Page 645 - Livro - Economia Azul
P. 645

com Ketzer et al. (2022), esse fenômeno   consegue passar por esse filtro e vazar no   as taxas de geração de metano biogênico   bilhões do pré-sal), o que coloca o país em
 produz falhas e fraturas que permitem a   fundo marinho, formando plumas de gás   através da comparação de resultados das   uma posição privilegiada.
 migração massiva de fluidos ricos em gás   gigantes que atingem alturas de 900 m   perfurações, modelos experimentais e mo-  Entretanto, quando se olha para espe-
 através da ZEHG. Esse fluxo vertical mas-  na coluna-d’água. Taxas de liberação de   delos numéricos, relação entre as fontes de   cificamente  para  a  questão  do  gás  natu-
 sivo alimenta a oxidação anaeróbica do   metano para o oceano foram estimadas   metano  biogênico  rasas  versus  profundas   ral o cenário se modifica, ficando o Brasil
 metano,  mas  a  maior  parte  do  metano   entre 46,44 e 304,1 MgCH /ano.   e as reações biogeoquímicas que afetam a   numa posição de fragilidade. Isso porque
 4
                  quantidade de metano acumulado nos se-    as constantes crises hídricas resultantes das
 Olhando para o futuro  dimentos, e como estas impactam o ciclo   mudanças climáticas resultaram no acrés-
                  global de carbono e a transferência de car-  cimo significativo deste recurso para o uso
 De tudo acima exposto, é marcante  francês Marion Dufresne. O objetivo é es-  bono para o oceano.  das usinas termoelétricas, gás dependen-
 o grande avanço obtido no conhecimen-  tudar a história climática pretérita da mar-  Tais projetos permitirão ao Brasil con-  tes. Segundo a Associação Brasileira das
 to das ocorrências de hidratos de gás no  gem equatorial do Brasil ao longo dos últi-  tinuar os estudos sobre potencialidade do   Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado
 Brasil, em especial no que tange às áreas  mos milhões de anos, determinar o com-  uso deste recurso como fonte de energia,   (Abegás), em 2021 foram consumidos em
                                                                                       3
 da Foz do Amazonas e do Cone do Rio  portamento dos hidratos de gás em relação   no futuro. Hoje a produção nacional de hi-  média 76,043 milhões de m /dia de gás
 Grande. Através da coleta de amostras  a deslizamentos submarinos de grande im-  drocarbonetos está focada principalmente   natural, e aproximadamente 34 milhões
 efetivada pelos projetos TUCUXI e CONE-  pacto e avaliar a extensão dos vazamentos   na camada pré-sal. Segundo a Agência Na-  foram destinados às termoelétricas. A reto-
 GÁS, foi possível a caracterização dos ga-  dos gases na área do Leque do Amazonas   cional do Petróleo (ANP), em fevereiro de   mada do crescimento econômico nacional
 ses associados, bem como a determinação  como um todo. Serão utilizados testemu-  2022 foram produzidos 3,754 milhões de   também provocará uma alta no consumo
 de aspectos geoquímicos e biológicos que  nhadores à pistão CALYPSO com capacida-  barris de óleo equivalente por dia, sendo,   de insumo. Por outro lado, ainda segundo
 auxiliam no entendimento da sua gêne-  de de recuperar até 70 m de sedimentos,   75% deste volume proveniente dos reser-  os relatórios da ANP, a produção nacional,
 se e do seu comportamento ao longo do  resultando em aproximadamente 300 m de   vatórios pré-sal. Em 2021 as reservas brasi-  embora crescente, ficou na casa dos 134
 tempo geológico. Os trabalhos resultan-  testemunhos, recuperados de diferentes sí-  leiras alcançaram um volume de 13,24 bi-  milhões de m /dia, a maior parte prove-
                                                                         3
 tes destas análises despertam o interesse  tios previamente selecionados.  lhões de barris de óleo equivalente (9,621   niente do gás associado ao petróleo .
 da comunidade científica mundial devido   Na área do Cone do Rio Grande da Bacia
 à importância dos hidratos não só como  de Pelotas, pretende-se executar a missão   Agradecimentos
 recurso energético alternativo, mas tam-  IODP#394, uma realização do International
 bém por sua importância para a compre-  Ocean Discovery Program (IODP) utilizando   Nossos agradecimentos à PETROBRAS   2020). Nosso reconhecimento à impor-
 ensão do ciclo do carbono e seus impac-  o  navio  oceanográfico  JOIDES  Resolution   pela parceria e suporte financeiro ao Pro-  tância da parceria com a SeaSeep Dados
 tos nas mudanças climáticas. Assim, es-  (Joint Oceanographic Institutions for Deep   jeto CONEGAS (2010-2021). Também   de Petróleo Ltda. e as equipes das embar-
 tão previstas duas missões científicas de  Earth Sampling), um navio de perfuração   agradecemos aqueles que participaram   cações Inspector II (missão TU15, 2015) e
 caráter internacional. Como nas missões  científica para a coleta e estudos de rochas   das missões oceanográficas executadas   Teknik Perdana (missão TP15, 2015) sem
 anteriores todas as amostras se ativeram  e sedimentos marinho. Os estudos serão   durante este período, em especial as   os  quais  a  execução  do  Projeto  TUCUXI
 a parte mais superficial da coluna sedi-  realizados através da cooperação de diver-  equipes integrantes dos navios científicos   não seria possível.
 mentar (no máximo 20 m de comprimen-  sas instituições internacionais e brasileiras.   Marechal Rondon (missão MR11, 2011),   Para a Agência Nacional do Petróleo –
 to), as novas missões comtemplarão teste-  Entre as universidades estão as brasileiras   Marion Dufresne (missões MD186, 2011   ANP nossos agradecimentos pela cessão
 munhos mais profundos.  PUCRS, UFRGS, FURG e USP, a Linnaeus   e MD195, 2013), Rig Supporter (missão   dos dados sísmicos.  Por fim, agradecemos
 Na Bacia da Foz do Amazonas está pre-  University, (Suécia), o Lamont-Doherty Ear-  NR12, 2012), EM Leader (missão EM14,   aos geólogos Rosalia Barili e João P. Zie-
 vista a execução de um projeto cooperação  th Observatory e Rice University (USA), a   2014),  e  Super  Pesa  XIII  (missão  SP20,   linski pela revisão do manuscrito.
 entre universidade brasileiras (PUCRS, UFR-  University of Bremen (Alemanha) e a Japan
 GS, UNISINOS, USP, UFF, UERJ e UFESP), a  Agency for Marine-Earth Science and Tech-
 Linnaeus University, na Suécia, e institutos  nology (Japão). Serão perfurados cinco po-
 de pesquisa franceses (IFREMER, GEOAZUR  ços, com profundidades entre 200 e 800 m,
 e LSCE), utilizando o navio oceanográfico  em cinco sítios distintos. Objetivo é estudar


 642   ECONOMIA AZUL                                             Estado da Arte das Ocorrências de Hidratos de Gás  643
   640   641   642   643   644   645   646   647   648   649   650