Page 540 - Livro - Economia Azul
P. 540
Como mencionado, ainda são poucos supre energia elétrica e dessalinização. uma opção a mais para o transporte marí- com razoável potencial de utilização futu-
os exemplos de uso civil de propulsão nu- Uma segunda geração dessas FNPP, cha- timo. Como a frota mercante mundial tem ra. O fornecimento de energia por reatores
clear no mar. Contudo, a expansão desse madas Optimised Floating Power Units – capacidade de consumir 410 GWt, o que re- submersos (subsea), o emprego de técni-
uso, estimulada por questões climáticas, OFPU, está sendo desenvolvida. presenta cerca de um terço da potência ge- cas nucleares para preservação de alimen-
levaria a um crescimento da indústria na- Um projeto dinamarquês propõe insta- rada por usinas nucleares, há amplo espaço tos na indústria pesqueira e o emprego de
val em vários países, sem estar necessa- lar, em barcaças flutuantes, modernos re- para crescimento do uso, direto ou indireto, SMR para geração de energia, dessaliniza-
riamente restrita àqueles que fazem uso atores compactos a sal fundido (compact da energia nuclear no mar. ção, aquecimento e refrigeração em regi-
militar, com razoável impacto econômico, molten salt reactors), cujo combustível nu- Em decorrência disso, desde 2009, vá- ões costeiras, ilhas e bases oceânicas.
dados os recursos de monta envolvidos clear vem misturado a sais de fluoretos, rios estudos vêm sendo realizados sobre Microrreatores ou SMR submersos a
na construção das embarcações. em estado líquido acima de 500 C e a propulsão nuclear para navios mercantes diferentes profundidades vêm sendo es-
o
Para que essa expansão possa ocorrer, pressão próxima da atmosférica, de modo na China, no Reino Unido, nos Estados tudados como possíveis fontes de energia
será preciso construir navios de propulsão a fluir e também atuar como refrigeran- Unidos e no Canadá. Esses estudos tratam elétrica para regiões costeiras e exploração
nuclear cuja operação seja economicamen- te. Tais reatores são mais seguros porque, de viabilidade econômica, mitigação de de petróleo e gás (Cotta et al., 2020). A
te compensadora e que incorporem novas dentre outras razões, o líquido se solidifica efeitos climáticos, uso de SMR e aspectos primeira usina nuclear submarina projeta-
tecnologias, de modo a aprimorar seu de- quando exposto ao ar, não ocorrendo va- de regulação. Alguns foram apoiados pela da que se registra na literatura foi proposta
sempenho e atender a requisitos de segu- zamento de vapor superaquecido. IMO e pela AIEA. Mais recentemente, des- pela Rockwell International em 1974, com
rança nuclear naval que lhes garanta acei- Há também dois projetos na China, e de 2020, surgiram, nos Estados Unidos, o objetivo de viabilizar a produção de pe-
tação pela sociedade. projetos na Coreia do Sul e no Canadá. Es- Reino Unido e Coreia do Sul, atividades tróleo offshore no Golfo do México com
sas plantas nucleares usam urânio de bai- de pesquisa e desenvolvimento de reato- a geração de 3MWe. Atualmente, o rea-
4.3 Plantas nucleares flutuantes
xo enriquecimento e podem chegar a for- res modulares (~ 100 MWt) para propul- tor SHELF da Rússia é projetado para uso
Plantas nucleares embarcadas em estru- necer 100 MWe de potência e 1400 GJ/h são marítima, refrigerados a sais fundidos a bordo e submerso, tendo sido idealizado
turas flutuantes que podem ser deslocadas de potência térmica para dessalinização. (modular molten salt reactors – MSR), para exploração de petróleo e gás natural
para regiões remotas por mar e/ou por rios 4.4 Perspectivas futuras para para operação a pressão ambiente e com na região do Ártico, abaixo da calota polar.
navegáveis já vêm sendo empregadas. Com propulsão nuclear marítima combustível de baixo enriquecimento. A análise da geração núcleo-elétrica para
o desenvolvimento dos SMR, isso represen- A propulsão nuclear pode ser indica- exploração de petróleo e gás voltou a des-
taria uma nova opção para fornecimento Em 2018, a International Maritime Or- da para grandes graneleiros e navios de pertar interesse mais recentemente, com a
de energia a locais de difícil acesso, que ganization – IMO propôs, para 2050, uma cruzeiro, em que reatores SMR poderiam necessidade de reduzir a queima de gases
poderia valer-se de cogeração para também meta de redução dos gases de efeito estufa inclusive suprir a energia para as ativida- com alto teor de CO e elevado Inventário
2
viabilizar dessalinização, produção de hidro- do transporte marítimo de 50% em rela- des a bordo, rebocadores para travessias de Gases de Efeito Estufa (IGEE) nas platafor-
gênio, aquecimento distrital e refrigeração. ção a 2008. O gasto anual de energia com transoceânicas e cargueiros rápidos. Além mas de petróleo. Em particular, os campos
Um reator instalado no mar forneceu o transporte marítimo global foi de 8,9 EJ disso, a Organização para Cooperação e do Pré-sal brasileiro, com alto RGO (razão
potência (1,5 MWe) para a base norte-a- (1 Exajoule = 10 Joules) em 2017, 82% Desenvolvimento Econômico – OCDE, em gás-óleo) e elevado teor de CO , requerem
18
2
mericana na Antártica por dez anos, até provenientes de óleos pesados e o restante seu estudo Energy Technology Perspec- muitas unidades de processamento e limitam
1972. Uma planta de energia nuclear de gás e diesel. A frota mercante mundial tives 2020 projeta um cenário de desen- a produção de óleo pelo congestionamen-
flutuante (Floating Nuclear Power Plant – tinha uma capacidade de 2 Gt e transpor- volvimento sustentável em que 12% do to das Unidades Flutuantes de Produção,
FNPP) forneceu potência (10 MWe) para a tou 8,9 Gt de frete em 2018. transporte marítimo utilizará hidrogênio Armazenamento e Transferência (Floating,
Zona do Canal do Panamá por nove anos. Diante desses números, chama a aten- em 2070, o que abre boas perspectivas Production, Storage and Offloading – FPSO)
A Rússia construiu e instalou uma ção o fato de haver um único navio mercan- para produção nuclear desse insumo. existentes. A geração de eletricidade subsea
FNPP sobre uma barcaça, em 2019, a te com propulsão nuclear, o Sevmorput rus- 4.5 Perspectivas futuras para outras liberaria espaço precioso nessas plataformas
Akademic Lomonosov, que navegou até so, de 61,9 kt (0,003% dos 2 Gt). A possibi- aplicações (fixas ou flutuantes) e facilitaria a transmis-
sua localização permanente, na região de lidade de usar hidrogênio ou amônia como são de energia para as estruturas submari-
Chukotka, e começou a operar em de- combustíveis marítimos pode fazer da pro- Existem outras aplicações das tecnologias nas de produção. Há um estudo em curso
zembro daquele ano. Por cogeração, ela dução de hidrogênio por plantas nucleares nucleares sendo contempladas atualmente, em colaboração da UFRJ com a DGDNTM/
538 ECONOMIA AZUL Tecnologias Nucleares para o Mar 539

