Page 5 - Nomar 956
P. 5

Mais de dois séculos se passa-  va do País para a solução de confli-  mente até alcançar o seu patamar.
            ram desde que o Pavilhão Brasilei-  tos, a Marinha e sua Esquadra con-  O  texto  da  Proposta  de  Emen-
            ro foi erguido, pela primeira vez, no  tinuam defendendo os interesses da  da  Constitucional  (PEC),  conforme
            mastro de um navio de guerra. Se  Nação no mar.                     apresentado  pelo  Senador  Carlos
            hoje a Esquadra do País conta com    Já questionava, em 1923, o Ca-  Portinho, observa o incremento per-
            99  meios  navais,  somados  navios,  pitão de Mar e Guerra Lawrence M.  centual  gradual  (0,1%/ano)  e  está
            submarinos e aeronaves, ela era for-  Overstreet,  da  Marinha  de  Guer-  em sintonia com o cenário geopolí-
            mada  por  apenas  seis  naus  quan-  ra  norte-americana:  “A  diminuição  tico atual, que tem incentivado gran-
            do foi criada, em 10 de novembro de  dos  armamentos  navais  diminuirá  des e médias potências a elevarem
            1822. Naquela época, o principal de-  as  probabilidades  de  guerra?”.  Se-  seus  investimentos  para  renovar
            safio era manter a integridade terri-  gundo  o  Comandante,  cujo  artigo  seus sistemas de Defesa.
            torial do Brasil, após declarada sua  foi reproduzido pela Revista Maríti-  A PEC justifica a proposta com
            independência. As missões, agora,  ma Brasileira deste mês, a decisão  dados do Banco Mundial, que apon-
            são  outras,  mas  a  necessidade  de  dos Estados Unidos de desativar sua  taram a média global de investimen-
            uma Força Naval moderna e pronta  Marinha após a independência, em  to com despesas militares, no ano
            para atuar permanece.             1776,  comprometeu  a  capacidade  passado, correspondente a 2,3% do
               "A  Esquadra  Imperial  nasceu  e  de o País proteger seus navios mer-  PIB. Ela também compara os investi-
            entrou  em  combate  na  Guerra  da  cantes do ataque de piratas no Medi-  mentos do Brasil com outros países
            Independência,  que  a  nossa  histó-  terrâneo e de franceses, durante as  da América Latina: “Assim, as despe-
            ria pouco realça, ficando a percep-  Guerras Napoleônicas.          sas brasileiras no ano de 2022, con-
            ção corrente de que a Independên-    “A  Marinha  já  passou  por  pro-  sideradas em percentual do PIB, fo-
            cia se ganhou no grito. Na verdade,  blemas  análogos  ao  exposto  por  ram inferiores às do Peru (1,2%), da
            somente  São  Paulo,  Rio  de  Janei-  Overstreet, considerando o grau de  Bolívia (1,5%), do Chile (1,8%), do Uru-
            ro e Minas Gerais aderiram de ime-  prontidão da Esquadra. Ela era ex-  guai (1,9%), do Equador (2,2%) e da
            diato. O restante do País teve de ser  clusivamente oceânica quando co-  Colômbia (3,0%)”.
            compelido a fazê-lo, em uma guerra  meçou a Guerra da Tríplice Aliança,   “Uma visão imediatista pode en-
            que durou mais de um ano", enfatiza  uma campanha tipicamente fluvial,  cobrir  ou  atenuar  a  percepção  de
            o Contra-Almirante Guilherme Mat-  que  exigiu  uma  rápida  adaptação,  ameaças e seus riscos associados
            tos de Abreu, um dos organizadores  com  a  obtenção  de  novos  meios”,  e influenciar a alocação de recursos
            do livro "Esquadra 200 anos: livro de  avalia o Contra-Almirante Guilherme  em defesa, reduzindo essa priorida-
            quartos 1822-2022", da editora Le-  Mattos, acrescentando que o Brasil  de. Essa realidade é perigosa e traz
            tras Marítimas.                   viveu  a  mesma  dificuldade  duran-  consequências graves. A presença
               Aquela bandeira, hasteada a bor-  te as Guerras Mundiais, em razão da  de potências extrarregionais no en-
            do da Nau “Martim de Freitas”, re-  falta de recursos no período. “Ape-  torno estratégico brasileiro deve ser
            batizada de “Pedro I”, primeiro na-  sar de os navios serem relativamen-  motivo de preocupação para o Esta-
            vio Capitânia da Esquadra brasileira,  te novos, já eram obsoletos em fun-  do. A existência de cooperações e
            simbolizava a sua criação, há exatos  ção da rápida evolução tecnológica”.  parcerias entre tais potências e pa-
            201 anos. Na ocasião, o primeiro bra-                               íses de nosso entorno geram a ne-
            sileiro nato a exercer o cargo de Mi-  O Brasil aprendeu com o passado?  cessidade de constante avaliação do
            nistro da Marinha, Capitão de Mar e   O País provisionou, nos últimos  cenário geopolítico, incluindo, nessa
            Guerra Luís da Cunha Moreira, esfor-  dez  anos,  em  média,  o  correspon-  análise, a própria capacidade de dis-
            çou-se para organizar a Força Naval  dente  a  1,32%  do  Produto  Interno  suasão da Força”, analisa o Coman-
            do País, incorporando navios portu-  Bruto  (PIB)  em  Defesa,  enquanto  dante da Marinha, Almirante de Es-
            gueses abandonados nos portos na-  outros  países  em  desenvolvimen-  quadra Marcos Sampaio Olsen.
            cionais, recuperados pelo Arsenal de  to  seguem  avançando,  como  a  Ín-
            Marinha da Corte, e contratando ma-  dia (2,4%), a Colômbia (3%) e o Chi-  Máquinas avante
            rinheiros europeus, desmobilizados  le (1,8%).                         Parte do investimento na defesa
            ao fim das Guerras Napoleônicas.     Atualmente,  tramita  no  Senado  nacional tem como destino os pro-
               Desde então, o Brasil pouco se  uma proposta de Emenda ao artigo  gramas  estratégicos  da  Força  Na-
            envolveu  em  embates  de  tamanha  166 da Constituição Federal, que pre-  val,  que  incluem  a  renovação  dos
            proporção. Dentre as que se desta-  tende estabelecer o orçamento anu-  meios  da  Esquadra.  O  Programa
            cam, estão a Guerra da Tríplice Alian-  al mínimo de 2% do PIB para ações  de  Submarinos  da  Marinha  (PRO-
            ça (1864-1870) e a Primeira e a Se-  e serviços de Defesa Nacional. O do-  SUB),  por  exemplo,  deu  mais  um
            gunda Guerras Mundiais (1914-1918  cumento condiciona 35% das despe-  importante  passo  na  construção
            e 1939-1945), além da pouco conhe-  sas discricionárias do Ministério da  do  primeiro  Submarino  Convencio-
            cida Guerra da Lagosta (1961-1963),  Defesa, isto é, aquelas que não são  nalmente  Armado  com  Propulsão
            crise entre os governos do Brasil e  obrigatórias, para o planejamento e  Nuclear  (SCPN)  “Álvaro  Alberto”.
            da França, decorrente da pesca não  execução de projetos estratégicos,  Em outubro, teve início a qualifica-
            autorizada  a  navios  franceses,  no  priorizando a indústria nacional. In-  ção do estaleiro que ficará respon-
            mar territorial brasileiro. Embora a  clui, ainda, uma regra de transição,  sável  por  tirar  o  projeto  do  papel.
            diplomacia seja a principal alternati-  para que o valor aumente gradual-  Já a montagem do quarto submari-


            CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA MARINHA                                                            5
   1   2   3   4   5   6   7   8   9   10