Page 699 - Livro - Economia Azul
P. 699
e nas necessidades do setor de petróleo. Es- te introdução: panorama internacional da Navy (RCN), estabelecida em 1910, lidava poder naval e a soberania nacional (COL-
sas demandas têm garantido investimentos construção naval, para situar o leitor quanto com embarcações antigas e sucateadas, TON; HUNTZINGER, 2002).
na infraestrutura e desenvolvimento tecno- ás origens da indústria de construção naval após tentativa falha do primeiro-ministro Apesar de alguns fatores serem comuns
lógico do Brasil. e os maiores construtores internacionais; a Sir Wilfrid Laurier de equipar a marinha à construção naval ao redor do mundo, in-
Desse modo, o capítulo tem como história da construção naval no Brasil, des- com embarcações projetadas e construídas fluenciando a competitividade no mercado
principal objetivo trazer um panorama da tacando o papel das encomendas militares e no país (BARRETO, 2021a). internacional, como custo, layout das em-
indústria de construção naval brasileira, do setor de óleo e gás para o seu desenvol- Durante a Segunda Guerra Mundial barcações, desenvolvimento tecnológico e
destacando sua importância econômica e vimento; e o papel da inovação nesse cená- (1939-1945), diversos países investiram ciclos da demanda; todos esses fatores so-
social para o país. Para isso, o texto é di- rio. A conclusão traz algumas ponderações massivamente na sua indústria de constru- frem impactos de questões específicas de
vidido em quatro partes, além da presen- para o futuro da construção naval brasileira. ção naval, principalmente pelo destaque cada país. A forma como o governo inter-
que as embarcações tiveram no conflito fere e organiza esse setor pode definir sua
2. Panorama internacional da construção naval anteriormente. A necessidade em larga es- atuação e espaço no cenário internacional,
cala fez com que o setor se adaptasse para principalmente porque muitos setores se
A prática da construção naval é eviden- diferentes países que não conseguiram constituir uma produção mais rápida, inclu- tornam dependentes dos incentivos do Es-
ciada ao longo da história da humanidade, acompanhar o desenvolvimento tecnológi- sive adotando a prática de “linha de produ- tado para sobreviver (TODD, 2019).
com o desenvolvimento de embarcações co, como no caso do Canadá. A indústria ção” e a pré-fabricação de algumas partes No Canadá, o setor de construção na-
para cruzar rios e oceanos. Foi durante a de construção naval canadense tem seu e peças dos navios (TODD, 2019). val teve o Estado como o principal res-
Primeira Revolução Industrial, no final do sé- início no período em que o país ainda era No Canadá, o governo deu uma sé- ponsável pelo seu desenvolvimento e es-
culo XVIII e início do século XIX, o primeiro colônia do Reino Unido, no século XIX. O rie de incentivos para o desenvolvimento tabilização em momentos de crise, sendo
salto de desenvolvimento do setor, com o desenvolvimento dessa atividade foi im- dos estaleiros, principalmente para com- completamente voltada para as demandas
advento das máquinas a vapor e, no meio pulsionado pelo aumento da população e pensar a desmobilização da indústria de nacionais. Isso se dá, principalmente, pela
naval, a criação das primeiras docas secas na o comércio de madeira com a metrópole, construção naval após o fim da Primeira prática do país de investir nos momentos
Inglaterra. O período foi marcado por uma principalmente nos estaleiros localizados Guerra Mundial. Mesmo com uma série de crise e, após esses momentos de alto
melhoria significativa na construção das em- em Quebec (WILSON, 2009). de investimentos, a indústria do país não crescimento, quedas bruscas pela falta de
barcações, causando menos naufrágios e Ainda no início do seu desenvolvimen- tinha conhecimento tecnológico nem ha- demanda. Essa tradição de “produzir para
melhor navegabilidade (TODD, 2019). to, o setor sofreu uma queda na produção bilidades específicas para a construção de responder” afeta diretamente a estrutu-
Os projetos e materiais utilizados na por causa das novas embarcações constru- grandes embarcações. Por isso, a pedido ra do mercado e a conduta das empresas
construção naval foram gradualmente al- ídas em aço. Logo, políticas de incentivo da Marinha do país, o foco foi a constru- (BARRETO, 2020).
terados durante o século XIX. Os barcos por parte do governo eram demandadas ção de destroyers classe Tribal, baseados Reconhecendo a importância da área
feitos de madeira tiveram o acréscimo tí- pelos estaleiros, que se concentravam na nos projetos da Marinha Britânica (SHOU- para a criação de empregos nas regiões
mido de ferro para confecção de juntas região costeira do país, mas não eram de- TE, 2015). costeiras, mais afastadas dos centros indus-
mais resistentes no convés. Foi em 1843 vidamente atendidas. O setor se manteve Após a Segunda Guerra Mundial, uma triais do país, o governo geralmente se utili-
que o primeiro navio com o casco feito até meados do século XIX através de de- série de práticas adotadas durante a guerra za desses impactos positivos para defender
de ferro foi concebido, construído pelo mandas do Reino Unido (BARRETO, 2020). para uma fabricação mais rápida se estabe- os projetos diante da opinião pública. O
engenheiro Isambard Kingdom Brunel. Foi apenas com o início da Primeira leceram na indústria de construção naval, país também adota a política de compen-
O navio Great Britain foi projetado para Guerra Mundial (1914-1918) que essa in- em especial a utilização de seções pré-fa- sações industriais em todas as suas aqui-
levar 250 passageiros e teve sua primei- dústria voltou a ser altamente demandada bricadas em blocos para ganhar tempo sições, inclusive as nacionais, buscando o
ra viagem em 1845. Esse projeto repre- pelo governo para suprir o número de em- no processo com menor esforço. Alguns desenvolvimento econômico e tecnológico
sentou uma grande ruptura com a tradi- barcações necessárias para a marinha Britâ- exemplos desses componentes são tubos de outros setores (BARRETO, 2021b).
ção de construção de navios de madeira nica, ainda com dificuldades para assimilar e cabos elétricos. Ademais, com o fim do Não foi apenas o Canadá que investiu
(COLTON; HUNTZINGER, 2002). os novos conhecimentos de construção de conflito, a indústria de construção naval em políticas de subsídio para a indústria de
Essa mudança na matéria-prima dos na- embarcações de aço (YOUNG, 2012). Até ganhou destaque em diversos países como construção naval. Entretanto, por criar uma
vios prejudicou o setor de construção em esse momento, a própria Royal Canadian uma atividade estratégica para garantir o distorção na competição internacional,
696 ECONOMIA AZUL Indústria Naval Brasileira 697

