Page 400 - Livro - Economia Azul
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das águas, com impactos importantes so- na sua estrutura ecológica, funções e provi- incêndios na Amazônia em compara- este modo equatorial interage com o
bre várias espécies, muitas delas de alto são de bens e serviços. Ademais, são espe- ção com os 12 anos anteriores (JIMÉNEZ- ENOS através de teleconexões atmosfé-
valor econômico. Essas mesmas alterações rados: perda de terras, perda/realocação de -MUÑOZ et al., 2016). O mesmo evento de ricas (RODRIGUEZ-FONSECA et al., 2009;
de temperatura têm também causado mo- sítios culturais e históricos, perdas agríco- El Niño de 2015-16 agravou o longo pe- KEENLYSIDE et al., 2013). É indicado que o
dificações significativas na variabilidade na- las, salinização da vegetação e de recursos ríodo de secas de 2012-2016 no Nordeste Atlantic Niño (índice ATL3: calculado a par-
tural do clima das regiões continentais ad- aquáticos, erosão/progradação de praias, do Brasil (MARENGO et al., 2018). Cerca tir de anomalias de TSM na região 3°N-3°S,
jacentes, com o aumento do nível do mar alteração dos estoques pesqueiros, danos à de 33 milhões de pessoas foram afetadas 20°W-0°) está negativamente correlaciona-
e da intensidade e frequência de ocorrência infraestrutura portuária, urbana e turística pelas secas no Nordeste do Brasil, ocasio- do com o ENOS no Pacífico (índice Niño3:
de ondas de calor e de eventos extremos e exposição/danificação de dutos expostos nando uma perda econômica estimada em calculado a partir de anomalias de TSM
de precipitação e tempestades, com danos ou enterrados. Com a predição do aumento US$ 26 bilhões (CAI et al., 2020). No esta- na região 5°N-5°S, 150°W-90°W), com o
à vida e à saúde das populações, além de do nível do mar, espera-se um aumento na do brasileiro de Santa Catarina, os danos Atlântico liderando o Pacífico por mais de 3
elevadas perdas econômicas decorrentes da demanda por estruturas de proteção costei- relacionados às inundações provocadas meses. Anomalias positivas de TSM (águas
destruição da infraestrutura. ra, o que implica gastos adicionais e, muitas pelo El Niño de 1982-83 foram de mais mais quentes do que o normal) no Atlân-
Com relação ao aumento do nível do vezes, a supressão do ambiente praial. de 200.000 desabrigados, 65 mortes e/ou tico equatorial no verão estão associadas
mar, as regiões urbanas costeiras são as Neste capítulo nós abordaremos, a par- desaparecidos e um prejuízo econômico de a anomalias negativas de TSM (águas mais
mais vulneráveis, com possibilidades reais tir de exemplos concretos, o estado da mais de US$ 1,1 bilhão (TACHINI, 2010). frias do que o normal) no Pacífico equato-
de inundação a médio e longo prazos, se arte da compreensão de alguns dos prin- No oceano Atlântico, o modo inter-he- rial oriental vários meses depois (LOSADA
mantidas as atuais taxas de elevação do ní- cipais fenômenos geofísicos associados às misférico é o principal modo de variabili- e RODRÍGUEZ-FONSECA, 2016; CAI et al.,
vel do mar. Os recursos costeiros têm sido mudanças climáticas que possuem conse- dade que influencia o clima do Nordeste 2019). Estudos mostraram que essa cone-
sistematicamente afetados, com alterações quências importantes sobre o oceano e o brasileiro. O modo inter-hemisférico é ca- xão foi forte durante as primeiras e as úl-
das características físicas, biológicas e mor- clima, e consequentemente sobre os dife- racterizado por um gradiente meridional timas décadas do século XX e fraca entre
fológicas dos oceanos e costas, mudanças rentes setores da economia do país. da temperatura da superfície do mar (TSM) esses períodos (MARTÍN-REY et al., 2015;
entre os hemisférios norte e sul (Servain, LÜBBECKE et al., 2018).
2. Eventos extremos de precipitação e ciclones subtropicais 1991). Um gradiente norte-sul positivo, ca- Além do Atlantic Niño de verão, o
racterizado por temperatura da superfície Atlântico equatorial é caracterizado por
2.1. Teleconexões oceano-atmosfera do ENOS), caracterizados por temperatu- do mar mais quente no hemisfério norte um segundo modo equatorial no inverno
e variabilidade climática ra da superfície do mar mais quente do do que no hemisfério sul, está associado a boreal (denominado Atlantic Niño de in-
que o normal na parte leste do Pacífico, um ano seco no norte do Nordeste do Bra- verno), que é mais fraco do que o Atlantic
O clima continental é fortemente liga- o norte da América do Sul experimenta sil, principalmente em fevereiro-maio (NO- Niño do verão. Hounsou-Gbo et al. (2020)
do à variabilidade oceânica, principalmente eventos secos, enquanto o sudeste da re- BRE e SHUKLA, 1996). Por outro lado, uma investigaram a influência do Atlantic Niño
nas regiões tropicais. Na América do Sul, gião experimenta eventos úmidos (RAO e fase negativa do gradiente inter-hemisféri- de inverno sobre o ENOS e suas implica-
o clima é significativamente influenciado HADA, 1990; GRIMM et al., 2000). O in- co está associada a mais precipitações no ções para a variabilidade climática da Amé-
pela variabilidade dos oceanos Atlântico verso ocorre durante os anos de La Niña norte do Nordeste na primavera boreal. O rica do Sul para o período 1905-2014. Os
e Pacífico tropicais. O fenômeno El Niño (fase fria do ENOS). Os impactos socioeco- modo equatorial ou Atlantic Niño, que é resultados indicam que o Atlantic Niño do
Oscilação Sul (ENOS) é um mecanismo de nômicos e ambientais do El Niño/La Niña um modo de variabilidade parecido com o inverno também está negativamente rela-
interação entre o oceano e a atmosfera sobre a América do Sul incluem as ativi- El Niño do Pacífico, mas com extensão e cionado com o ENOS, com o Atlântico lide-
que ocorre no Oceano Pacífico tropical. As dades de pesca, a agricultura, as secas, impactos menores, é o segundo modo de rando o Pacífico por 2-3 estações do ano.
ocorrências de El Niño/La Niña, que são as- as inundações e a ocorrência de algumas variabilidade do Atlântico tropical. A fase Este Atlantic Niño de inverno está associa-
sociadas a mudanças da temperatura e da doenças. Estimou-se que as secas severas, positiva (negativa) do Atlantic Niño é ca- do a um desenvolvimento precoce do ENOS
circulação atmosférica no Pacífico, influen- provocadas pelo evento forte de El Niño de racterizada por águas mais quentes (frias) a partir do verão boreal, com uma notável
ciam as precipitações em escalas globais 2015-16, combinadas com o aumento das do que o normal na parte leste do Atlân- modulação multidecadal do tempo de atra-
através de mecanismos de teleconexões. temperaturas devido ao aquecimento glo- tico equatorial, principalmente no verão so do Pacífico sobre o Atlântico. Nos mea-
Durante os anos de El Niño (fase quente bal, aumentaram em 36% a incidência de boreal. Estudos anteriores mostraram que dos do século XX, quando a teleconexão
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