Hanseníase: mudança de paradigmas

Enviado em: 22/01/2020

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A hanseníase existe há cerca de 4 mil anos e acredita-se que a doença surgiu no Oriente, tendo se espalhado pelo mundo por tribos nômades ou navegadores. No Brasil, ela começou durante a colonização portuguesa. Antigamente conhecida como lepra, ou mal de Lázaro, era associada ao pecado e à impureza. Por falta de conhecimento, a hanseníase era confundida com outras doenças de pele e venéreas e, assim, corria o preconceito devido à crença de que a transmissão era via contato corporal ou sexual.

No Rio de Janeiro, os primeiros casos de hanseníase apareceram em 1600, mas apenas em 1873, a bactéria causadora foi identificada e as suposições de que a doença era fruto do pecado ou castigo divino foram afastadas. Porém, o preconceito persistiu e o isolamento manteve-se como a única medida capaz de conter o avanço da doença, uma vez que não se sabia ao certo como se dava sua transmissão. Receber de um médico o diagnóstico de “lepra” era como receber a notícia de que se havia morrido para a sociedade. Familiares e amigos não seriam mais vistos após tal diagnóstico.

Até 1950, 40 hospitais colônias foram construídos e cerca de 20 mil pessoas viviam internadas. Enquanto algumas conseguiam se adaptar à nova vida, para muitas era desafiador reconstruí-la do zero, mudando de profissão, convivendo com desconhecidos e tendo seus filhos levados para adoção após o parto nas colônias. Apenas em 1962, a internação compulsória dos doentes deixou de ser regra. Entretanto, após anos confinados muitos permaneceram nas colônias por não terem para onde ir, seja por não possuírem familiares ou pelo preconceito dos mesmos. Criou-se, assim, uma nova doença: a doença do isolamento.

Com o avanço das pesquisas médicas, descobriu-se que a transmissão da hanseníase ocorre através da respiração, a partir do contato com doentes que ainda não iniciaram o tratamento. Terapias foram desenvolvidas e, em 1981, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar a poliquimioterapia (PQT). O tratamento consiste em uma associação de antibióticos contra a hanseníase, capaz de curar a doença sem que o paciente precise se afastar de suas atividades, ou seja, sem prejuízos sociais como antigamente. A doença é a mesma, mas o tratamento é muito mais eficaz, sendo possível evitar o desenvolvimento das deformidades estigmatizantes da doença, quando iniciado de forma precoce. Além disso, para reduzir o preconceito, o termo “lepra” não deve mais ser usado.

Janeiro Roxo é a campanha criada para a conscientização sobre a hanseníase. Seu objetivo é divulgar informações a respeito da doença, que ainda é vista com preconceito e desinformação. O Brasil ainda ocupa o segundo lugar em número de casos no mundo, por isso, é preciso refletir sobre as mudanças de paradigma da hanseníase nesta nova realidade da doença.

Quanto mais precoce for o início do tratamento, menores as chances de o paciente transmitir a doença e de desenvolver deformidades e incapacidades físicas. Portanto, é sempre válido lembrar: não deixe para depois uma consulta médica para avaliação de perda de sensibilidade e lesões de pele suspeitas.


Capitão-Tenente(Md) Aline Fassini
Assistente da Clínica de Dermatologia
Hospital Naval Marcílio Dias





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