Page 178 - Livro - Economia Azul
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estratégico sino-russo e com o projeto chinês   defendemos algo mais próximo às teorias
               necessidade de criação de instituições para   para tratar das agendas econômica, comer-
               fortalecer o Bloco, e pelo enorme desafio   cial, social e ambiental, com vistas à constru-                     de implementação da Nova Rota da Seda,   de  estabilidade  hegemônica,  quando  os
               de promoção da participação dos cidadãos   ção de uma nova ordem internacional. Ape-                            evidenciado pela preocupação do Ocidente   estados mais poderosos patrocinam suas
               europeus nos processos decisórios para su-  sar da persistência e até aprofundamento da                         na cúpula do G7 de dezembro de 2021 em   preferências dentro e fora do sistema ONU
               perar o “déficit democrático” identificado   clivagem Norte-Sul, diante da crescente con-                       Liverpool, denominando Rússia e China como   ao mesmo tempo. Concomitantemente, as
               na literatura da época. Neste sentido, a go-  centração de renda no Norte, houve resul-                         global agressors no caso da crise na Ucrânia.   mudanças por que passou o conceito de
               vernança significou também criar mecanis-  tados positivos no sentido da construção de                          Em segundo lugar, um deslocamento do se-  segurança durante a  segunda  metade  do
               mos de diálogo, com prestação de contas   agendas multilaterais mais robustas, porém                            tor público para o privado, em que as empre-  século XX indicam um aggiornamento, alte-
               (accountability) e construção de confiança   com resultados mitigados. Nesse contexto,                          sas se tornam atores poderosos da necessária   rando a percepção de que o Estado seria o
               para legitimar novos processos de integra-  cabe destacar a Agenda 21, adotada na Con-                          transição energética, das inovações tecnoló-  único elemento relevante. A proposta de Bu-
               ção política e delegação de competências.   ferência das Nações Unidas sobre Meio Am-                           gicas e da exploração do espaço sideral, do   zan (1983) para que o componente humano
               Com os sucessivos alargamentos da UE e o   biente e Desenvolvimento (Rio-92), a Agen-                           alto-mar e dos fundos marinhos.          ganhasse importância nos estudos de segu-
               desenvolvimento do seu arcabouço políti-  da do Milênio, que estabeleceu os Objetivos                              No  que  concerne  à  lente  de  pesquisa   rança contribuiu para que o meio ambien-
               co-normativo, o desafio da governança tor-  de Desenvolvimento do Milênio – ODM (de                             “justiça e alocação”, usaremos três pontos   te passasse a ser um dos setores decisivos
               nou-se ainda maior. Outros blocos, como o   2000 a 2015), e a Agenda 2030, que instituiu                        de entrada para a reflexão sobre a gover-  nessa perspectiva. Em suma, para garantir a
               Tratado Norte-Americano de Livre Comércio   os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável                         nança global: a perspectiva geopolítica (re-  sua segurança e a segurança internacional,
               – NAFTA (Estados Unidos, Canadá e México)   – ODS, iniciada em 2015. Entre as diversas                          cursos de poder); a econômica, financeira   os Estados precisam fazer mais com menos
               e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e   agendas multilaterais e regionais que inte-                       e comercial (recursos financeiros) e a de   recursos de poder. Nesse cenário, os Estados
               Uruguai) nos anos 1980-90, contribuíram   ressam ao processo, três fatores se mostram                           ciência, tecnologia e inovação (recursos de   encontram-se obrigados a navegar em con-
               para o debate sobre a governança regional.  mais relevantes para a origem e evolução do                         conhecimento e capacidades).             textos de crescente complexidade e incerte-
                  Nessa linha, a promoção do multilatera-  emprego do conceito de governança: a he-                               Sob a perspectiva geopolítica, “justiça   za (PRANTL; GOH, 2022).
               lismo como princípio organizador das rela-  gemonia norte-americana com a revitalização                         e alocação” raramente entram no cálculo     Partindo da perspectiva econômica, finan-
               ções internacionais serviu para engajar po-  da  ONU como  garantidora da  governança                           estratégico. Quando entram, servem para   ceira e comercial, o fim da Segunda Guerra
               los emergentes de poder na construção da   global e com o aval da UE; a crescente rele-                         garantir os direitos soberanos dos Estados   Mundial levou à vitória da chamada “ordem
               “nova ordem”, durante o governo George    vância da OMC e dos bancos de desenvolvi-                             mais poderosos, mas não de todos de for-  liberal ocidental” (PRANTL, 2014), ancorada
               H. W. Bush. À crescente e assimétrica inter-  mento internacional (Orliange, 2020), incluin-                    ma coletiva. Prevalecem os interesses das   no eixo euro-atlântico. Sua característica mais
               dependência econômica e comercial entre   do o Banco dos BRICS (Rael, 2022) e o Banco                           grandes potências, que moldam a lógica da   relevante atualmente é o empoderamento de
               Estados  (Prantl,  2021), somavam-se  fatores   Asiático de Investimento em Infraestrutura –                    ação coletiva para o bem comum, institu-  empresas gigantes, cujo impacto direto sobre
               como a multipolaridade crescente, a necessi-  AIIB (Cunha et al., 2019); e a emergência de                      cionalizada principalmente na ONU e gra-  a governança global é significativo. Além de
               dade de reformas no sistema onusiano para a   potências econômicas, notadamente China,                          dativamente menos efetiva. Um dos casos   não serem consideradas de forma adequada
               acomodação de potências tecnológicas como   Índia e Brasil. Dos três, o Brasil foi o que mais                   mais emblemáticos atualmente é o do lixo   no Direito Internacional Público (VARELLA,
               Japão e Alemanha, bem como de stakehol-   perdeu relevância e capacidade de interlocu-                          espacial, que além de ser mal regulado pelo   2012), competem ou colaboram com os ato-
               ders  diversos, o atendimento das agendas   ção multilateral na última década.                                  direito internacional, geralmente termina   res estatais na regulação das relações interna-
               de desenvolvimento do então denominado      Com o novo milênio, o conceito de                                   no fundo do mar. O tema envolve Estados   cionais em todos os setores.
               “Terceiro Mundo” na década de 1960, tra-  governança global evoluiu para defini-                                Unidos, China e Rússia, notadamente de-     Tomando as quatro agendas prioritá-
               tado mais recentemente como “Sul Global”   ções muito mais sofisticadas, com quadros                            pois que um teste russo causou inseguran-  rias  de  Young  (2021)  –  clima,  pandemia,
               (BARROS-PLATIAU; SOENDERGAARD, 2021).     analíticos e teóricos que remetem à nossa                             ça  para  as  operações  da  Estação  Espacial   ciberespaço e biotecnologia –, fica clara a
                  A década de 1990 foi então considerada   capacidade de moldar o futuro (Woods et                             Internacional, em janeiro de 2022. Com o   participação contínua e relevante de atores
               pela literatura ocidental como a Década da   al., 2013), em função de megatendências                            Programa Orbital Prime, autoridades norte-  do setor privado nos processos decisórios
               ONU, em resposta ao Consenso de Washin-   que conduzem a um duplo deslocamento                                  -americanas pretendem regular a questão   internacionais. Por entenderem que os Es-
               gton. Nesta década, a ONU realizou diversas   de poder. Em primeiro lugar, um desloca-                          com apoio do setor privado.              tados não entregam sozinhos os resultados
               conferências mundiais com um nível sem pre-  mento do Ocidente para a Ásia do Sudeste,                             Embora alguns autores descrevam o fe-  esperados, esses atores investem em prá-
               cedentes de participação de seus membros,   com a consolidação do eixo energético-                              nômeno como “crise do multilateralismo”,   ticas ambientais, sociais e de governança



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