Page 179 - Livro - Economia Azul
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estratégico sino-russo e com o projeto chinês   defendemos algo mais próximo às teorias
 necessidade de criação de instituições para   para tratar das agendas econômica, comer-
 fortalecer o Bloco, e pelo enorme desafio   cial, social e ambiental, com vistas à constru-  de implementação da Nova Rota da Seda,   de  estabilidade  hegemônica,  quando  os
 de promoção da participação dos cidadãos   ção de uma nova ordem internacional. Ape-  evidenciado pela preocupação do Ocidente   estados mais poderosos patrocinam suas
 europeus nos processos decisórios para su-  sar da persistência e até aprofundamento da   na cúpula do G7 de dezembro de 2021 em   preferências dentro e fora do sistema ONU
 perar o “déficit democrático” identificado   clivagem Norte-Sul, diante da crescente con-  Liverpool, denominando Rússia e China como   ao mesmo tempo. Concomitantemente, as
 na literatura da época. Neste sentido, a go-  centração de renda no Norte, houve resul-  global agressors no caso da crise na Ucrânia.   mudanças por que passou o conceito de
 vernança significou também criar mecanis-  tados positivos no sentido da construção de   Em segundo lugar, um deslocamento do se-  segurança durante a  segunda  metade  do
 mos de diálogo, com prestação de contas   agendas multilaterais mais robustas, porém   tor público para o privado, em que as empre-  século XX indicam um aggiornamento, alte-
 (accountability) e construção de confiança   com resultados mitigados. Nesse contexto,   sas se tornam atores poderosos da necessária   rando a percepção de que o Estado seria o
 para legitimar novos processos de integra-  cabe destacar a Agenda 21, adotada na Con-  transição energética, das inovações tecnoló-  único elemento relevante. A proposta de Bu-
 ção política e delegação de competências.   ferência das Nações Unidas sobre Meio Am-  gicas e da exploração do espaço sideral, do   zan (1983) para que o componente humano
 Com os sucessivos alargamentos da UE e o   biente e Desenvolvimento (Rio-92), a Agen-  alto-mar e dos fundos marinhos.  ganhasse importância nos estudos de segu-
 desenvolvimento do seu arcabouço políti-  da do Milênio, que estabeleceu os Objetivos   No  que  concerne  à  lente  de  pesquisa   rança contribuiu para que o meio ambien-
 co-normativo, o desafio da governança tor-  de Desenvolvimento do Milênio – ODM (de   “justiça e alocação”, usaremos três pontos   te passasse a ser um dos setores decisivos
 nou-se ainda maior. Outros blocos, como o   2000 a 2015), e a Agenda 2030, que instituiu   de entrada para a reflexão sobre a gover-  nessa perspectiva. Em suma, para garantir a
 Tratado Norte-Americano de Livre Comércio   os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável   nança global: a perspectiva geopolítica (re-  sua segurança e a segurança internacional,
 – NAFTA (Estados Unidos, Canadá e México)   – ODS, iniciada em 2015. Entre as diversas   cursos de poder); a econômica, financeira   os Estados precisam fazer mais com menos
 e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e   agendas multilaterais e regionais que inte-  e comercial (recursos financeiros) e a de   recursos de poder. Nesse cenário, os Estados
 Uruguai) nos anos 1980-90, contribuíram   ressam ao processo, três fatores se mostram   ciência, tecnologia e inovação (recursos de   encontram-se obrigados a navegar em con-
 para o debate sobre a governança regional.  mais relevantes para a origem e evolução do   conhecimento e capacidades).  textos de crescente complexidade e incerte-
 Nessa linha, a promoção do multilatera-  emprego do conceito de governança: a he-  Sob a perspectiva geopolítica, “justiça   za (PRANTL; GOH, 2022).
 lismo como princípio organizador das rela-  gemonia norte-americana com a revitalização   e alocação” raramente entram no cálculo   Partindo da perspectiva econômica, finan-
 ções internacionais serviu para engajar po-  da  ONU como  garantidora da  governança   estratégico. Quando entram, servem para   ceira e comercial, o fim da Segunda Guerra
 los emergentes de poder na construção da   global e com o aval da UE; a crescente rele-  garantir os direitos soberanos dos Estados   Mundial levou à vitória da chamada “ordem
 “nova ordem”, durante o governo George   vância da OMC e dos bancos de desenvolvi-  mais poderosos, mas não de todos de for-  liberal ocidental” (PRANTL, 2014), ancorada
 H. W. Bush. À crescente e assimétrica inter-  mento internacional (Orliange, 2020), incluin-  ma coletiva. Prevalecem os interesses das   no eixo euro-atlântico. Sua característica mais
 dependência econômica e comercial entre   do o Banco dos BRICS (Rael, 2022) e o Banco   grandes potências, que moldam a lógica da   relevante atualmente é o empoderamento de
 Estados  (Prantl,  2021), somavam-se  fatores   Asiático de Investimento em Infraestrutura –     ação coletiva para o bem comum, institu-  empresas gigantes, cujo impacto direto sobre
 como a multipolaridade crescente, a necessi-  AIIB (Cunha et al., 2019); e a emergência de   cionalizada principalmente na ONU e gra-  a governança global é significativo. Além de
 dade de reformas no sistema onusiano para a   potências econômicas, notadamente China,   dativamente menos efetiva. Um dos casos   não serem consideradas de forma adequada
 acomodação de potências tecnológicas como   Índia e Brasil. Dos três, o Brasil foi o que mais   mais emblemáticos atualmente é o do lixo   no Direito Internacional Público (VARELLA,
 Japão e Alemanha, bem como de stakehol-  perdeu relevância e capacidade de interlocu-  espacial, que além de ser mal regulado pelo   2012), competem ou colaboram com os ato-
 ders  diversos, o atendimento das agendas   ção multilateral na última década.   direito internacional, geralmente termina   res estatais na regulação das relações interna-
 de desenvolvimento do então denominado   Com o novo milênio, o conceito de   no fundo do mar. O tema envolve Estados   cionais em todos os setores.
 “Terceiro Mundo” na década de 1960, tra-  governança global evoluiu para defini-  Unidos, China e Rússia, notadamente de-  Tomando as quatro agendas prioritá-
 tado mais recentemente como “Sul Global”   ções muito mais sofisticadas, com quadros   pois que um teste russo causou inseguran-  rias  de  Young  (2021)  –  clima,  pandemia,
 (BARROS-PLATIAU; SOENDERGAARD, 2021).  analíticos e teóricos que remetem à nossa   ça  para  as  operações  da  Estação  Espacial   ciberespaço e biotecnologia –, fica clara a
 A década de 1990 foi então considerada   capacidade de moldar o futuro (Woods et   Internacional, em janeiro de 2022. Com o   participação contínua e relevante de atores
 pela literatura ocidental como a Década da   al., 2013), em função de megatendências   Programa Orbital Prime, autoridades norte-  do setor privado nos processos decisórios
 ONU, em resposta ao Consenso de Washin-  que conduzem a um duplo deslocamento   -americanas pretendem regular a questão   internacionais. Por entenderem que os Es-
 gton. Nesta década, a ONU realizou diversas   de poder. Em primeiro lugar, um desloca-  com apoio do setor privado.  tados não entregam sozinhos os resultados
 conferências mundiais com um nível sem pre-  mento do Ocidente para a Ásia do Sudeste,   Embora alguns autores descrevam o fe-  esperados, esses atores investem em prá-
 cedentes de participação de seus membros,   com a consolidação do eixo energético-   nômeno como “crise do multilateralismo”,   ticas ambientais, sociais e de governança



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