Page 409 - Livro - Economia Azul
P. 409
et al., 2008, SHAY et al., 2000; LEIPPER GPI jamais havia sido usado para avaliar o estudos publicados acerca do Catarina. passado sobre a região de maior OHC ao
e VOLGENAU, 1972). Por exemplo, Mai- furacão Catarina. Na maior parte do tempo da trilha do longo de sua via (Figura 4a). Esse ambien-
nelli et al. (2008) demonstraram que a Os ciclones tropicais (CTs) são frequen- Catarina, o GPI permaneceu alto e acima te de forte vorticidade e alta umidade pro-
inclusão de OHC em modelos numéricos tes em todas as bacias oceânicas, exceto da climatologia de 1990-2019 (Figura 3a). duziu um pico de GPI que provavelmente
melhoraram a previsão da intensidade de no Atlântico Sul. Esse déficit na ocorrên- A comparação de suas quatro variáveis influenciou a transição do Catarina, uma
furacões em até 20%. Além de melho- cia de CTs é geralmente atribuído a um com suas respectivas climatologias (Figura vez que os mesmos processos que mo-
rar a previsão numérica, estudos recentes ambiente adverso de temperaturas frias 3, primeira coluna) mostra que a vorticida- dulam o desenvolvimento de CT também
apontam uma forte relação entre o au- da superfície do mar e forte cisalhamen- de, a umidade e o cisalhamento do vento podem impactar ciclones extratropicais
mento do OHC devido ao aquecimento to vertical do vento (PEZZA e SIMMONDS, foram mais eficazes na modulação do ciclo (Hart, 2003).
global com as chuvas extremas de fura- 2005). Ciclones subtropicais (CSTs), no en- de vida do sistema do que a intensidade A partir de 23 de março, tanto a umi-
cões recentes (e.g., TRENBERTH et al., tanto, ocorrem rotineiramente no Atlânti- potencial, que na maioria das vezes ficou dade quanto a vorticidade (i.e., valor ab-
2018). Ainda de acordo com Trenberth et co Sul (e.g., EVANS e BRAUN, 2012; GOZ- abaixo do nível climatológico para mar- soluto) permaneceram bem acima da cli-
al. (2018), os valores de OHC acima da ZO et al., 2014). Em outras regiões como ço. Apesar de contraintuitivo, não é raro matologia, enquanto o cisalhamento do
média climatológica não apenas aumen- o Atlântico Norte, os CSTs sofrem Transi- que a intensidade potencial desempenhe vento cresceu em importância à medida
taram o “combustível” disponível para ção Tropical (TT) para CTs frequentemente um papel secundário na determinação do que o sistema se dirigia para uma região
sustentar e intensificar o furacão Harvey, (EVANS e GUISHARD, 2009). A ciclogê- GPI (por exemplo, WANG e MOON, 2017; de cisalhamento abaixo do limite teórico
mas também aumentaram as inundações nese subtropical e a TT sobre o Atlântico GAO et al., 2020). da ciclogênese tropical de 10 m/s propos-
decorrentes das chuvas associadas a ele Sul só ganharam atenção após o furacão Durante a maior parte da fase extra- to por Zehr (1992), permanecendo neste
quando atingiram o continente. Catarina. Começou como um ciclone ex- tropical entre 19 e 22 de março, o sistema ambiente ao longo das fases subsequen-
Outra quantidade física importante na tratropical e se tornou um CST antes da ficou sob a influência de ambientes pró- tes do seu ciclo de vida (Figura 3m). McTa-
avaliação da ciclogênese tropical é a in- transição para um CT propriamente dito, ximos ao cisalhamento climatológico do ggart-Cowan et al. (2006) mostraram que
tensidade potencial (EMANUEL e NOLAN, que atingiu o sul do Brasil em 28 de mar- vento (Figura 3m). Nessa fase da tempes- um padrão atípico de bloqueio do dipolo
2004), que determina a máxima velocida- ço de 2004 como um furacão nominal de tade, o GPI foi dominado pela umidade Rex, mais intenso e de maior duração, foi
de que ventos associados a ciclones tro- categoria 2 (MCTAGGART-COWAN et al., e vorticidade. As altas vorticidades nega- responsável por esse fraco cisalhamen-
picais poderiam atingir para determinadas 2006, REBOITA et al., 2019). tivas anômalas (Figura 3d) são ciclônicas to do vento. Na noite de 23 de março, a
condições ambientais. A temperatura da Em realidade, à medida que o clima (Hemisfério Sul) e indicam um fator dinâ- tempestade sofreu insumos ambientais
superfície do oceano entra como uma muda, a capacidade de prever variações mico favorável à ciclogênese (HALL et al., que produziram o terceiro maior pico de
fonte quente no termo termodinâmico da na frequência de TT no Atlântico Sul de- 2001). A vorticidade atingiu seu máximo GPI (Figura 3a) e a fase subtropical de Ca-
equação dessa variável, sendo a tempe- pende de uma visão abrangente dos fa- negativo na tarde de 21 de março, apro- tarina foi alcançada algumas horas depois
ratura da tropopausa atmosférica a fon- tores que modularam Catarina. Lauton ximadamente 12 horas após o sistema ter (MCTAGGART-COWAN et al., 2006).
te fria. Emanuel (2007) demonstrou que et al. (2021) aplicaram o GPI (EMANUEL
muito da variabilidade da energia cinética e NOLAN, 2004) existente que quantifica
atribuída a ciclones tropicais no Atlântico a contribuição dos fatores ambientais de
Norte e no oeste do Pacífico Norte foram grande escala associados à ciclogênese
explicados pela intensidade potencial, em tropical para entender o ciclo de vida do
análise conjunta com a vorticidade relativa Catarina. Isso difere de estudos anteriores
atmosférica em baixos níveis, umidade e que avaliaram cada fator interdependente
o cisalhamento vertical do vento. A teo- individualmente. Além disso, os autores
ria existente que quantifica a contribuição incorporaram a análise do conteúdo do
conjunta entre as variáveis descritas por OHC (LEIPPER e VOLGENAU, 1972), uma
Emanuel (2007) é o Índice de Potencial medida do potencial do oceano para sus-
de Gênesis (Genesis Potential Index – GPI; tentar a intensificação da CT (HALLIWELL
EMANUEL & NOLAN, 2004). Até 2020, o et al., 2008), ignorada por quase todos os
406 ECONOMIA AZUL Oceano e Clima: Novos Desafios 407

