Page 187 - Livro - Economia Azul
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como a liberdade do alto-mar, os efeitos   para o oceano e atividades afins (OLIVEIRA,   atualmente em descompasso  com a su-  A agenda de ciência, tecnologia e ino-
 de tratados para terceiros e as punições   2018). Atualmente, existem diversas agen-  premacia chinesa e o empoderamento de   vação, na mesma linha, oferece um quadro
 inexistentes ou leves (BAPTISTA, 2017).  das importantes, como a revitalização da   atores privados. A governança do oceano   claro  de  divisão  entre  potências  que  têm
 A governança do oceano não se limita   Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul   enfrenta riscos socioecológicos graves,   capacidade de reformar a arquitetura ins-
 à Economia Azul. Ao contrário, o cresci-  (ZOPACAS), a proliferação das organiza-  começando pela mudança do clima, de   titucional e aproveitar ao máximo o aces-
 mento e o desenvolvimento sustentável   ções regionais de ordenamento pesqueiro   forma comparável à economia de forma   so aos recursos marinhos e aos demais. A
 exigem agendas de pesquisa mais sofistica-  (OROP) (TOMÉ, 2020), a confirmação dos   geral, com a sua aceleração promovida   produção científica é a base do desenvolvi-
 das e mudança de paradigma da corrida da   limites da nossa plataforma continental   justamente pelas grandes potências e em-  mento nas três agendas, e, portanto, a es-
 apropriação (first arrived, first served) para   após a denúncia do contrato brasileiro   presas. Não se trata mais de great power   trutura conservadora de poder não incenti-
 a justiça global. Na imensa e ainda inade-  com a ISBA, a finalização do tratado BBNJ   competition  limitada apenas aos Estados   va a justiça e a alocação.
 quada governança do oceano, o Brasil foi   e  do  Código  de  Mineração.  Todos  estes   soberanos. Enquanto o primeiro grupo se   As três agendas acima demonstram que
 tradicionalmente uma voz pelo multilatera-  são temas tão complexos quanto relevan-  destaca dos demais em termos de ativi-  a governança  global  pode ser  analisada
 lismo e pelo direito internacional. Assinou   tes para a Economia Azul brasileira e serão   dades extrativistas (produção alimentar e   com diferentes lentes de pesquisa e que a
 e ratificou dezenas de tratados relevantes   tratados nesta obra.  mineração), serviços (comércio, navega-  governança do oceano, no caso, reproduz
                   ção e turismo) e pesquisa (biotecnologia,   padrões históricos consolidados pelas gran-
 Conclusão         nanotecnologia, inteligência artificial, ro-  des potências. Poder, comércio e ciência são
                   bótica, entre outras áreas), os custos das   indissociáveis quando  se trata de oceano.
 A governança do oceano reproduz, em   ser apropriadas de forma egoísta por atores   atividades são socializados para todos.   Neste contexto, o Brasil não está no grupo
 larga medida, as estruturas e relações de   individuais, do que um sistema de suporte   Como na agenda de poder, justiça e alo-  das grandes potências. O País tem potencial
 poder herdadas da Guerra Fria. Em outros   à vida no planeta que precisa ser tratado de   cação não são prioridades para atores na   para competir em diversos setores, e por isso
 termos, a governança global ainda não   forma sustentável, inclusiva e justa.   esfera econômica, financeira e comercial.   mesmo a Economia Azul precisa ser estuda-
 cumpriu a sua promessa de prevalência   A agenda geopolítica permite argumen-  Ao contrário, a Agenda 2030 da ONU foi   da com profundidade, principalmente na
 da força do direito sobre a ameaça do uso   tar que as lacunas regulatórias no âmbito do   desenhada para reduzir os danos e riscos   geopolítica concernente ao desenvolvimen-
 da força militar, e muito menos de am-  direito internacional, tanto do mar quanto   causados pela aceleração econômica, in-  to da governança do oceano, mais especi-
 pliação da segurança coletiva e da justiça   marítimo, comercial, climático, ambiental e   cluindo a aceleração azul.  ficamente do Atlântico Sul e da Antártica.
 social para a escala planetária. Em outras   trabalhista, entre outros, são resultado da
 palavras, o interesse dos P5 (cinco potên-  interação das grandes potências e novos   Referências
 cias nucleares membros permanentes do   stakeholders, como no caso das negocia-
 Conselho de Segurança da ONU) preva-  ções em curso do Código de Mineração e   ANDERSON, Natali. Marine Biologists   BAPTISTA, Cláudia. A pesca ilegal, não
 lece sobre os interesses 5P promovidos   sobre a BBNJ, bem como da dificuldade de   Discover Enormous Breeding Colony of   declarada e não regulamentada (INN).
 da Agenda 2030 (pessoas, planeta, paz,   criação de novas regras no Sistema do Tra-  Icefish. Science News, January 17, 2022.   Dissertação (Mestrado em Direito). 2017.
 prosperidade, parcerias). Neste sentido,   tado da Antártica e no Conselho do Ártico.   Disponível em: <https://bit.ly/3gzV4zq>.   Faculdade de Direito, Universidade de Lis-
 importa menos saber quem são todos os   Juntos com a navegação, a poluição e o tu-  Acesso em: 4 fev. 2022.  boa. Lisboa, 2017. Orientador: Fernando
 atores envolvidos do que analisar quais   rismo constituem velhos desafios. Igualmen-  ANSELMI, Marcela. Conflictive climate   Loureiro Bastos. Disponível em: <https://
 são as relações de poder entre eles.  te, a regulação de processos de sequencia-  governance architecture: an analysis of   bit.ly/3sr9qrw>. Acesso em 7 fev. 2022.
 Por meio das lentes de pesquisa de   mento genético e repartição de benefícios   the climate negotiations under the In-  BARROS-PLATIAU, Ana Flávia; BARROS,
 “alocação e justiça”, as três agendas da   permanece em estágio incipiente. Logo, se   ternational Civil Aviation Organization   Jorge (2017). A Governança Global dos
 governança – geopolítica; econômica, fi-  não há regulação adequada para atividades   (ICAO). Dissertação (Mestrado em Relações   Oceanos: desafios e oportunidades Para o
 nanceira e comercial; e de CTI – apontam   antrópicas, é mais em função das preferên-  Internacionais). 2018. Instituto de Relações   Brasil. In: SCHMITZ, Guilherme; ROCHA,
 para evidências que não são novas e nem   cias de alguns atores do que em função da   Internacionais, Universidade de Brasília   Rafael (orgs.) Brasil e o Sistema das
 imprevisíveis, demonstrando como a Eco-  complexidade da biosfera.  (UnB). Brasília, 2018. Orientadora: Ana Flá-  Nações Unidas: Desafios e oportunida-
 nomia Azul tem visto o oceano mais com   A agenda econômica, financeira e co-  via Barros-Platiau. Disponível em: <https://  des na governança global. Brasília: IPEA.
 um “novo eldorado” cujas riquezas podem   mercial tem uma arquitetura institucional   bit.ly/3uNArZh>. Acesso em 7 fev. 2022.  p. 453-483.



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