas de máquina eram barrigudos.
Uma questão que nunca ficou bem definida é se os papa-ventos que entravam de pau de zero às quatro e de quatro às oito também tinham direito de comer a farofa do foguista. Afinal, a farofa era do foguista!
E quem saía de pau? Também tinha direito?
Pelo sim, pelo não, o certo é que todos, ratos de porão e papa-ventos, caíam de boca naquele inusitado farnel o que constituía mais um fator de “guerra de Marinha” entre uns e outros do que mesmo uma questão de saber quem tinha direito e quem não tinha.
E para acompanhar e facilitar a deglutição da farofa do foguista sempre havia uma jarra de jacuba aguada, uma água suja, como a marujada chamava, mas bebia até se empanturrar, até o bucho fazer bico. Quem entrava de pau ficava sempre alerta, quem saía de pau, se empapuçava na farofa e caía de beliche ía ver-se às voltas com monstros, lagartos e cobras, em terríveis pesadelos.
Autor: SO Veterano JOSÉ MARIA DE FREITAS CAMPOS
VOLTANDO NO TEMPO
Cheguei ao Rio de Janeiro pela primeira vez no final de 1969 para realizar o primeiro curso de especialização da carreira.
Quem foi marujo nas décadas de 1970 e 1980 certamente lembra-se ou tem alguma afinidade com a antiga Praça Mauá, reduto de notívagos e boêmios, desocupados e sem tetos. A Praça Mauá do Bar Ita (Barita para a marujada), dos Night Clubs, dos transatlânticos aportados e das malandragens dos malandros cariocas de então levando no bico para se dar bem com os gringos e com as grinfas, damas da noite.
O Bar Ita era um ponto de encontro democrático fora da caserna onde periofs, cães, gorgotas e quincas se encontravam à paisana e bebiam no mesmo copo metendo a mão no mesmo prato de engodo até altas tantas, às duas da madruga, quando o carrilhão da porta sanfonada girava barulhento anunciando a hora da saideira.
No Barita se jogava conversa fora, se falava a gíria de bordo, se jogava porrinha valendo a próxima, e, como não podia deixar de ser, cuspia-se no chão e se pingava a “pro santo” no pé do balcão. Tinha marujo tão freguês do Barita que tinha até pindura e lá morria metade do faz-me rir logo no primeiro dia do . . .
Mas nem só de marujo vivia o Barita! Tinha embarcadiços de navios mercantes, nacionais e estrangeiros, confraternizando-se com o pessoal da gola, da Brilhosa, como diziam eles, querendo dizer briosa, e fazendo questão de pagar a conta. Tinha desempregados filando uma boquinha e retirantes aventureiros oriundos de várias partes do país que vinham sem eira nem beira futurar a sorte na ainda Cidade Maravilhosa pré Brizola. Tinha mendigos que partilhavam conosco suas lamúrias no pós affeir quando as portas do nosso refúgio baixavam de vez e os cadeados eram travados. Era realmente um ambiente extremamente democrático!
O Barita não existe mais na nova Praça Mauá, ladeada pelo Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio (MAR), com o Comando do Primeiro Distrito Naval instalado onde fora naqueles idos a sede cultural da Casa do Marinheiro, onde muitos praças, inclusive este, cursaram o Segundo Grau Científico durante três anos com os mais laureados professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e do Colégio Pedro II, então as mais renomadas instituições de ensino do estado, quiçá do país.
Quem pode esquecer mestres como as professoras Nádia, Zaira e Carlota e professores como Júlio e Nonato? Quem pode esquecer aquelas noites em que pontualmente às 22:00 horas o 262 saída da Praça Mauá rumo a Madureira e depois o 952 o deixava nas proximidades de casa, em Oswaldo Cruz, onde chegava após uma caminha de maios ou menos 500 metros, concluída pouco antes de terminar o terceiro bloco da saudosa novela Saramandaia, a filharada dormindo e a esposa alerta contando os minutos olhando para a porta semiaberta?
Autor: SO Veterano JOSÉ MARIA DE FREITAS CAMPOS
ALMA DE MARINHEIRO
(Texto adaptado da crônica Alma de Soldado, do Sargento Lizzi)
Um dia, usei farda (mescla, burrinha, cinza, pirulito e alexandrino), usei perneira, usei pistola e fuzil, treinei ordem unida e desfilei pela independência do Brasil. Usei caxangá e boné, fiz continência pra Bandeira, para nosso Hino e pro maior, fiquei de pé para ver passar a autoridade. Fiz TFM, corrida e natação. Dei zero hora e dei rancho, saí de pau e fiquei de prontidão. Cantei o Hino Nacional, o da Bandeira e o Cisne Branco, ouvi Ordem do Dia e recebi condecoração. Servi embarcado, viajei adoidado, fiz exercícios de tiro, de reboque e de transferências de óleo, de cargas, e até de pessoal, treinei salvamento, resgate e abandono em naufrágio, combate a incêndios, controle de avarias, primeiros socorros e sobrevivência no mar. Guarneci postos de suspender e fundear, de emergência e de combate, passei noites na Central de CAV. Peguei mar de almirante e mar encrespado, reboquei mas nunca fui rebocado. Aprendi sobre honra, retidão, respeito, disciplina, hierarquia e confiança. Que armas não geram violência e flores não trazem a paz, e sim a intenção das mãos que as carregam, e que é preciso ética e moral de cidadão. Aprendi que devemos respeitar pai e mãe, o chefe, o companheiro e o subordinado. Que a família é a base da educação e a Marinha é uma escola de vida.
Hoje estou reformado, já não uso farda, também não aceito vestir pijama. Algumas fotos já meio apagadas pelo tempo trazem gloriosas recordações de sufocos, socos, toucas e gozações mas a saudade dói no peito do velho marujo. Consola-me a consciência do dever cumprido. Minhas lidas agora são outras, outras são as preocupações, com as gerações futuras, futuros marujos, patriotas, cidadãos.
Ainda ouço o ruído dos motores, MCP e MCA, vislumbro ainda as esteiras brancas de espumas borbulhantes que as hélices agitam como rastros da embarcação. O caturro e as bandas já não me dão enjoos, já não lanço o cachorro n’água nem chamo o Raul. Lembranças, recordações, saudade dos camaradas dispersos pelo país afora e de quantos já se foram para outra dimensão cumprindo o destino dos humanos.
Sou marujo até debaixo d'água, sou submarinista. Marinheiro sou e serei até morrer, e "se marinheiro não fosse outra coisa não queria ser!"
Autor: SO Veterano JOSÉ MARIA DE FREITAS CAMPOS
