Page 174 - Livro - Economia Azul
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              GOVERNANÇA DO OCEANO:                                                                                              coexistir com mais paz e segurança. A es-  TRÖM et al., 2009; STEFFEN et al., 2015),
                                                                                                                                 tabilidade e a previsibilidade necessárias  “aceleração azul” (JOUFFRAY et al., 2021;
              AS BALIZAS DA HISTÓRIA E A ESTRUTURA                                                                               para uma ordem mais justa e inclusiva  WOR 7, 2022) e Antropoceno (CRUTZEN;
              DO SISTEMA INTERNACIONAL                                                                                           seriam aprimoradas com a institucionali-  STOERMER, 2000; GOUDIE, 2017). O pri-
                                                                                                                                 zação das relações internacionais. A Or-
                                                                                                                                                                          meiro foi baseado em diferentes variáveis
                                                                                                                                 ganização das Nações Unidas (ONU) seria,   relacionadas à manutenção de um “espaço
                                                                                                                                 finalmente, o lócus privilegiado das nego-  de operação seguro” para a humanidade,
                                                                                                                                 ciações multilaterais (BARROS; PLATIAU  enquanto o Antropoceno remete ao acú-
                                                                      Ana Flávia Barros-Platiau
                                                                                                                                 e  SOENDERGAARD,  2021).  Criou-se  a  mulo de desafios antigos e novos para o
                                                                    Guilherme Lopes da Cunha                                     expectativa de que o paradigma da “se-   nosso futuro (FRÉMAUX, 2019; DAUVERG-
                                                                         Carlos Henrique Tomé                                    gurança coletiva” deixaria de ser apenas   NE, 2021; CADMAN, HURLBERT, SIMO-
                                                                                                                                 para os membros da mesma aliança es-     NELLI, 2021; ROSE; DADE, 2022) e para
                                                                                                                                 tratégica, notadamente OTAN e Pacto de  a gestão do oceano (LEVIN e POE, 2017;
                                                                                                                                 Varsóvia, e seria “globalizada” em conso-  BARROS-PLATIAU; OLIVEIRA, 2020).
                                                                                                                                 nância com a “segurança indivisível” e o    No contexto da aceleração azul, o pro-
                                                                                                                                 “o interesse geral da humanidade”.       jeto “Governança do Sistema Terra” (ESG
                                                                                                                                    Entretanto, tal hipótese tornou-se cada  Project, em  inglês) e seu quadro de pes-
                                                                                                                                 vez mais contestada pelo fato da “nova  quisa tornaram-se uma importante pista
                                                                                                                                 ordem” do final do século XX não levar  de reflexão para gestão da qualidade do
                                                                                                                                 aos resultados esperados. Ainda hoje per-  ambiente e da vida no planeta. Esta abor-
              Introdução                                                                                                         sistem os grandes desafios de combate à  dagem sugere não apenas uma perspecti-
                                                                                                                                 fome, à pobreza, à corrupção, à violência   va científica interdisciplinar, mas também
                 O oceano é um sistema único, com-      algum interesse nas agendas em negocia-                                  e à degradação ambiental (JOUFFRAY  et  uma visão de conjunto, com a sua comple-
              plexo e essencial para o suporte à vida no  ção) públicos e privados, com algum tipo                               al., 2021; YOUNG, 2021). De acordo com  xidade inerente. Assim, o quadro analítico
              planeta Terra (WOR 7, 2022), sobreposto  de mandato formal ou informal. Ela exige                                  os Relatórios Anuais da ONU, compatível  proposto no Plano Científico do ESG Pro-
              às divisões jurídicas, políticas e geográfi-  uma análise de como eles interagem, par-                             com diversos outros relatórios mundiais re-  ject de 2018 será utilizado como ponto de
              cas de mares e oceanos e conectado com  tindo da premissa de que a história recen-                                 centes, a qualidade da vida na Terra piorou  partida, conforme a Figura 1.
              a ciência climática (BORG, 2021; EZER e  te e a estrutura do sistema internacional                                 significativamente, com concentração de     A principal pergunta deste capítulo é:
              DANGENDORF, 2022; NICHOLSON et al.,  conduziram a um arcabouço diplomáti-                                          renda e injustiças sociais sem precedentes  como a governança do oceano se insere
              2022). Em que pese a sua importância  co e legal fragmentado e pouco efetivo,                                      na história recente (UN, 2019, 2021; UN-  na  e  dialoga  com  a  governança  global?
              crescentemente reconhecida, há desafios  que moldou diretamente a governança                                       DESA, 2020). As crises acumuladas com a  Mais  especificamente, em  que  medida a
              e perguntas que continuam a demandar  do oceano. Isto implica que as oportuni-                                     pandemia  de covid-19 agravaram  ainda  história recente e o sistema internacional
              respostas  efetivas  da  comunidade  inter-  dades e os obstáculos para a promoção                                 mais a situação em escala global (SACHS  contribuem para moldar a governança do
              nacional. Entre outras questões relevan-  da sustentabilidade planetária e da “eco-                                et al., 2021; WEF, 2022).                oceano? Neste contexto, analisaremos em
              tes, poderíamos questionar: quem gover-   nomia verde” (UNEP, 2011; KASZTELAN,                                        Da perspectiva da sustentabilidade  primeiro lugar o conceito de governança
              na - ou deveria governar - o oceano e suas  2017) se reproduzem, em larga medida,                                  global, apesar de grandes avanços em  de forma geral, com as condições contex-
              riquezas ainda tão pouco exploradas? As  para a Economia Azul.                                                     algumas agendas multilaterais, o sécu-   tuais da Figura 1 acima, notadamente do
              águas, os fundos e os recursos marinhos     O conceito de governança foi muito                                     lo XX foi marcado pelo aumento do uso  Antropoceno, e com a lente de pesquisa
              além da jurisdição nacional seriam espaço  utilizado para marcar o final da Guerra                                 de fontes fósseis de energia (JANCOVICI;     “justiça  e  alocação”  (parte  1),  para  de-
              e coisa sem dono (res nullius) ou de to-  Fria e da ordem bipolar, deixando augu-                                  BLAIN, 2021). Prevalecem paradigmas  pois focar mais especificamente no caso
              dos (res communis), sob livre exploração?  rar uma nova ordem baseada no Direito                                   que alertam para maiores danos e riscos  do oceano (parte 2), finalizando com uma
              A resposta não se limita a uma lista de  Internacional Público e em regras do jogo                                 ocorrendo com mais frequência e intensi-  breve reflexão sobre o Brasil (BARROS-PLA-
              stakeholders (atores visíveis ou não com  internacional que permitiriam aos Estados                                dade, como “limites planetários” (ROCKS-  TIAU; BARROS, 2017).



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