No silêncio branco e absoluto da Antártica, onde o frio extremo, o isolamento e a limitação de recursos desafiam diariamente os que ali permanecem, uma nova frente científica brasileira busca responder a uma pergunta estratégica: como o corpo e a mente humanos reagem a longos períodos em ambientes classificados como isolados, confinados e extremos (ICE)?
É nesse cenário que o MEDIANTAR, projeto apoiado pela Marinha do Brasil (MB), coloca a saúde e o desempenho humano no centro das pesquisas conduzidas no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). Com atividades previstas entre 2025 e 2026, o estudo acompanha militares e pesquisadores que permanecerão por até 13 meses na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), monitorando aspectos fisiológicos, neurocognitivos e comportamentais decorrentes da exposição prolongada ao ambiente antártico.
“O objetivo principal do nosso grupo é compreender as respostas fisiológicas, cognitivas e comportamentais diante das condições ICE e identificar estratégias para aprimorar as práticas de saúde voltadas aos participantes de missões antárticas, considerando também os potenciais impactos das mudanças climáticas sobre a fisiologia e a saúde humana”, explica o coordenador do projeto, professor Thiago Mendes (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
A fase inicial já acontece durante o verão austral, entre novembro de 2025 e março de 2026, quando a equipe realiza a coleta presencial de dados na Antártica. Após esse período, o acompanhamento seguirá de forma remota ao longo do inverno, quando as condições climáticas restringem o embarque e desembarque no continente gelado. Uma nova etapa de coleta está programada para novembro de 2026.
Atividade física como estratégia de mitigação
A missão da equipe da UFBA é investigar de que forma a atividade física pode mitigar possíveis prejuízos associados à permanência prolongada em ambientes extremos. A pesquisa está vinculada ao Laboratório de Fisiologia do Exercício e Saúde (LAFES) e ao grupo Mediantar, que conta ainda com a subcoordenação da professora Rosa Maria Arantes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo Mendes, a área de Medicina Polar é recente no Brasil e foi oficialmente incorporada ao último Plano Decenal para a Ciência Antártica (2023-2032), publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Trata-se de um campo estratégico para o País, especialmente no contexto das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre a saúde humana”, destaca.
A iniciativa também se consolida como espaço de formação de recursos humanos especializados, reunindo discentes de mestrado, doutorado e pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Medicina e Saúde da UFBA, além de estudantes de iniciação científica (PIBIC) e de iniciação tecnológica (PIBITI).
O projeto conta com financiamento e apoio do MCTI, do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN)/MB), Petrobras, Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), CNPq e Capes.
Entrevista | Preparação física e ciência aplicada à operação antártica
À frente da coordenação do projeto no âmbito do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN), a Capitão de Corveta (RM3 - Quadro-Técnico) Valéria Cristina de Faria, pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Ciências do Exercício e Performance (LABOCE/CEFAN), destaca a importância estratégica do MEDIANTAR para a Força.
Agência Marinha de Notícias (AgMN) — Qual é o papel do CEFAN no MEDIANTAR?
Capitão de Corveta (RM3 - Quadro-Técnico) Valéria Faria: O CEFAN atua na integração entre ciência e operacionalidade. Nossa missão é contribuir com a expertise em avaliação física, treinamento e acompanhamento da saúde e desempenho dos militares, garantindo que os protocolos científicos estejam alinhados às demandas reais das missões antárticas.
AgMN — De que forma os resultados podem impactar a rotina dos militares que servem na Antártica?
CC (RM3-T) Valéria Faria: A expectativa é que os dados subsidiem a construção de protocolos mais precisos de preparação física, acompanhamento fisiológico e suporte psicofísico. Isso significa mais segurança, melhor desempenho e maior capacidade de adaptação em um ambiente reconhecidamente extremo.
AgMN — O que torna o ambiente antártico particularmente desafiador do ponto de vista fisiológico?
CC (RM3-T) Valéria Faria: O conjunto de fatores: frio intenso, alteração do ciclo claro-escuro, risco aumentado de desidratação decorrente do microclima quente e úmido gerado pelas vestimentas de proteção, além do isolamento social e confinamento prolongado. Esses elementos afetam sono, termorregulação, metabolismo, cognição e estado emocional. Com base em evidências científicas, poderemos aprimorar estratégias preventivas e de intervenção.

PROANTAR: presença estratégica e ciência de ponta
Criado em 12 de janeiro de 1982, o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) consolidou o Brasil como membro consultivo do Tratado da Antártica a partir de 1983, assegurando participação plena nos processos decisórios relativos ao futuro do continente.
A Antártica desempenha papel essencial nos sistemas naturais globais, influenciando circulações atmosféricas e oceânicas, além de impactar diretamente o clima e as condições de vida no hemisfério sul. Para o Brasil, sétimo País mais próximo da região antártica, compreender os fenômenos que ali ocorrem é estratégico para a agricultura, a pecuária, a pesca e para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas.
Ao priorizar a segurança e as boas condições de trabalho daqueles que atuam no continente branco, o PROANTAR reforça a importância de pesquisas como o MEDIANTAR, que ampliam o conhecimento científico e fortalecem a presença brasileira na região.

Em um cenário global de transformações climáticas e disputas geopolíticas crescentes, estudar o impacto do ambiente extremo sobre o ser humano é também investir em soberania, preparo e capacidade de resposta. Na Antártica, ciência e estratégia caminham lado a lado — e o Brasil segue firme nessa travessia


