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Ambos os eventos de Atlantic Niño do   precipitações da América do Sul durante o                               2.2. Eventos extremos de precipitação    lias de TSM no Atlântico Tropical Sudeste
               verão e do inverno podem ser relevantes   inverno e a primavera boreal subsequen-                                 na borda leste do Nordeste do Brasil     (SETA), quando o SETA lidera a precipita-
               para a previsibilidade do ENOS no Pacífi-  tes por  meio de sua  teleconexão com o                                                                         ção por 4-6 meses (Figura 2a). Essa relação
               co (Hounsou-Gbo et al., 2020). Contudo,   ENOS no Pacífico (HOUNSOU-GBO et al.,                                      Em junho de 2010, uma sucessão de     positiva se desloca para a porção oceânica
               o Atlantic Niño de inverno tem a vanta-  2019, 2020). Os resultados indicam que                                   eventos pluviométricos intensos deu origem   próxima à costa leste do Brasil durante a es-
               gem de poder superar a barreira de pre-  os eventos do Atlantic Niño de inverno in-                               a inundações nos rios orientais dos estados   tação chuvosa, ou seja, na piscina quente
               visibilidade do ENOS antes da primavera,   fluenciam a variabilidade sazonal da preci-                            de Pernambuco e Alagoas. O relatório do   do Atlântico sudoeste (Figura 2b) (CINTRA
               a denominada “spring barrier for ENSO    pitação da América do Sul de duas manei-                                 Banco Mundial e do governo de Pernambu-  et al., 2015; SILVA et al., 2018), onde o sinal
               predictability”. No entanto, os mecanis-  ras. Em primeiro lugar, esses eventos afe-                              co (2010) registrou um total de 67 cidades   da Zona de Convergência Intertropical do
               mos que explicam esta resposta oceânica   tam as chuvas da primavera no norte do                                  danificadas, 20 mortes, aproximadamente   Sul do Atlântico equatorial (SITCZ) é forte
               atrasada no Pacífico equatorial ainda não   Nordeste do Brasil (NNEB) através da evo-                             30.000 desabrigados e um prejuízo econô-  (HOUNSOU-GBO et al., 2019). Esses resul-
               são bem conhecidos. A teleconexão entre   lução para o modo meridional do Atlânti-                                mico de mais de US$ 1 bilhão. Nesse ano,   tados suportam que anomalias de TSM são
               o Atlântico e o Pacífico está associada à   co tropical (OKUMURA e XIE, 2006; HOU-                                foram  registradas  anomalias  positivas  de   transportadas da região  SETA no  inverno
               variabilidade de baixa frequência dentro   NSOU-GBO  et al., 2020). Os eventos de                                 TSM no Atlântico tropical sudoeste que ul-  boreal  (novembro-janeiro;  NDJ)  para  oeste
               das duas bacias  que é potencialmente    Atlantic Niño do inverno também influen-                                 trapassaram 1 °C em relação à climatologia   até a costa do NEB (Figuras 2c, d, e) (HOU-
               modulada pela Oscilação Multidecadal     ciam a precipitação sul-americana através                                entre fevereiro e junho, na boia do programa   NSOU-GBO et al., 2015, 2019). Portanto, a
               do Atlântico (AMO). Estudos recentes in-  da conexão com o ENOS do ano seguinte                                   Prediction and Research Moored Array in the   variabilidade interanual da SITCZ deve estar
               dicam que a AMO pode modular a varia-    (HOUNSOU-GBO et al. 2020). Esses resul-                                  Tropical Atlantic – PIRATA (BOURLÈS  et al.,   relacionada com o deslocamento das ano-
               bilidade multidecadal do modo equatorial   tados sugerem a relevância de diferentes                               2019) localizada a 30°W e 8°S , bem como   malias de TSM de leste a oeste no Atlântico
               atlântico (MARTÍN-REY  et al. 2018), no   tipos de Atlântico Niño para a previsibili-                             nos dados de SST do Advanced Very High-  tropical Sul. Quando localizadas perto da
               entanto, ainda existem várias incertezas   dade de 6 meses a 1 ano do ENOS e seus                                 -Resolution Radiometer (AVHRR, disponível   costa leste do NEB, as anomalias positivas
               sobre os mecanismos  que controlam a     impactos climáticos, incluindo o clima da                                em: http://oceanwatch.pifsc.noaa.gov).   de TSM estão associadas a uma pressão su-
               variabilidade do Atlântico equatorial em   América do Sul.                                                           Hounsou-Gbo et al. (2015, 2019) investi-  perficial anormalmente baixa, uma circula-
               escalas de tempo sazonais a decenais.       A influência da fase positiva/negativa                                garam como as condições oceânico-atmos-  ção atmosférica ciclônica anômala na super-
               Segundo diferentes autores, vários me-   do modo inter-hemisférico do Atlântico e                                 féricas anteriores (quase 6 meses antes) no   fície e uma velocidade vertical ascendente
               canismos contribuem para a variabilidade   El Niño/La Niña são principalmente fortes                              Atlântico Sul tropical influenciam o clima do   em 500 hPa (Figura 2c). Essas últimas condi-
               do Atlântico equatorial.  Alguns estudos   sobre a parte norte do NEB no final do in-                             leste do NEB. Eles identificaram uma relação   ções são favoráveis a mais chuva na região.
               indicam que a variância do Atlantic Niño   verno boreal e início da primavera. Na par-                            positiva significativa entre as anomalias de   O contrário ocorre durante anos mais frios
               depende principalmente do feedback ter-  te leste do NEB (5°-11° S; 34.5°-37° W), a                               precipitação do leste do NEB e as anoma-  no Atlântico tropical sul.
               modinâmico, enquanto outros defendem     estação chuvosa, que atinge seu pico no
               que os processos dinâmicos contribuem    inverno austral (maio-julho), está ligada
               fortemente para a variabilidade do Atlân-  principalmente a eventos como atividades
               tico equatorial (NNAMCHI  et al., 2015;   de distúrbios ondulatórios de leste que
               JOUANNO et al., 2017). A advecção me-    ocorrem no Atlântico tropical Sul (KOUA-
               ridional de anomalias de TSM do Norte ao   DIO et al., 2012; SILVA et al., 2018). O esta-
               equador, a reflexão de ondas de Rossby   belecimento sazonal da segunda ZCIT loca-
               no limite oeste da bacia equatorial, entre   lizada na região equatorial sul (GRODSKY
               outros mecanismos, são indicados como    e CARTON, 2003) também coincide com o
               responsáveis pela variabilidade do Atlânti-  pico da estação chuvosa no leste do NEB.
               co Niño (LÜBBECKE e MCPHADEN, 2012;      A convergência na ZCIT sul está associada
               LÜBBECKE et al., 2018).                  à convecção atmosférica e chuvas sobre as
                 Os eventos Atlantic Niño do verão im-  águas quentes da piscina quente do Atlân-
               pactam indiretamente a variabilidade das   tico Sudoeste em junho-julho.


     402  ECONOMIA AZUL                                                                                                                                                                       Oceano e Clima: Novos Desafios  403
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