VA (Refº-FN) F. do Nascimento

     O Vice-Almirante Fuzileiro Naval Reformado Fernando do Nascimento ingressou na Marinha no ano de 1951. Oriundo do Espírito Santo, havia sido o único candidato aprovado em seu estado, naquele ano, para o Colégio Naval.

     No início de sua carreira, teve a oportunidade de conviver de perto com o Patrono do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), o Almirante Sylvio de Camargo. Fruto desse contato, teve acesso a relatos de grande importância histórica e nos traz nesta edição do Projeto Memória um olhar sobre a influência fundamental que tiveram os Almirantes Protógenes Pereira Guimarães e Sylvio de Camargo para a estruturação do CFN como o conhecemos hoje.

     Nas histórias contadas pelo Almirante Sylvio de Camargo, um dos assuntos que este gostava de abordar era acerca da importância do Almirante Protógenes Pereira Guimarães, que era o Ministro da Marinha em 1932, quando foi criado por decreto oficial o Corpo de Fuzileiros Navais.

     Mas para chegar a este ponto da história, nosso interlocutor nos remete aos primórdios do CFN, quando da chegada da Brigada Real da Marinha no Rio de Janeiro, em 1808.

A finalidade da Brigada Real da Marinha, sua missão principal, era dar proteção direta à Família Real. Fixaram-se aqui na Ilha das Cobras, depois de ter passado por Salvador, onde desembarcaram primeiro. Com o tempo, com a saída da Família Real do Brasil, a Instituição foi perdendo força, foi perdendo seu brilho dentro da Marinha, e começou a funcionar como uma OM.”

     A Organização Militar (OM) a que se refere o Almirante Fernando do Nascimento é o Batalhão Naval – que já teve muitos nomes diferentes, mas na época era chamado de Guarnição do Quartel Central (GQC). A GQC foi, durante um período, a própria personificação do Corpo de Fuzileiros Navais. Antes da criação oficial do Corpo de Fuzileiros Navais, a GQC era composta apenas por um Quadro de Pessoal Subalterno (Praças), comandado por Oficiais do Corpo da Armada, designados de tempos em tempos para a função. Entre estes, estava um Capitão de Mar e Guerra, aviador naval, que viria a ter fundamental importância na história do CFN: Protógenes Pereira Guimarães. Ao Comandar a GQC, o Almirante Protógenes desenvolveu um grande apreço pelos Fuzileiros Navais:

Essa é uma sorte que os Fuzileiros têm de, às vezes, aparecer alguém, colocado quase que por uma mão superior, que acaba se afeiçoando ao CFN. Mas isso porque nossos Praças eram muito dedicados, leais, de um valor extraordinário, o que encantava o pessoal que passava por aqui.

     Foi a partir do Comando do então CMG Protógenes Pereira Guimarães que o rumo dos Fuzileiros Navais começou a mudar, conforme nos relata o Almirante Fernando do Nascimento no vídeo a seguir:

     

         Ocorre que, já como Oficial General, o Almirante Protógenes veio a se tornar Ministro da Marinha, após a revolução de 1930. Naquele momento, ele, com toda a experiência adquirida no Comando da GQC, demonstrou grande preocupação com a má utilização dos Fuzileiros Navais durante a revolução.

    Segundo relatos do Almirante Sylvio de Camargo, o Almirante Protógenes dizia que os Fuzileiros Navais haviam sido mal empregados, porque não tinham um Quadro de Oficiais próprio. É nesse momento que ele decide resgatar o valor dos Fuzileiros Navais - perdido desde a saída da Família Real do Brasil – elevando o Batalhão Naval à categoria de Corpo.”

     

       

      “A importância do Almirante Protógenes fica clara, pois se ele não tivesse tomado as medidas que tomou, de elevar o Batalhão Naval à categoria de Corpo e de criar um quadro de Oficiais que deu personalidade independente dentro da Marinha, certamente os Fuzileiros Navais não teriam tido oportunidade de cumprir a trajetória que hoje cumprem dentro da Marinha.”

      Foi então criado oficialmente o Corpo de Fuzileiros Navais, pelo Decreto nº 21.106 de 29 de fevereiro de 1932. Em seguida, seria a vez de criar o Quadro de Oficiais Fuzileiros Navais.

           Nesse momento da história, foi de fundamental importância também a atuação do Almirante Sylvio de Camargo. Ele era tenente do Gabinete do Almirante Protógenes quando foi designado para servir na GQC, a fim de enviar informações ao Almirante, naquele período conturbado, pós-Revolução de 1930. E foi a partir dessa experiência na GQC que o Almirante Sylvio de Camargo decidira migrar para o recém-criado Quadro de Oficiais FN, onde viria a dar contribuições de grande relevância para o desenvolvimento do Corpo.

           Como dito anteriormente, no início de sua carreira como Oficial Fuzileiro Naval, o Almirante Fernando do Nascimento teve a oportunidade de conhecer e conviver com o Almirante Sylvio de Camargo. No próximo vídeo, ele nos traz um pouco da realidade de um Guarda-Marinha Fuzileiro Naval recém formado naquele início da década de 1950 e nos relata o seu contato com o Almirante que viria a dar nome ao principal Centro de Instrução do Corpo de Fuzileiros Navais, o CIASC – Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo.

       

        Ele (o Almirante Sylvio de Camargo) veio para a GQC mais como um olheiro, para passar para o Almirante Protógenes o que acontecia. Fruto dessa vinda dele pra cá, ele disse que sentiu que nós tínhamos um potencial realmente muito bom. Quando o Ministro Protógenes Guimarães fundou esse primeiro Quadro, ele se candidatou imediatamente para se transferir para os Fuzileiros Navais. Ele estava certo de que aqui era o lugar dele. E de fato foi.

             O Almirante Sylvio de Camargo prosseguiu, portanto, na obra do Almirante Protógenes e, entre seus feitos, o Almirante Fernando do Nascimento destaca o fato de ele ter conseguido o Regulamento para o Corpo de Fuzileiros Navais, o qual foi aprovado por decreto presidencial por Eurico Gaspar Dutra.

             O Regulamento estabeleceu dois pontos importantes para o CFN: ele definia que o Comandante-Geral passava a ser assessor especial do Ministro da Marinha para assuntos dos Fuzileiros Navais e ele acenou para a criação do setor operativo, mencionando a Força de Fuzileiros Navais – o que só viria a ser concretizado muitos anos mais tarde, com a criação da Força de Fuzileiros da Esquadra pelo Presidente Juscelino Kubitschek.

        Então esse regulamento foi durante muito tempo a cartilha nossa. Era o nosso documento oficial, em que nós nos baseávamos para cumprir a nossa presença dentro da Marinha.”

         

             Sobre a criação do Quadro de Oficiais, ocorrida durante a gestão do Almirante Protógenes como Ministro da Marinha, destaca-se que ele foi formado inicialmente por Oficiais do Corpo da Armada que optaram pela transferência para o CFN – o próprio Almirante Sylvio de Camargo foi um exemplo de oficial da Armada que migrou para o CFN. Apenas ao final da década de 1930, foi criado o curso de formação de Oficiais Fuzileiros Navais na Escola Naval. Havia ainda outras duas formas de ingresso nesse novo Quadro: o concurso público, para pessoal civil, e o concurso interno, para Praças que desejavam ascender ao oficialato.

             Com isso, o Quadro de Oficiais era bastante heterogêneo e havia uma distinção nominal para os oficiais provenientes das diferentes formas de ingresso. O “Oficial .1” era aquele que havia passado pela Escola Naval. O “Oficial .2” era o civil que entrara por concurso público e o “.6” era o Oficial que havia sido Praça. Esse ponto vinha ao final do número fixo de cada oficial (o NIP dos dias atuais).

        Era um Quadro muito misturado, com muitas brigas internas. Isso fez, por exemplo, com que os Oficiais que eram oriundos do Corpo da Armada, embora tenham optado pela transferência para o FN, nunca tenham deixado de usar a “volta de Nelson”, que era tradicional do Corpo de Armada. Usavam a volta e, logo em cima, a âncora com os fuzis cruzados, que é o nosso símbolo tradicional até hoje.”

         

           

               Na década de 30, foram formados cerca de seis Oficiais Fuzileiros Navais apenas pela Escola Naval. O Almirante Fernando do Nascimento nos relata ainda que, nos primórdios do Quadro de Oficiais FN, as promoções não tinham data certa para acontecer. Ocorriam quando abria uma vaga. Quem estivesse selecionado e fosse mais antigo, desde que merecesse, preenchia a vaga. Tanto Praças quanto Oficiais eram promovidos dessa forma. As datas pré-estabelecidas que existem hoje foram fixadas depois de 1964.

           

               A partir da Revolução de 1964, a divisão existente no Quadro de Oficiais praticamente se extinguiu. Assumira como Comandante-Geral do CFN o então Capitão de Mar e Guerra Heitor Lopes de Souza, oficial oriundo da primeira turma de Fuzileiros Navais originária da Escola Naval – turma de 1938.

           

               Voltando aos primórdios da constituição do CFN enquanto Corpo e das primeiras Organizações Militares que o compunham, o Almirante Fernando do Nascimento ressalta a importância que teve a Guarnição do Quartel Central (GQC), primeira grande unidade do CFN a ser comandada por um Oficial General. A GQC era uma unidade fundamental para o Corpo de Fuzileiros Navais e para a Marinha como um todo, sobretudo no final da década de 1950, época em que se situam os acontecimentos narrados no próximo vídeo.

           

          Nunca deixamos de cumprir uma missão só. Muitas vezes aqui, às 6 horas da manhã, nós tínhamos representações formadas. Muitas vezes solicitadas um dia antes, praticamente sem tempo hábil para que pudéssemos fazer funcionar isso.”

          Nosso entrevistado fez questão de deixar claro a importância que teve a Guarnição do Quartel Central e menciona posteriormente a delicada situação que a mesma atravessou no início da década de 1960, quando assumira o Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais o Almirante Cândido da Costa Aragão. Segundo ele, “um homem que tinha posições políticas que eram contestadas na época e que levou efetivamente a uma desordem muito grande no fim dos anos de 1963, com a saída do Janio Quadros do poder, por renúncia”.

          Conta-nos o Almirante Fernando do Nascimento que o Almirante Aragão assumiu o Comando-Geral dos Fuzileiros Navais já no período pós-renúncia do Presidente Janio Quadros. Conforme o relato, naquele momento, um movimento de desordem que já existia no Brasil afetou as Forças Armadas e ficou muito evidente entre os Fuzileiros Navais.

          Sobre o período que antecedeu a Revolução de 1964, o Almirante Fernando do Nascimento discorre no vídeo a seguir.

           

          64 não foi uma coisa que aconteceu por acaso, tudo aconteceu porque o país estava uma desordem. Havia greves que paravam o país desde a Amazônia até o Rio Grande do Sul, do Atlântico até os Andes. Então esses movimentos grevistas se articulavam para levar o Brasil para um destino inconcebível. Queriam formar aqui um país influenciado pelo comunismo.”

          Segundo nosso interlocutor, após 1964, houve uma mudança de rumo para o Corpo de Fuzileiros Navais. Com a revolução e a deposição de cargo do Almirante Aragão, assumira o Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais o então Capitão de Mar e Guerra Heitor Lopes de Souza (já no cargo, ele seria promovido a Contra-Almirante e, em seguida, a Vice-Almirante). O Almirante Heitor viria a ter importância definitiva para o CFN e foi o grande articulador da quarta estrela para o Corpo, fato que só viria a se concretizar anos depois, mas que teve influência direta daquele que comandou o CFN entre os anos de 1964 e 1972.

          Mas antes de abordarmos o assunto da quarta estrela, cabe menção a uma importante operação combinada entre os Estados pertencentes à Organização dos Estados Americanos (OEA), ocorrida no ano de 1965. Na ocasião, irrompera na República Dominicana um movimento semelhante ao que ocorrera em Cuba seis anos antes. Diante da cisão da população dominicana, os Estados Unidos intervieram no país e, para que não se concretizasse uma ação isolada dos mesmos, os países da OEA se reuniram e decidiram executar a operação combinada. Assim, mais um rico capítulo era adicionado à história do Corpo de Fuzileiros Navais, conforme nos relata o Almirante Fernando do Nascimento no próximo vídeo.

           

           

          Essa é uma questão que às vezes foge à percepção das pessoas, mas foi a maneira política como a OEA encontrou de não deixar que os Estados Unidos sozinhos resolvessem o problema dominicano (...). Então qual foi a importância da intervenção na República Dominicana da Força Interamericana de Paz? Foi que ela restaurou, ela conseguiu restaurar o regime, e de lá então só saiu com a eleição do Presidente Balaguer.”

           

          A 4ª estrela do CFN configura-se em assunto de extrema importância para o Corpo. Conforme destaca o Almirante Fernando do Nascimento, “nós não podemos imaginar a importância dessa quarta estrela nos ombros do Comandante-Geral. No dia a dia, a gente não percebe como as coisas mudaram no relacionamento dentro da Marinha.”

          Fato era que, desde a criação do CFN em 1932, o Corpo sempre estivera em certa desvantagem em relação ao Corpo da Armada, visto que seu Comandante-Geral não alcançava posto superior ao de Vice-Almirante. De acordo com o depoimento de nosso entrevistado, havia muitas disputas dentro da Marinha naquela época.

          Portanto, o Almirante Heitor – o qual havia ascendido ao cargo de Comandante-Geral ainda como Capitão de Mar e Guerra – iniciou, no final da década de 1960, a articulação da 4ª estrela junto ao então Presidente Costa e Silva. Entretanto, por motivos de saúde, o curto mandato daquele presidente não permitira que o desejo do CFN fosse concretizado de imediato. Foi necessário aguardar mais de uma década para, apenas no governo do General Figueiredo, ser finalmente promovido o primeiro Almirante de Esquadra do Corpo de Fuzileiros Navais, que fora o Almirante Cortez.

          Os detalhes dessa história são narrados nos próximos vídeos.

           

          O Almirante Fernando do Nascimento havia participado de toda a articulação para providenciar a audiência do Almirante Heitor – já na reserva – com o General Figueiredo, então Presidente da República. No entanto, após o desejado encontro, ele ficara sem saber qual assunto havia sido tratado e o que havia isso negociado. O esclarecimento dos fatos só viria algum tempo depois, no episódio que ele expõe no próximo vídeo.

           

          Nossos chefes aqui exaltaram muito a participação do Almirante Maximiano, que foi um grande Ministro, foi um grande amigo nosso realmente, sem dúvida nenhuma. Ele era um homem aberto às modificações. E achava justo que os Fuzileiros chegassem ao Almirantado para discutir exatamente os problemas da Marinha.”

          Portanto, de acordo com o Almirante Fernando do Nascimento, o Almirante Heitor teria sido o primeiro quatro estrelas do CFN e só não o foi por causa da morte do Presidente Costa e Silva. Entretanto, sua atuação e influência foram decisivas para a concretização dessa grande conquista para o Corpo.

           

          Encerrando seu depoimento, o Almirante Fernando do Nascimento nos conta uma curiosa etapa da história do Corpo de Fuzileiros Navais, que foi sua atuação no Grupo Executivo do Arroz. Tal fato ocorreu no curto período de governo do Presidente João Goulart, o qual era adversário político de Carlos Lacerda, então Governador do estado da Guanabara.

          Na ocasião, Leonel Brizola, que era o Governador do Rio Grande do Sul, impedira que o Instituto RioGrandense do Arroz fornecesse o item para o estado da Guanabara. Com isso, criou-se um problema de falta de arroz para a população. O próprio governo federal criou então o Grupo Executivo do Arroz, gerenciado por militares das três Forças Armadas, com o objetivo de contornar o problema, conforme nos explica o Almirante Fernando Nascimento no vídeo abaixo.

          A Marinha atuava com Marinheiros e Fuzileiros carregando os caminhões e distribuindo isso em praça pública. E eu fui o encarregado desse pessoal. Buscávamos arroz em outras praças, empacotávamos esse arroz aqui no Rio de Janeiro, compramos máquinas para empacotar, etc.

          Após dois meses de atuação, o Grupo Executivo do Arroz fora extinto, porque houve uma pressão grande da imprensa, que era contrária ao governo João Goulart, e também de alguns setores da sociedade.

          As Forças Armadas não se manifestavam. Simplesmente cumpriram mais essa missão.”

           

          O Almirante Fernando do Nascimento encerrou sua carreira na ativa em 1992. Segundo o mesmo, sua ligação com a Marinha era tão forte que o seu desligamento do Serviço Ativo ocorrera em um dia 1º de abril, dia da mentira. Não é à toa que, desde então, ele vem se dedicando à Associação de Veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais, da qual é, hoje, presidente do conselho deliberativo.

          A entrada na Marinha foi uma mudança extraordinária de vida. Tudo mudou para mim. Eu conheci pessoas, me relacionei com as melhores pessoas que eu possa ter tido na minha geração. A Marinha pra mim é tudo.”

           

          Fim