
Tenente Mario Hermes desfila à frente da delegação brasileira como porta-bandeira na abertura das Olimpíadas de Helsinque 1952
Os militares costumam ser lembrados por seu civismo e sua capacidade de dedicar a própria vida pela Pátria. Sempre associados às guerras, alguns homens da Marinha da Brasil (MB) defenderam o País de forma diferente ao longo da história. Seus campos de batalha eram piscinas, quadras, ringues e pistas. Suas armas eram o próprio corpo e o desejo de vencer. Suas batalhas eram travadas não para defender um território, mas para destacar o verde e o amarelo em edições das Olimpíadas.
Durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, relembramos nomes que vestiram com o mesmo amor o uniforme branco e os trajes esportivos, servindo de exemplo e inspiração tanto para os atletas como para os militares.
Acervo familiar

Nas Olimpíadas de Helsinque, na Finlândia, em 1952, a Marinha marcaria uma cesta de três pontos, mesmo antes do início das competições, com um dos nomes mais representativos da história da Força Naval no esporte olímpico. O Almirante de Esquadra Mario Jorge da Fonseca Hermes, na época Primeiro-Tenente, era titular da Seleção Brasileira de Basquete e foi escolhido para ser o porta-bandeira da delegação na cerimônia de abertura dos Jogos.
Antes do embarque, em solenidade realizada no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro (RJ), o Tenente Mario Hermes recebeu do Presidente Getúlio Vargas o pavilhão nacional que seria usado no desfile de abertura. Nessa cerimônia, o pivô Mario Hermes seguiu à frente da delegação brasileira vestindo seu uniforme de oficial da Marinha do Brasil. O Tenente marcou 46 pontos em oito jogos.

O pivô Mario Hermes (ao centro) no Flamengo, decacampeão carioca
O atleta Mario Hermes começou a carreira em 1941 no Clube Central de Niterói (RJ). Mas foi pelo Clube de Regatas Flamengo que ele marcou o Basquete ao integrar a equipe decacampeã carioca (1951 a 1960).
Como Almirante, foi Sub-chefe do Comando de Operações Navais e do Estado-Maior da Armada; Adido Naval nos Estados Unidos; Diretor de Armamento e Comunicações da Marinha; Comandante do 4º Distrito Naval; Diretor-Geral do Material da Marinha; Comandante de Operações Navais e Chefe do Estado-Maior da Armada.
Fora do serviço ativo, ele iniciou outra carreira. Em 1988, o Almirante Mario Hermes aceitou o convite da Confederação Brasileira de Basquete para exercer atividade não remunerada na entidade. Chefiou as delegações brasileiras de basquete no Campeonato Sul-Americano no Equador (1989); na Copa América de Basquete no México (1989); nos “Good Will Games” em Seattle, nos EUA (1990) e no Campeonato Mundial na Argentina (1990).

Aos 81 anos, o ex-atleta Mario Hermes com a tocha dos Jogos Pan-americanos de 2007
Como forma de homenagear sua carreira esportiva e sua dedicação ao Basquete dentro e fora das quadras, aos 81 anos, o ex-atleta Mario Hermes desfilou com a tocha dos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Durante a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016, ele irá completar 90 anos (14 de agosto).

Outro nome de destaque é o do Primeiro-Tenente Adalberto Cardoso. Ele foi Marinheiro, Chefe de Máquinas, sobreviveu ao naufrágio da Corveta “Camaquã” e ainda combateu na 2ª Guerra Mundial. Porém, nenhum desses feitos o deixou tão conhecido internacionalmente quanto a sua participação nas Olimpíadas de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1932.

Adalberto Cardoso após a prova que o deixou famoso nas Olimpíadas de Los Angeles, 1932
O então Marinheiro Adalberto Cardoso estava entre os atletas que embarcaram no Navio “Itaquicê” rumo aos Estados Unidos. No mesmo grupo, também ia a primeira mulher a representar o Brasil em uma edição de Jogos Olímpicos, a nadadora Maria Lenk. Os atletas desembarcaram em São Francisco e o militar enfrentaria seu primeiro desafio: chegar a Los Angeles a tempo de competir.
Na véspera da prova dos 10 mil metros, o Marinheiro enfrentou uma verdadeira maratona. Ele pegou caronas e viajou por quase 20 horas, sem dormir. Sua única refeição antes da disputa foram frutas compradas durante o percurso. Adalberto chegou ao Coliseu Olímpico 10 minutos antes da largada, tempo suficiente para pegar emprestado um uniforme esportivo, já que não poderia correr de farda.

Após todos os corredores terem terminado a prova, Adalberto caiu três vezes, mostrou seu espírito marinheiro e não se deixou vencer pelo cansaço. Suas últimas passadas foram acompanhadas de perto pelo público, que gritava “homem de ferro” ao ver seu esforço. O militar cruzou a linha de chegada debaixo de aplausos e precisou ser apoiado para ficar de pé. Ainda assim, conseguiu acenar para as arquibancadas.
A persistência de Adalberto o tornou conhecido. A história do fundista estampou páginas de jornais e revistas no Brasil e no exterior. “Ele contava a respeito do ocorrido e de como foi difícil chegar para a corrida. Meu pai conseguiu dar todas as voltas, foi aplaudido de pé e ainda ganhou uma medalha de participação”, lembra o filho de Adalberto, Ademir Mendes Cardoso.
O patriotismo de Adalberto também se mostrava em sua vida profissional. Sua dedicação à Força Naval se prolongou por muitos anos. “Ele gostava muito da Marinha, tanto que foi militar todo o tempo que foi possível”, lembra Ademir.

O caminho dos militares da MB voltaria a se cruzar com o das Olimpíadas 16 anos depois. O Cabo (EL) Alexandre Ribeiro Neto obteve resultados expressivos e conseguiu atingir o índice necessário para as Olimpíadas de Londres, na Inglaterra, em 1948. Essa foi a primeira edição dos Jogos após as Guerras Mundiais. No mesmo ano, o militar já havia sido campeão carioca dos 200m rasos e do revezamento 4 por 100m.
A pontaria certeira de dois oficiais levou a MB para os Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, na Rússia. O Primeiro-Tenente Fernando Lessa Gomes competiu na prova de Tiro Rápido e o Segundo-Tenente Sílvio de Souza Aguiar Carvalho na de Pistola Livre. "Participar dos Jogos foi uma enorme alegria, mas a primeira grande emoção ocorreu no momento que alcancei o índice olímpico”, lembra o, hoje, Capitão de Mar e Guerra Lessa Gomes.
O Comandante Lessa explica que foi marcante a estada na Vila Olímpica por ver pessoas de todo o mundo convivendo harmoniosamente, mesmo com diferenças culturais, religiosas, ideológicas e de idiomas. “Naquele momento estão todos irmanados e sem diferenças que os afastem uns dos outros. Povos inimigos, ali, não existem. É algo surpreendente, que só não é inacreditável porque você vive isso com grande intensidade”, recorda.

O militar ressalta que o fato de poder representar o Brasil foi muito significativo em sua vida. “Você é um representante do seu País. Você sente isso com muita força, sobretudo na cerimônia de abertura, quando o mundo inteiro te recebe e te aplaude por você estar ali. E ao longo de todo o período, você de uniforme do seu país, é bem recebido e admirado por todos”, destaca ele.
O Capitão de Mar e Guerra lembra que o incentivo dos irmãos de armas também foi motivo de satisfação. “Você saber que muitos companheiros da Marinha apoiaram para você chegar lá, dá ainda mais prazer e orgulho de pertencer aos seus quadros. A Marinha é tudo para quem é um verdadeiro profissional de Marinha".
Ele explica que os ensinamentos do Técnico Silvino Fernandes Ferreira foram essenciais para que a Marinha conseguisse chegar a Moscou. “Ele era o Técnico de Tiro da Escola Naval e seguiu trabalhando gratuitamente e me treinando. Foi o grande incentivador e o principal responsável pelas nossas participações”, destaca.
A doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de livros e artigos sobre a história do esporte militar, Karina Cancella, lembra que muitos registros de atletas militares em Jogos Olímpicos se perderam com o passar dos anos e que não existe um levantamento específico sobre isso.
Ela destaca que os militares, quando competidores, podem se beneficiar de alguns aspectos da vida na caserna, que também são presentes no meio esportivo. “Muitos estudos apontam que a disciplina e a hierarquia, elementos basilares do militarismo, também são importantes para os atletas”, afirma.
Entre seus estudos, Karina abordou o centenário da “Liga de Sports da Marinha”, que evoluiu e deu origem ao Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN) e à Comissão Desportiva da Marinha (CDM). A autora ressalta que a ligação entre a Marinha do Brasil e a prática esportiva remete ao final do século XIX e início do século XX. “O treinamento militar era mais teórico, com grande ênfase intelectual. Nessa época, o corpo começou a ser valorizado. Foi quando surgiu a preocupação com a Educação Física como elemento de preparação”, destaca a estudiosa.
Ela explica que, inicialmente, a Marinha se preocupou em incorporar alguns esportes específicos e funcionais. A prioridade foi dada ao Remo, à Natação e à Vela, pois serviriam para aprimorar as habilidades necessárias ao homem do mar. “Também buscava despertar os jovens para essas modalidades e preparar marinheiros em potencial. O motivo é que, naquele momento, acreditava-se que caso o Brasil entrasse em uma guerra, ela seria marítima em função do tamanho da nossa costa”, ressalta Karina.
Confira aqui os atletas da Marinha nos Jogos Olímpicos Rio 2016
