A luta contra a AIDS

O Dia Mundial de Luta Contra a AIDS é celebrado no dia 1º de dezembro por uma decisão da Organização Mundial de Saúde, com apoio da ONU. No Brasil, a data passou a ser adotada a partir de 1988.

O Saúde Naval preparou para você uma entrevista especial com um infectologista. O Capitão-de-Mar-e-Guerra (Md) André Germano de Lorenzi, Diretor do Hospital Central da Marinha, esclarece aqui as principais dúvidas sobre o assunto.

O que é a Aids?

AIDS é uma sigla em inglês que significa "Acquired Immune Deficiency Syndrome", o que em português seria SIDA ou "Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida". Isto é, uma doença caracterizada por deficiência do sistema imunológico do indivíduo. O sistema imunológico é um conjunto de órgãos e células especializadas, que todos nós possuímos, que são responsáveis pela nossa defesa contra agentes agressores (bactérias, fungos, vírus, protozoários, células cancerosas). Quando o sistema imunológico não funciona adequadamente, o indivíduo fica muito mais sujeito a adquirir doenças causadas por um ou mais desses agentes. É isso exatamente o que acontece quando uma pessoa tem AIDS.

Quais as principais formas de transmissão do vírus?

O HIV pode penetrar no organismo do ser humano através de um dos seguintes mecanismos: relação sexual; transfusão de sangue; uso de agulhas ou outros instrumentos penetrantes não esterilizados (como uso de drogas) e da mãe para o filho durante a gravidez, parto ou amamentação. Tanto a relação homossexual masculina (homem com homem) quanto a heterossexual (homem com mulher) podem transmitir o vírus, desde que um dos dois parceiros esteja infectado. Por isso, o estímulo ao uso preservativo (ou camisinha), as campanhas de combate as drogas e o controle de qualidade do sangue doado, são nossos principais aliados na luta contra a AIDS.

Que tipo de exame é realizado para saber se a pessoa possui o vírus?

Os exames mais comuns são imunológicos, que detectam se determinada pessoa possui anticorpos contra o HIV. Quando um exame imunológico anti-HIV apresenta resultado “positivo” ou “reagente”, significa que os anticorpos estão presentes e que, portanto, a pessoa já entrou em contato com o vírus. Sempre que um exame anti-HIV tem resultado positivo, há necessidade de se realizar um teste confirmatório a partir de uma nova amostra de sangue.

O que é o período conhecido como janela imunológica?

Trata-se do período de tempo que decorre entre o dia que houve a infecção e a concentração de anticorpos no sangue estar suficientemente elevada a ponto de ser detectada pelos exames anti-HIV convencionais. Esse período costuma variar entre 15 e 60 dias, dependendo da metodologia utilizada. Já os testes moleculares, mais sofisticados e que detectam material genético do vírus, podem apresentar resultados positivos poucos dias após a infecção inicial.

Quais são os sintomas da doença? Quanto tempo depois da contaminação pelo vírus do HIV aparecem os primeiros sintomas?

Uma vez tendo penetrado no corpo humano, o vírus pode permanecer sem causar qualquer sintoma aparente por muito tempo. Durante esse período, o indivíduo só saberá que é portador do vírus se fizer testes laboratoriais específicos. Esse é o chamado portador assintomático que, embora sem qualquer sintoma, pode estar com uma alta replicação viral em seu organismo que, vagarosamente, vai comprometendo o sistema imunológico. Após esse período, que em geral varia entre 5 e 10 anos (período de incubação), o indivíduo que não se submeteu a qualquer tipo de tratamento tem suas células de defesa em número tão baixo, que os germes que normalmente não causam doenças passam a ser extremamente perigosos. Surgem então sintomas como emagrecimento, febre e diarreia crônica e as doenças oportunistas como a toxoplasmose cerebral e a candidíase de esôfago, entre muitas outras.

Qual a expectativa de vida de uma pessoa que tem diagnóstico de HIV comparado a quem não tem a doença?

A expectativa de vida de uma pessoa portadora do HIV que realiza acompanhamento médico corretamente e utiliza os medicamentos de forma regular, é semelhante à de pessoas não portadoras do HIV.

Como é feito o tratamento e o que são os medicamentos antirretrovirais?

Com o permanente desenvolvimento de novos medicamentos, os indivíduos portadores do HIV que fazem acompanhamento médico têm, cada vez mais, ficado livres das infecções oportunistas. Atualmente, com a administração de um "coquetel" de medicamentos (existem várias combinações diferentes, para serem usadas de acordo com cada caso) consegue-se manter o vírus com seu ciclo de replicação muito lento, o que permite a recuperação progressiva das células de defesa. Como o HIV é um vírus que pertence à família dos retrovírus, os medicamentos são denominados antirretrovirais.

O que são os chamados "casais sorodiscordantes”?

São casais nos quais um dos membros é portador do HIV e o outro não.

Casais sorodiscordantes podem ter filhos livres de uma contaminação?

Sim, podem. Mesmo que a futura gestante seja portadora do HIV, há como diminuir significativamente o risco de transmissão para o filho para taxas em torno de 1%. Nesses casos é indispensável que o casal converse com o médico infectologista sobre os planos de ter um filho, pois existem algumas combinações de medicamentos que são mais indicadas para gestantes e, além disso, o exame de sangue deve demonstrar que o vírus está indetectável no organismo e a imunidade não pode estar muito comprometida. Também é aconselhável que o casal procure uma clínica especializada em reprodução humana, com a finalidade de avaliar qual o melhor método de fertilização a ser utilizado.

O Sr. considera que devido às novas possibilidades de tratamento e a possibilidade de o doente alcançar qualidade de vida, tem havido crescimento no número de casos?

É possível que sim. Entretanto, é muito importante lembrar que a infecção pelo HIV ainda é uma condição incurável e que os medicamentos, embora muito eficazes, podem ter efeitos colaterais importantes ao longo do tempo de sua utilização. Há também o risco de haver resistência do vírus aos medicamentos, com progressão para a fase sintomática que caracteriza a AIDS.

Qual a importância da prevenção? Como evitar a transmissão do vírus?

Sem qualquer sombra de dúvida o melhor é evitar a infecção. Como ainda não existe vacina contra a infecção pelo HIV aprovada para uso regular, o mais importante continua sendo a prevenção e a informação do público. Ou seja, a camisinha, o combate as drogas, o uso de agulhas e seringas descartáveis e o rigoroso controle do sangue doado, continuam sendo os meios mais baratos, mais abrangentes e mais eficientes de se combater a AIDS em todo o mundo.

Por que a terminologia IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) substituiu a DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis)?

A denominação IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) é realmente mais apropriada. O termo “doença” caracteriza a existência de sintomas. Como grande parte das infecções transmitidas por via sexual é assintomática, ou seja, a pessoa se sente perfeitamente normal, a sigla IST foi adotada exatamente para lembrar às pessoas esse fato: que podem estar muito bem-dispostas e, ainda assim, serem portadoras de infecções que podem ser transmitidas e que podem levar a uma grave doença com o passar do tempo. Tal é o caso da própria infecção pelo HIV, vírus da hepatite B e sífilis, apenas para citar alguns exemplos.