Neste dia 8 de março, quando o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, a Marinha do Brasil (MB) reforça um compromisso que vem sendo construído há décadas: ampliar espaços, reconhecer competências e consolidar o protagonismo feminino em suas fileiras. Desde a incorporação das primeiras mulheres à Força com a criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha, há 45 anos, a Marinha vem se destacando como pioneira na integração feminina às Forças Armadas. Com o tempo, a presença das mulheres deixou de ser uma novidade para se tornar parte essencial da estrutura que sustenta o Poder Naval, ocupando funções técnicas, operativas e de liderança em todo o País.
Hoje, com a publicação da Portaria nº 270/MB, de 2025, em que a MB rompeu barreiras históricas ao ampliar a participação feminina em atividades operativas, incluindo operações especiais, operação de submarinos e mergulho, as mulheres têm a possibilidade de atuação plena em todos os setores da Força Naval. Essa mudança permitiu que as militares atuem em funções de alta exigência física, psicológica e técnica.
No decorrer dessa trajetória, as militares romperam paradigmas e abriram caminhos para as novas gerações, contribuindo para uma Marinha mais representativa, moderna e preparada para os desafios contemporâneos. Essas mulheres, além do compromisso com a defesa do País, conciliam a carreira naval com os desafios e responsabilidades da vida cotidiana - como mães, filhas, esposas e líderes em seus lares e comunidades - demonstrando que a dedicação ao serviço naval caminha lado a lado com a sensibilidade, o cuidado e a garra presentes em seus múltiplos papéis. Ao celebrar o Dia Internacional da Mulher, a Força homenageia não apenas uma data simbólica, mas a história viva de mulheres que, com dedicação e excelência, constroem diariamente o presente e o futuro da Força Naval.
No topo da hierarquia
Em 2012, a MB tornou-se a primeira Força Armada do País a promover uma mulher ao posto de Oficial-General, com a ascensão da Contra-Almirante (Médica) Dalva Maria Carvalho Mendes ao Almirantado. O marco inaugurou uma nova etapa na presença feminina nos níveis mais elevados da hierarquia naval, processo que se consolidou nos anos seguintes com novas promoções.
Entre elas está a Capitão de Mar e Guerra (Engenheiro Naval) Ana Greco, recém-promovida ao posto de Contra-Almirante. A portaria já foi publicada, e a mudança será efetivada em 31 de março. Com isso, ela se tornará a oitava mulher a alcançar o posto de Oficial General na Marinha.
Engenheira eletrônica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela ingressou na Força em 1998, após apresentar um trabalho científico no Instituto de Pesquisas da Marinha durante um Encontro de Acústica e Tecnologia Submarina - experiência que contribuiu para sua decisão de seguir a carreira naval.
Ingressei na Marinha quando meu filho tinha um ano e meio, e a carreira de engenheira muitas vezes exige embarques e períodos dedicados a testes e avaliações de sistemas a bordo dos meios navais. Nessa jornada, o apoio da família foi essencial para conciliar as responsabilidades da vida profissional com a vida familiar”, conta.

Futura Contra-Almirante (Engenheiro Naval) Ana Greco em sua formatura no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk com seu filho no colo, em 1998 - Imagem: Acervo pessoal
No decorrer da carreira, a futura Contra-Almirante (Engenheiro Naval) Ana Greco atuou em áreas de elevada complexidade tecnológica, como acústica submarina, sistemas de sonar para sistemas de combate e armamentos, além da gestão de projetos estratégicos relacionados aos meios navais. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, ela dirigiu o Centro de Mísseis e Armas Submarinas da Marinha (CMASM) e, atualmente, exerce a função de Superintendente de Armas e Munições na Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), elemento central da capacidade de combate e da prontidão operativa da Marinha.
Atuar em áreas técnicas de elevada complexidade exige preparo constante, dedicação e responsabilidade. A engenharia, por si só, já é tradicionalmente um campo predominantemente masculino, e muitas das áreas técnicas da Marinha apresentam essa mesma característica. Nesse contexto, é importante reconhecer o caminho aberto pelas mulheres que ingressaram na Marinha a partir de 1980. O pioneirismo dessas militares permitiu que as gerações seguintes pudessem desenvolver suas carreiras com naturalidade dentro da Instituição”, destaca.

No período de 2023 a 2025, a recém-promovida a Contra-Almirante, Capitão de Mar e Guerra (Engenheiro Naval) Ana Greco dirigiu o Centro de Mísseis e Armas Submarinas da Marinha (CMASM) - Imagem: Acervo pessoal
A futura Contra-Almirante (Engenheiro Naval) Ana Greco acrescenta que a Marinha continuará sendo um espaço de oportunidades para aqueles que desejam servir com disciplina, competência e compromisso e deixa uma mensagem de reconhecimento e incentivo àquelas que já trilham ou desejam trilhar carreira na Força:
“Às mulheres que já servem à Força Naval, deixo meu reconhecimento pela contribuição diária ao fortalecimento da Instituição. Àquelas que desejam ingressar na Marinha, a mensagem é de confiança: trata-se de uma carreira exigente e honrosa, que oferece a oportunidade de servir ao País e contribuir para a defesa nacional”, enfatiza.
Na linha de frente operativa
Em 2024, 114 soldados do sexo feminino prestaram juramento à Bandeira Nacional, tornando-se as primeiras combatentes anfíbias da história do País. Com a formação dessa primeira turma feminina de Soldados Fuzileiros Navais, as mulheres começaram a desbravar diversas frentes no setor operativo da Força. É nesse contexto que se destaca a trajetória da Soldado (Fuzileiro Naval) Lugon, uma das duas primeiras mulheres habilitadas no Estágio de Qualificação Técnica Especial de Operação da Viatura Blindada Leve Sobre Rodas 4x4 JLTV (Joint Light Tactical Vehicle), em que os militares são treinados para operar viaturas especializadas.

A Soldado (Fuzileiro Naval) Lugon foi uma das duas primeiras mulheres capacitadas pela Marinha para operar viaturas blindadas - Imagem: Acervo pessoal
O interesse pela carreira militar surgiu ainda na infância. “O que me motivou foram os desfiles de 7 de setembro que ocorriam no centro da cidade. Quando eu era pequena, meus pais sempre me levavam para assistir, e eu admirava bastante e pensava que um dia poderia ser eu”, lembra.
Durante a formação militar, a Soldado Lugon enfrentou desafios físicos, mas persistiu rumo aos seus objetivos. “Durante o curso de formação, temos marchas para o combate de 12km e 16km com armamento e todo material em uma mochila que pesa aproximadamente 15kg, sem dúvidas eram os momentos mais desafiadores para mim, mas consegui concluir com êxito todas as marchas”, relata.
Ela ressalta que, como mulher, o processo de adaptação à rotina militar no início da carreira foi uma experiência de aprendizado e crescimento pessoal e profissional.
“Desde o primeiro momento, percebi que a formação é pautada pela isonomia, na qual todos os militares são preparados e avaliados com base nos mesmos princípios, valores e critérios, independentemente de gênero”, reforça.
Sobre o pioneirismo na habilitação para operar viaturas blindadas, a Soldado Lugon afirma que a conquista representa uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade. “Para mim, significa representar o avanço da presença feminina em atividades operativas dentro de uma instituição que valoriza a meritocracia, a capacitação e a igualdade de oportunidades”, frisa.
Para a Soldado, o sentimento predominante ao vestir a sua farda de Fuzileiro Naval é o de orgulho. “Orgulho de integrar uma instituição centenária, reconhecida por sua história, tradição e compromisso com a defesa do País. Como mulher, vestir essa farda também simboliza representatividade e empoderamento. É a certeza de que estamos conquistando espaços com base no mérito e na qualificação, contribuindo ativamente para o fortalecimento da instituição e para o cumprimento das missões com profissionalismo e excelência”, completa.

A Soldado (Fuzileiro Naval) Lugon superou desafios e hoje se orgulha de integrar o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil - Imagem: Acervo pessoal
Entre a farda e o lar
Conciliar a carreira militar com a maternidade - incluindo uma maternidade atípica - é uma realidade vivida diariamente pela Capitão de Corveta (Quadro-Técnico) Vivian Cristina, que integra a Marinha desde julho de 2001. Mãe de três filhos, sendo o mais velho diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ela afirma que a trajetória na Força sempre esteve alinhada ao propósito familiar.
“Minha carreira não compete com minha maternidade. Eu sirvo à Marinha com honra e sirvo à minha família com amor. Uma missão não anula a outra. Ambas fazem parte da mulher que eu sou e em todos esses processos, a fé me ensinou a confiar que Deus nos capacita para os desafios que nos confia”, resume.
Ao recordar o início da caminhada, a Comandante define o ingresso na MB como a realização de um sonho que exigiu renúncia, disciplina e fé. “Cada promoção não representou apenas avanço hierárquico, mas a confirmação de que o esforço diário e a constância produzem resultados. Ao olhar para trás, percebo que os momentos mais marcantes não foram apenas as conquistas formais, mas os períodos de maior exigência — cursos intensos, funções operacionais desafiadoras e decisões tomadas sob pressão. Foram nesses cenários que aprendi que liderança não se impõe; se constrói pelo exemplo, pela coerência e pela responsabilidade. A farda nos lembra diariamente que autoridade é compromisso diante da Nação e, para mim, também diante de Deus”, explica.

Capitão de Corveta (Quadro-Técnico) Vivian Cristina é mãe de três filhos e concilia a carreira militar com a maternidade atípica - Imagem: Acervo pessoal
Sobre os desafios enfrentados como mulher na Força, a Capitão de Corveta é categórica:
“Esses desafios não me endureceram, me fortaleceram. Aprendi que excelência técnica é linguagem universal. Quando entregamos resultado, consistência e postura, o respeito se estabelece naturalmente”. Para ela, ser uma mulher militar exige preparo técnico, equilíbrio emocional e firmeza de caráter. “Quando sabemos quem somos e quais são nossos valores, não precisamos disputar espaço — ocupamos com dignidade e responsabilidade. Ser mulher na Marinha não é obstáculo. É diferencial estratégico: traz visão, gestão emocional e capacidade de articulação”, afirma.
Para a Comandante, cada mulher que assume posição de liderança amplia o horizonte das que estão chegando. “Representar outras mulheres significa demonstrar que é possível construir uma carreira sólida, manter valores, formar família e contribuir estrategicamente para a Instituição. Liderança feminina não é sobre competir. É sobre contribuir. Quando uma mulher avança com competência e caráter, ela abre caminho para outras caminharem com mais segurança. A Marinha é composta de pessoas e quanto mais diversa, mais forte se torna”, enfatiza.
Às mulheres que desejam conciliar carreira e maternidade, dentro e fora da MB, ela diz com serenidade: é possível. “Não esperem o cenário ideal para avançar. Ele não virá pronto. Haverá dias de cansaço e dúvidas, mas também haverá crescimento, maturidade e orgulho. Preparem-se, estudem, organizem-se e não deixem que o medo limite seus sonhos. É possível servir, liderar, maternar e sonhar! Disciplina constrói carreira. Amor sustenta a família. Fé mantém o coração em paz. Podemos servir à Nação, honrar nossa família e permanecer firmes em nossos valores. Não porque seja fácil ou simples, mas porque fomos capacitadas para isso”, completa.
Hoje, não há mais limitações ao acesso das mulheres aos diferentes postos e áreas de atuação da Marinha. Elas podem estar no timão dos navios, na Aviação Naval, a bordo dos submarinos e em funções operacionais estratégicas.


