Em 1910, o Brasil incorporou à sua Esquadra um navio que impressionava pelo tamanho, pelo poder de fogo e pela tecnologia empregada em sua construção. Com mais de 160 metros de comprimento, o Encouraçado São Paulo estava entre os maiores e mais modernos dreadnoughts existentes da época. Construído na Inglaterra, o navio representava o resultado de um ambicioso processo de reaparelhamento naval e marcaria a história da Marinha do Brasil nas décadas seguintes.

Lançamento Encouraçado São Paulo, em 19 de abril de 1909
Durante o período em que serviu à Marinha do Brasil, o São Paulo navegou 99.655 milhas, aproximadamente 160 mil quilômetros, e realizou inúmeras missões. Entre elas, uma se destacou não apenas pela distância percorrida, mas também pelo significado diplomático: em 1920, o encouraçado atravessou o Atlântico para transportar o Rei Alberto I e a Rainha Elisabeth, da Bélgica, em visita oficial ao Brasil.

O Rei Alberto e a Rainha Elisabeth a bordo do Encouraçado São Paulo, 1920
Inicialmente, a ideia do governo brasileiro era utilizar um navio de passageiros para transportar o casal real, enquanto o São Paulo faria a escolta. O plano, porém, mudou depois que o Presidente Epitácio Pessoa conheceu as acomodações do encouraçado. O navio de guerra acabou escolhido para realizar o próprio transporte da realeza belga e de sua comitiva, em uma missão que evidenciava o prestígio alcançado pelo São Paulo e pela Marinha brasileira naquele período.

Desembarque do Rei Alberto I da Galeota D.João VI, na Praça Mauá.
Após a travessia do Atlântico, o Encouraçado São Paulo se aproximou do Rio de Janeiro em 19 de setembro de 1920 e foi recebido por uma escolta de outros navios. O desembarque dos Reis da Bélgica ocorreu na Praça Mauá, para onde o casal foi conduzido a bordo da Galeota D. João VI, embarcação histórica construída em 1808 e entregue em 1818. A galeota, que integrava o cerimonial da chegada, conduziu os monarcas pelas águas da Baía de Guanabara, em um momento que reuniu diferentes símbolos da história naval brasileira.

Hoje, a Galeota D. João VI faz parte do acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha
A missão do São Paulo não terminou com a chegada dos monarcas ao Brasil. Em 16 de outubro de 1920, o Rei Alberto I e a Rainha Elisabeth embarcaram novamente no encouraçado para o retorno à Europa. Durante a viagem, o navio passou por Lisboa, Portsmouth, Antuérpia e Cherburgo, cumprindo um roteiro de visitas protocolares aos países aliados do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Em Lisboa, o São Paulo também recebeu os restos mortais do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina, que foram posteriormente transportados de volta ao Brasil.
Mais de três décadas após sua incorporação à Esquadra, o Encouraçado São Paulo ainda desempenhava missões importantes para a defesa do País. Em novembro de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o navio seguiu para Recife, em Pernambuco, sob cobertura antissubmarino de dois contratorpedeiros estadunidenses. Na cidade, permaneceu como defesa fixa até o fim do conflito, mantendo sua presença estratégica na proteção do litoral brasileiro.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a trajetória do São Paulo começou a se aproximar de seu último capítulo. Em 1947, o navio foi desincorporado da Esquadra e, em 1951, após mais de quatro décadas de história, foi vendido como sucata. O antigo gigante dos mares iniciaria então sua última viagem, desta vez rumo à Europa.
Curiosidades – Relíquias do Encouraçado São Paulo
No livro Relíquias Navais do Brasil, a história do Encouraçado São Paulo também pode ser conhecida por meio de objetos que fizeram parte de sua trajetória. Preservadas no acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), essas peças ajudam a aproximar o público do cotidiano a bordo e a manter viva a memória do navio.

Porcelana, baixela e faqueiro em prata
Entre as relíquias estão peças do serviço de porcelana, da baixela e do faqueiro em prata que pertenceram ao Encouraçado São Paulo. Os objetos revelam um aspecto menos conhecido da vida a bordo e constituem registros materiais da história do navio.

Arca
Outra peça relacionada ao Encouraçado São Paulo preservada no acervo da DPHDM é uma arca. O objeto é mais um vestígio material da trajetória do navio e contribui para preservar sua memória para as gerações atuais e futuras.

A última viagem do Encouraçado São Paulo encerrou sua trajetória de uma maneira tão singular quanto sua própria história. Em 1951, durante o reboque para a Europa, o navio desapareceu nas proximidades dos Açores após uma forte tempestade romper suas amarras. Buscas realizadas pela Força Aérea Britânica e pela Força Aérea dos Estados Unidos, em uma área de 140 mil milhas quadradas, não encontraram nenhum vestígio do encouraçado.
Mais de sete décadas depois, o São Paulo permanece presente na memória naval brasileira. Sua trajetória atravessou diferentes momentos da história do País, levando-o de um dos mais modernos navios de sua época a missões de representação internacional e defesa do litoral. Hoje, documentos, fotografias e objetos preservados pela DPHDM ajudam a manter viva a história daquele que foi, por décadas, um dos grandes símbolos da Esquadra brasileira.
