Diretoria de Hidrografia e Navegação completa 150 anos - Quando o Brasil aprendeu a ler o mar
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Navio-Patrulha Oceânico Apa (P121), da Marinha do Brasil — Foto: Divulgação / Marinha do Brasil
Ao completar 150 anos, Diretoria de Hidrografia e Navegação revela como o conhecimento dos mares e rios sustenta a soberania, a navegação e o futuro do país
Em 2026, a Marinha do Brasil celebra os 150 anos da criação da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN). Desde 1876, quando foi instituída como Repartição da Carta Marítima, a DHN atua como Serviço Hidrográfico Brasileiro e desempenha um papel essencial na construção do Brasil marítimo e fluvial. Ao longo desse século e meio, transformou mares e rios desconhecidos em rotas seguras, conectando destinos, pessoas e oportunidades, e afirmando a soberania nacional sobre a Amazônia Azul.
No século XIX, o país ainda dependia de cartas estrangeiras para navegar em suas próprias águas. A partir do trabalho visionário de pioneiros como Manoel Antônio Vital de Oliveira, patrono da hidrografia, e o Barão de Teffé, primeiro diretor da instituição, o Brasil passou a produzir conhecimento próprio sobre sua costa, seus estuários e seus grandes rios navegáveis. Esse esforço permitiu ampliar a navegação, integrar regiões distantes e apoiar o desenvolvimento econômico em um território marcado pela dimensão continental.
Ao longo de 150 anos, a DHN consolidou-se como referência técnica e científica. Produziu cartas náuticas que guiaram navios militares, mercantes e de pesquisa; estruturou o Serviço Meteorológico Marinho; implantou e modernizou auxílios à navegação; e reuniu um vasto acervo de dados oceanográficos e hidrográficos. Esse conjunto de informações sustenta a segurança da navegação, o comércio marítimo e fluvial, a pesca, o turismo, a indústria naval e a defesa nacional.
Entre os grandes marcos dessa trajetória está o Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (Leplac), iniciado em 1989. Após 36 anos de extensas pesquisas conduzidas por hidrógrafos e especialistas brasileiros, a Comissão de Limites da Plataforma Continental da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu, em 2025, a ampliação da Margem Equatorial do Brasil para além das 200 milhas náuticas de domínio nacional. Com isso, o Brasil passa a exercer direito de soberania sobre área marítima de 360 mil km², expandindo oficialmente os limites da Amazônia Azul e assegurando exclusividade no acesso a recursos minerais e energéticos de grande riqueza e relevância estratégica para o futuro do Brasil.
A atuação da Diretoria vai além da cartografia, sendo responsável também pela manutenção do Serviço Meteorológico Marinho, produzindo dados oceanográficos e meteoceanográficos utilizados por portos, órgãos públicos, empresas, pesquisadores e até por praticantes de atividades marítimas esportivas e de lazer. As transformações em curso no mundo (mudanças climáticas, eventos meteorológicos extremos e a crescente importância econômica dos oceanos) impõem novos desafios. A resposta da DHN tem sido investir continuamente em tecnologia, digitalizar cartas náuticas, ampliar sistemas de previsão ambiental e disponibilizar dados confiáveis à sociedade. São ações que fortalecem a navegação segura, protegem comunidades costeiras e ribeirinhas e apoiam decisões estratégicas do Estado brasileiro.
A transição energética reforça ainda mais o protagonismo do mar e dos rios. Atividades como a energia eólica offshore, a exploração de minerais estratégicos e a biotecnologia marinha dependem diretamente do conhecimento hidrográfico e oceanográfico acumulado ao longo dessas décadas. Ao fornecer dados precisos e atualizados, a DHN contribui para que o desenvolvimento ocorra de forma sustentável, segura e alinhada aos interesses nacionais.
Celebrar os 150 anos da Diretoria de Hidrografia e Navegação é reconhecer que soberania também se constrói com ciência e conhecimento. Cada profundidade sondada, cada rio mapeado e cada carta publicada conecta o Brasil ao seu futuro. E reafirma que mares sondados continuam, e continuarão, conectando destinos.
Por: Ricardo Jaques Ferreira, vice-almirante, Diretor de Hidrografia e Navegação
