Page 181 - Livro - Economia Azul
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(environmental, social and governance,   recursos além da jurisdição nacional. Há   Parte 2 – A Governança do Oceano
 ESG, em inglês). Contudo, não se pode afir-  outros atores e arranjos importantes, como
 mar que as empresas contribuem para a jus-  acordos comerciais entre grandes jogado-  A história moldou a governança global e   comercial – são muitas vezes mal conecta-
 tiça e alocação de recursos em escala global.   res, incluindo empresas gigantes, denomi-  também a governança do oceano. Os para-  das (CUNHA et al., 2021), o que permite a
 Ao contrário, por visarem ao lucro e à con-  nadas  big techs  na literatura atual e em-  digmas de competição geopolítica e recorte   criação de prioridades incoerentes ou, no
 quista de novos consumidores e mercados,   presários exploradores do espaço sideral,   institucional de espaços além da jurisdição   mínimo, inconsistentes, como será discuti-
 as empresas não foram criadas para reforçar   como Richard Branson, Elon Musk e Jeffrey   nacional são centrais para a apreensão da   do ao longo do texto. O conceito de “go-
 aspectos de justiça e alocação da governan-  Bezos, e dos fundos marinhos, como Vic-  governança do oceano. As grandes nave-  vernança conflitiva” remete a esta tensão
 ça (DAUVERGNE, 2021). A geopolítica da   tor Vescovo. O resultado da interação de-  gações desde o século XV correspondem à   entre as prioridades da sustentabilidade e
 vacina (RIBEIRO, 2020), e os desdobramen-  les tem impacto direto na corrida espacial   corrida das potências europeias da época   as comerciais em diferentes arenas multila-
 tos estratégicos que ela ocasiona (QUEIROZ;   e oceânica, bem como sobre o progresso   para a apropriação de recursos naturais e o   terais (ANSELMI, 2018).
 CUNHA, 2021), na qual empresas gigantes   da ciência. Portanto, a governança global   comércio, sintetizado como guerras de co-  Sob as lentes de “justiça e alocação”, o
 estão diretamente envolvidas, são apenas a   é  um  conceito  teórico  que  se  transforma   lonização e descolonização, deixando como   grande desafio para a governança global do
 ilustração mais recente deste ponto. O resul-  com mudanças estruturais e conjunturais.   herança a dependência estrutural com rela-  oceano é a “aceleração azul” (JOUFFRAY et
 tado atual é claro: o sistema ONU e a OMC   Consolidada com a suposta “nova ordem”,   ção às metrópoles. Igualmente, a história do   al., 2021), ou seja, o crescimento vertiginoso
 fragilizados, radicalismos políticos crescen-  ela não se limita ao Direito Internacional   Ártico e da Antártica foi marcada pela com-  da extensão, da diversidade e da intensida-
 tes dentro de Estados com democracia con-  Público e não é uma agenda de ação para   petição geopolítica, tecnológica e econô-  de na qual os recursos do mar são explora-
 solidada, concentração de renda em escala   o desenvolvimento sustentável. A ordem   mica/comercial das grandes potências. Do   dos, dentro e fora da lei. Um dos principais
 global sem precedentes e exclusão dos Esta-  internacional contemporânea pode ser de-  início do século XX até nossos dias, a princi-  desafios são os pleitos de extensão da so-
 dos e povos mais vulneráveis.  finida como um complex adaptive system,   pal mudança foi o surgimento de outras po-  berania sobre as plataformas continentais,
 Do ponto de vista da ciência, tecnologia   marcado pela não linearidade, intercone-  tências, como os Estados Unidos e a China,   de acordo com o artigo 76 da Convenção
 e inovação (CTI), há razões para o “tecno-  xões e emergência (PRANTL, 2020, p. 9).   com a aceleração da economia global.  das Nações Unidas sobre o Direito do Mar,
 -otimismo” (MILLS, 2021), porém sem olvi-  Contestada  pelos fracassos e crises do   Obviamente, o tema da Economia Azul   conhecida como seabed grabbing ou ocean
 dar das duas estruturas que conformam a   Milênio, a governança global corresponde   não se limita à governança ambiental. Con-  grabbing. Desde o pleito russo de 2001 re-
 arquitetura global. Uma é a superioridade   às relações de poder  (rapports de force)   tudo, nossa experiência acadêmica nos con-  lativo ao Ártico, outros 83 Estados submete-
 de alguns poucos países do Norte, que pro-  dentro de estruturas multilaterais e regio-  duz a duas conclusões. Por um lado, embo-  ram pleitos, transformando definitivamente
 movem e sustentam os direitos de proprie-  nais, bem como nos eixos de poder que se   ra o direito do mar e o direito marítimo não   a paisagem geopolítica. Se todos os pleitos
 dade intelectual, em linha com os interesses   formam a partir de Washington e Moscou   se enquadrem totalmente nesta conclusão,   registrados até 2019 fossem deferidos, res-
 de atores do setor privado. A forte interco-  ou Pequim. Além disso, a governança não   a dimensão ambiental e de sustentabilidade   tariam apenas 48% dos fundos marinhos
 nexão entre diplomacia, forças armadas e   tem uma definição simples ou mesmo con-  prevalece nos debates internacionais sobre   atualmente considerados patrimônio co-
 ciência nos países poderosos lhes permite   sensual na teoria das relações internacio-  a gestão dos recursos marinhos vivos e não     mum da humanidade (PCH), de acordo com
 competir para a exploração do espaço, do   nais.  Alguns  modelos  para  a  governança   vivos, bem como do oceano como espaço   Jouffray et al. (2020).
 alto-mar, dos fundos marinhos, do Ártico   conduzem a diferentes agendas de pesqui-  além da jurisdição nacional, incluindo as   A aquicultura marinha passou de me-
 e da Antártica, enquanto o restante do   sa: policêntrica (CARLISLE; GRUBY, 2019);   regiões polares antártica e ártica. Por outro   nos de 5 toneladas na década de 1970 a
 mundo permanece parcialmente excluído.   multistakeholders (GLECKMAN, 2018);   lado, os recursos biológicos e minerais mari-  quase 60 toneladas em 2020. Cerca de 13
 Agências de pesquisa das potências tecno-  multi-níveis (HOOGHE; MARKS,  2001);   nhos são também tratados nas agendas eco-  mil  sequências  genéticas  marinhas  foram
 lógicas estão unindo tecnologia espacial e   fragmentada (BIERMANN  et al., 2009),   nômicas e comerciais, devido ao seu enorme   patenteadas desde a virada do milênio. O
 hadal. A NASA, por exemplo, está usando   fractal (RAYE, 2014), conflitiva (ANSELMI,   potencial econômico para o futuro próximo,   transporte marítimo de cargas quadruplicou
 as lições da sonda Perseverance em Marte   2018) e transformadora (ERINOSHO, 2021).   haja vista que o progresso tecnológico ten-  desde 2000 e hoje responde por cerca de
 para colocar a Orpheus no fundo do mar.  Mas a lista não é exaustiva. Em síntese, tal-  de a viabilizar cada vez mais a sua explora-  2,5% das emissões de dióxido de carbono
 A outra estrutura concerne à partici-  vez a melhor pergunta que a governança   ção. Essas duas dimensões de um mesmo   (Virdin; Österblom; Jouffray, 2021). Esses e
 pação de empresários no financiamento   tenha a responder seja: qual jogo as gran-  problema complexo –  as dimensões  am-  outros são exemplos emblemáticos da ace-
 da pesquisa científica e na exploração de   des potências estão jogando?  biental/científica/tecnológica  e  econômica/   leração azul, conforme a Figura 2.



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