Criação da Esquadra

Com o aprofundamento da crise entre o então Reino do Brasil e Portugal, o único caminho viável para alcançar a Independência em todo o território era o mar. Essa era a percepção de José Bonifácio de Andrada e Silva, Ministro da Secretaria de Estado do Interior e dos Negócios Estrangeiros do governo do Príncipe Regente D. Pedro de Alcântara. A rápida organização da Marinha Imperial, dotada de navios de guerra bem armados, poderia impedir a chegada de reforços portugueses ao Brasil e dar combate às tropas portuguesas no litoral, além de transportar soldados e suprimentos para apoiar a luta pela Independência em terra.
A relevância atribuída por José Bonifácio à formação de uma Esquadra, um conjunto de navios de guerra sob comando unificado, se mostrou bastante acertada na medida em que os principais núcleos populacionais do Brasil estavam no litoral, isolados da capital do novo Império pela absoluta precariedade de uma rede de estradas caminhos. Assim, a organização de uma Marinha se apresentava como necessidade premente para assegurar a consolidação da Independência e a manutenção da unidade territorial do Brasil.
Uma das primeiras ações tomadas para o estabelecimento da Marinha Imperial foi a imediata incorporação dos navios portugueses deixados nos portos nacionais àquela que seria a Esquadra brasileira. Entre os quais estavam as Fragatas União (rebatizada, posteriormente, como Piranga) e Real Carolina (rebatizada, Paraguaçu) e as Corvetas Maria da Glória e Liberal, navios da Armada Real portuguesa que permaneceram no Brasil, sob o controle de Dom Pedro.
Dado o mau estado de conservação de muitos desses navios, foi fundamental o trabalho do Arsenal de Marinha da Corte (atual Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro), onde foi recuperada a Nau Martin de Freitas, rebatizada Pedro I e tornada o navio capitânia da nova Esquadra. A Fragata Sucesso e o Brigue Reino Unido também foram reparados e rebatizados, respectivamente, Niterói e Cacique. E o governo adquiriu ainda alguns navios, como os Brigues Maipu e Nightingale, rebatizados Caboclo e Guarani, nesta ordem.
Com poucos brasileiros natos nos corpos de oficiais e praças, a solução foi a contratação de europeus, especialmente britânicos, haja vista a desmobilização das forças militares europeias com o fim das Guerras Napoleônicas. O general Francisco Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta organizou o recrutamento de centenas de marinheiros na Europa. Em março de 1823, Thomas Cochrane, ex-oficial de marinha britânico que acabara de deixar o comando da Marinha do Chile, também engajada numa guerra de emancipação, assumiu o Comando em Chefe da Esquadra brasileira.

Com o início das ações militares para a consolidação da Independência, as atenções se voltaram para as regiões onde os portugueses haviam melhor reforçado suas guarnições. A resistência mais forte estava em Salvador, na Bahia, onde havia grande concentração de tropas sob o comando do Brigadeiro Inácio Luís de Madeira de Melo e uma poderosa Força Naval comandada pelo Chefe de Divisão João Félix Pereira de Campos. Apesar disso, as Forças brasileiras, sob o comando do General Pierre Labatut, conseguiram cercar a cidade, enquanto o Patrão-Mór Segundo-Tenente João Francisco de Oliveira Botas, estabelecido na ilha de Itaparica, comandava uma flotilha que fustigava as embarcações que abasteciam Salvador, contribuindo para o isolamento daquela capital.

A 1º de abril de 1823, a Esquadra brasileira, já sob o comando do Primeiro Almirante Thomas Cochrane, embarcado na Nau Pedro I, deixava a Baía de Guanabara com o objetivo de estabelecer o bloqueio naval de Salvador. O primeiro combate aos navios portugueses, em 4 de maio, apesar de um início promissor, graças a uma ousada manobra de Cochrane, foi desfavorável aos brasileiros, que foram obrigados a recuar. Contudo, no dia 13 de maio, após achegada de reforços de marinheiros estrangeiros, o bloqueio - foi retomado. Pressionados pelo desabastecimento, em 2 de julho, as tropas de Madeira de Melo abandonaram Salvador em um comboio de, aproximadamente, setenta embarcações escoltadas pelos navios de Félix de Campos.

A Esquadra foi então incumbida de perseguir o comboio português para capturar o maior número de navios, tropas e equipamentos militares; além de impedir que desembarcassem em outras localidades do território brasileiro. A Esquadra acompanhou por alguns dias os navios portugueses. Porém, logo Cochrane incumbiu o Capitão de Fragata John Taylor, ao comando da Fragata Niterói, de seguir com a perseguição. O que cumpriu até as proximidades da foz do Rio Tejo, quando foi informado sobre a chegada dos navios remanescentes da Esquadra de Félix de Campos à Lisboa. Nessa missão, a Fragata Niterói foi responsável pela captura de cerca de dois mil soldados e mais de uma dezena de navios.

