Uma família brasileira na Antártica: A Construção do Futuro
PROANTAR
Ao invés de deixar uma herança material para nossas filhas, o Amyr e eu acabamos começando a construir algo que ninguém poderá tirar delas.

Ao invés de deixar uma herança material para nossas filhas, o Amyr e eu acabamos começando a construir algo que ninguém poderá tirar delas. Algo que a inflação ou o tempo não irá corroer. Algo que elas levassem por suas vidas para sempre, pensando na responsabilidade que todos nós temos pela preservação e no nosso compromisso de transmitir aos outros o amor pela natureza.
O Amyr e eu sempre gostamos de viajar, especialmente para lugares remotos. Foi numa dessas viagens que tive a oportunidade de visitar a Antártica pela primeira vez. Foi há 20 anos atrás. Embarquei num navio russo e segui por 20 dias até o extremo sul da península. Eram poucos os barcos que conseguiam chegar à Baía Margarida, assim como ainda é nos dias de hoje. Aquele era o meu objetivo e foi alcançado. A viagem foi tão mágica que procurei voltar outras vezes. Interessada pelo destino gelado acabei conseguindo voltar em outras 14 temporadas diferentes, a bordo de outros veleiros além do nosso, e em diferentes navios. A cada viagem fui conhecendo um pouco mais do roteiro que veio a se tornar o meu preferido na Terra.
É perceptível notar que de lá para cá muita coisa mudou. A Antártica se tornou um continente de turismo acessível, visitado por milhares de turistas todos os anos. O turismo ali é explorado por diferentes meios: de avião, de navios, e mesmo em grandes ou pequenos veleiros. Alguns turistas optam por programas de acampamento no gelo, outros preferem fazer canoagem. Especialistas em mergulho fazem programas subaquático, os mais preparados fazem caminhadas do último grau de latitude. Alguns alpinistas fazem escalada. Grupos vêm de países diversos, espalhados por todo o mundo. Claro que cada uma dessas atividades têm seu preço, muitas vezes o maior obstáculo.
Apesar de hoje ser muito mais frequentada pelo homem do que há 20 anos, a Antártica é ainda melhor preservada, e se revela como um destino de contemplação muito bem protegido. Na primeira vez em que estive ali haviam vários pontos de visitação com lixo abandonado ao redor dos abrigos e estações científicas. Hoje em dia as regras aos visitantes são claras, o que dá a garantia da sua preservação, pelo menos até 2048, quando finda a vigência do Tratado da Antártica em vigor, e tudo deverá voltar a ser avaliado com prudência.
A Antártica é um destino praticamente utópico, sendo que no Brasil se associa ao nome do Amyr desde os anos 80, quando realizou uma invernagem solitária a bordo do veleiro Paratii, cruzou o Círculo Polar Antártico e seguiu até a Baía Margarida. De lá rumou para o Spitzbergen cruzando o Círculo Polar Ártico. Alíás, foi contando sobre essa viagem para nossas filhas que percebi que um elo invisível nos unia sempre que nos sentávamos para conversar e escutar o Amyr falar sobre suas histórias. Mesmo quando ele falava sobre coisas que aconteceram quando estávamos juntos, sempre preferi deixá-lo contar. É engraçado o olhar das pessoas sobre uma mesma experiência. Às vezes, ao relatar uma história sobre uma viagem que fizemos juntos, a viagem dele parece bem melhor.
As meninas eram muito pequenas quando começaram a sentir a ausência do pai, que ficava fora de casa por longos períodos. Elas acompanhavam na praia, no quintal da nossa casa, esse ir e vir do Amyr. E muitas vezes essas ausências chegavam a 6 meses.
Senti um vazio enorme numa festa de fim de ano na escola, quando elas não tinham para quem entregar suas cartinhas e a ideia surgiu um dia quando as meninas e eu estávamos na praia, esperando pelo Amyr, que chegava de mais uma longa viagem. Assim que pisou em terra firme pedi que nos levasse com ele numa próxima vez. Ele se surpreendeu e ficou pensativo.
Na casa da minha família todos achavam aquela ideia uma loucura; muitos amigos, também. Mas já estava decidido. No verão seguinte viajamos todos juntos pela primeira vez: as gêmeas Tamara e Laura, com 8 anos, a Marininha, o Amyr e eu. Naquela viagem a Marininha, a caçula, fazia 6 anos, quando dobrou pela primeira vez o Cabo Horn. Fomos juntos para a Antártica, e o que não se imaginava aconteceu - aquela viagem acabou sendo transformadora para todos nós.
Nos organizamos com antecedência e o planejamento teve que ser minucioso, porque diferente da viagem de férias de muita gente, a Antártica é um destino onde não existe a possibilidade de compras. É uma viagem sem lojas ou hotéis: É um destino exclusivamente de contemplação.
A Convivência à Bordo
A bordo de um veleiro navegando pela Península Antártica não existe Wi-Fi ou telefone celular, e isso fez com que nos uníssemos mais a cada dia. Estabelecemos a nossa rotina dentro do barco. Para quem sabe do que eu estou falando, barcos têm um espaço restrito. Isso nos levou a estabelecer a nossa rotina a bordo e aprendemos a manter uma disciplina. Aprendemos a conviver. Outra coisa importante era o exercício da criatividade. Foi elementar que criássemos interesses constantemente, caso contrário a viagem seria uma briga constante entre elas. Numa viagem em família para um destino remoto, acabamos tendo que aprender muitas coisas novas para poder ensinar aos nossos filhos. Como se diz popularmente: “Quem ensina, aprende em dobro”. E foi exatamente isso que aconteceu. Eu andava para todos os lados com livros nas mãos, tentando conhecer melhor aquela natureza que nos rodeava e o Amyr, dia a dia se cercava de mais segurança para todos nós.
Tempo Congelado
Ao contrário do que se pensa, fotografar a natureza não é atividade simples. Requer renúncias a alguns confortos. Muitas vezes é preciso dormir em barracas sem poder tomar banho, outras vezes corremos o risco de congelar os dedos, carregamos muito peso, caminhamos duro, ou sentirmos muito frio ou muito calor. A etapa importante é quando conseguimos desacelerar; quando nos desconectamos da forma como vivemos nas grandes cidades, e criamos intimidade com a natureza. É quando nos conectamos com o mundo verdadeiro que se abre diante de nós. Mais do que apertar o botão e imprimir imagens, tenho feito das fotografias a minha voz.
A fotografia foi a forma que encontrei para me conectar com o que gosto; foi a forma que encontrei para construir uma espécie de ponte invisível muito sólida entre pessoas que talvez nunca tenham saído de suas cidades, e que talvez nunca tenham parado para olhar o próprio entorno, com a explosão de vida que existe em lugares muito distantes. Sou fascinada por fotografar paisagens geladas e os animais polares, e busco transmitir sua luta pela sobrevivência no frio. Essa viagem em família não foi só diversão para elas. Fizemos um combinado onde elas teriam a tarefa diária de fazerem seus registros pessoais da viagem. Esses registros, somados as fotografias que fiz, acabaram viabilizando um projeto que veio a seguir.

Veleiro Paratii 2
Fui até a escola das meninas e sugeri que encarassem a nossa viagem como uma atividade de estudo de campo. Foi o que aconteceu. No retorno elas se apresentaram na sala de aula, usando os diários como fonte de conteúdo e as minhas fotografias como ilustração.
Essas apresentações foram se replicando em outras salas de aula, em outras escolas e acabaram chegando ao mundo corporativo, somando, atualmente, mais de 130 palestras apresentadas.
Numa dessas apresentações que elas fizeram, um menino de 11 anos ficou tão impressionado que fez um desenho e nos deu ao sair do auditório. Seu desenho mostrava uma baleia e nele estava escrito: “Vou para casa pesquisar na internet o que posso fazer para salvar as baleias”. Foi quando entendi que tudo o que elas aprenderam por nosso intermédio estava seguindo adiante, e se tornando parte dos pensamentos de outros jovens. Naquele instante tive a certeza de que todo o nosso esforço valeu. É o quanto percebemos que podemos fazer a diferença para alguém. A experiência ganhou horizontes quando o conteúdo das palestras virou um livro de autoria das irmãs, chamado “Férias na Antártica”. Atualmente o livro está na sua 7ª edição, e é adotado em mais de 60 escolas em São Paulo, inclusive pela rede municipal de ensino.
Paixão pelo Frio
Aqui em casa o recordista absoluto em viagens para a Antártica é o Amyr, que além de somar mais de 40 expedições, ele é o nosso grande incentivador. Foi ele que nos contaminou com essa grande paixão pelas regiões geladas, e quem viabilizou que pudéssemos levar nossas filhas sete vezes para o Continente Austral. Viajando a bordo do Paratii2, elas puderam até mesmo velejar de Optimist ao sul do Círculo Polar Antártico.
Nossa filha Tamara foi ainda outras duas vezes, mas nessas oportunidades ela foi com a Marinha do Brasil. Durante as férias de verão de 2014, ela ficou em casa para preparar o material e participar de um concurso cultural oferecido para alunos do Ensino Médio de todo o Brasil, realizado pela Marinha. Ela produziu sozinha um vídeo de 3 minutos mostrando a importância da presença do Brasil na Antártica e terminou sendo um dos 4 vencedores. O prêmio era o grande atrativo: conhecer a Estação Brasileira Comandante Ferraz com os meios da Marinha e pelo olhar dos cientistas. Foi uma oportunidade muito especial para ela.
Mas as melhores viagens são aquelas quando podemos viajar em família, e temos aquela sensação de que viajamos por inteiro. Mais do que estarmos juntos, o residual de uma viagem contemplativa é o que vem a seguir, quando vemos nossos filhos transmitindo a outros jovens seus aprendizados sobre a importância da preservação da natureza. É gratificante poder olhar para todo o processo e ver que a melhor forma para tudo estar dando certo foi termos passado mais tempo juntos, procurando conduzir o olhar dos nossos filhos para o verdadeiro valor das coisas, a importância de valorizar a natureza e a imensa alegria de poder voltar para a Antártica mais uma vez.
Poder orientar nossos filhos é uma dádiva, e o sentimento se resume no texto que li numa placa afixada no aeroporto Tampo em Johannesburg: Sozinho você vai rápido, mas juntos vamos mais longe.

Amyr e Marina Klink em visita à Estação Brasileira na Antártica

Amyr Klink com suas filhas na pinguineira
Foto: Marina Klink

Marina Klink no topo do mastro do veleiro Paratil

Foto: Marina Klink
Texto: Marina Klink é Fotógrafa de Natureza, autora do livro “Antártica - A Última Fronteira”, lançado em fevereiro de 2014 em Port Lockroy, na Península Antártica.
