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Conexões climáticas entre a Amazônia Azul e a Antártica:

PROANTAR

Contrastes nas anomalias de temperatura, no outono de 2016, entre o norte e o sul do Brasil

No relatório sobre o clima do ano de 2015, a Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization - WMO) classifica-o como o ano mais quente desde o início dos registros em 1850, +0,76ºC, aproximadamente 0,09ºC acima da temperatura média anual (TMA) global de 14ºC (normal climatológica de 1961–1990). Conforme a NOAA (sigla inglesa para National Oceanic Atmospheric Administration), os setes anos mais quentes em ordem decrescente, depois de 2015, foram 2014, 2010, 2013, 2005, 2009 e 1998. Essa tendência de aquecimento é observada tanto em áreas continentais como oceânicas, e nos dois hemisférios.

O quadro de mudanças climáticas apresentado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2013), prevê um aumento da TMA global entre 1,5ºC e 4,0°C nos próximos 100 anos. A TMA é a variável mais utilizada na avaliação de mudanças climáticas, mas outros parâmetros também podem ser observados, como a precipitação (neve e chuva), umidade relativa do ar, além das informações indiretamente derivadas dos testemunhos de fundo marinho, sedimentação de lagos, testemunhos de gelo e do monitoramento do comportamento de massas de gelo.

Essas observações da Terra somadas ao fato deste aquecimento recente não ser explicado adequadamente somente por fenômenos naturais, leva a comunidade científica a associar esse aumento da TMA ao aumento na concentração de gases de efeito estufa (por exemplo CO2, CH4, entre outros). Estudos e análises feitas em modelos de circulação geral da atmosfera realizados nos últimos 10 anos, indicam que o aquecimento observado nas regiões polares, em específico na Antártica, é bem marcado e pode ser atribuído às mudanças climáticas. Nos últimos 50 anos essas mudanças climáticas superam as forçantes naturais (por exemplo órbita e inclinação do eixo da Terra, radiação solar, etc.). É importante destacar que o atual quadro de mudanças climáticas implica em alterações e efeitos climáticos na Antártica, e como este continente é um controlador do clima no planeta, o Hemisfério Sul (HS) deverá ser influenciado, incluindo América do Sul e Brasil.

As regiões polares possuem papel importante no sistema climático da Terra, e em especial a Antártica, pelas suas dimensões, desempenha um importante controle no Hemisfério Sul/América do Sul.

A Antártica é coberta por um manto de gelo, que representa 90% do gelo glacial da Terra. Suas características físico-geográficas são únicas (maior altitude média 2.500m, o mais frio, o mais ventoso e o mais seco) e reforçam seu papel como um regulador fundamental do clima na Terra. As dimensões de sua massa de gelo a atribuem importante controle na circulação atmosférica de baixa, média e alta latitude, em resposta à marcante presença do vórtice circumpolar (ventos de oeste). Esse vórtice condiciona uma circulação média atmosférica de oeste que se estende da superfície até a estratosfera no HS.

Este vórtice sofre variações de intensidade que podem ser oriundas da variabilidade do Modo Anular do Hemisfério Sul, também chamado de SAM (Southern Annular Mode). O SAM é descrito como o gradiente meridional de pressão entre as latitudes médias (40°S) e a região subantártica (65°S). Este modo tem mantido tendência positiva desde 1960, caracterizando assim, um aumento na pressão atmosférica média em 40°S e uma diminuição em 65°S. Este vórtice exibe considerável variabilidade intranual e interanual. No seu estado de madura formação e atuação (durante o final do inverno no HS), o vórtice contribui para uma fase positiva do SAM, que é caracterizado por baixíssima temperatura polar, nível geopotencial rebaixado sobre o continente antártico e um forte fluxo atmosférico circumpolar de oeste, aproximadamente a 60° S. Já a fase oposta, de SAM negativo, é marcada por anomalias em sentido oposto. A tendência do SAM positivo está relacionada ao aumento na concentração dos gases de efeito estufa e a diminuição do ozônio na estratosfera polar antártica.

Figura 1: Anomalias de temperatura do ar (°C), na altitude de 760m (925 hPa), no outono de 2016, entre a América do Sul e a Península Antártica.

Ainda sobre a tendência positiva do SAM destaca-se um padrão de dipolo entre as regiões subtropical e polar no HS, onde o SAM possui um impacto importante na temperatura média mensal (TMM) e sazonal no Sul do Brasil e na Península Antártica, apresentando especialmente uma correlação negativa significativa no outono. Esse dipolo identificado por Aquino (2012), é estatisticamente significativo nas estações de verão e outono, sendo essas as estações em que ocorreram as maiores mudanças. Essa correlação indica que as anomalias negativas (positivas) de TMM no Sul do Brasil e positivas (negativas) na Península Antártica estão associadas com a fase positiva (negativa) do SAM.

No outono de 2016 observou-se que o dipolo esteve na fase positiva e foi, também, responsável por anomalias negativas na temperatura média mensal do ar (TMM), Figura 1, no centro sul da América do Sul e em especial no Sul do Brasil com anomalias negativas na temperatura e positivas na região da Península Antártica, incluindo os mares de Bellingshausen e Weddell, nos meses de março a junho.

Nesse mesmo período observou-se recordes nas TMM no Planeta e na América do Sul, bem como nos últimos doze meses, consecutivos, segundo a NOAA. Assim, a atual tendência de aumento da temperatura média global e em destaque na América do Sul/Brasil, identificamos que ocorre um aumento em eventos extremos de temperatura que são em parte controlados pelo aumento dos gases de efeito estufa, diminuição da camada de ozônio na estratosfera antártica, provocando um aumento na variabilidade climática entre o Sul do Brasil e a Península Antártica induzidas pela circulação de massas de ar entre a Amazônia Azul e a Antártica (Figura 2), mares de Bellingshausen e Weddell.

Essas conexões climáticas, originadas entre a Amazônia Azul e a Antártica, atualmente amplificadas pelo aquecimento global, evidenciam que a iniciativa brasileira liderada pela Marinha do Brasil de ter uma Estação Cientifica, de apoiar pesquisas na Antártica, no ano de 1982, foi mais do que acertada.

Figura 2: Anomalias de vento, em metros por segundo, na altitude de 760m (925 hPa m s-1), outono de 2016, entre a América do Sul e a Península Antártica.

Artigo: Prof. Dr. FRANCISCO ELISEU AQUINO Chefe do Departamento de Geografia – UFRGS Pesquisador do Centro Polar e Climático – CPC/UFRGS.

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