A Amazônia Azul e a sua herança para o futuro do Brasil

Fábio Hissa Vieira Hazin
19/01/2021

O mar brasileiro, com 8,5 mil quilômetros de costa e 4,5 milhões de quilômetros quadrados de Zona Econômica Exclusiva (ZEE), representa quase a metade de todo nosso território terrestre. Juntamente com a Amazônia "verde", essa verdadeira "Amazônia azul" constitui, certamente, uma das últimas e mais importantes fronteiras científicas por desbravar no país, além de representar um patrimônio de valor inestimável para a herança do Brasil. No presente Núcleo Temático, as ciências do mar e a sua herança para o futuro do Brasil foram abordadas em seis aspectos principais: o mar como fontes de riquezas minerais, de energia e de alimentos, o ambiente marinho em um planeta em transformação, a biodiversidade marinha e os povos do mar. Apesar do enorme potencial futuro da Amazônia azul, porém, cabe destacar que já é através do mar que passam hoje cerca de 95% de todo o comércio exterior nacional, além do mar responder também por 90% de todas as nossas reservas de petróleo e gás, em explotação (1) e ainda a explotar, como no caso do pré-sal e dos nódulos polimetálicos e bancos de fosfato, aspectos abordados por Kaiser Gonçalves de Souza e José Antonio Moreira Lima, respectivamente nos dois primeiros artigos deste Núcleo Temático, juntamente com possíveis fontes alternativas de energia oriundas do mar. Além dos recursos minerais e energéticos, o mar possui uma enorme importância também como fonte de alimentos, por meio da pesca e da aquicultura, para um planeta cada vez mais carente de proteínas de origem animal de qualidade. Este é o tema enfocado por Ichiro Nomura, diretor de pesca e aquicultura da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), que aborda a questão sob um enfoque global. A importância da pesca marítima, costeira e oceânica, e da maricultura para a produção de pescado no Brasil, é discutida nos artigos de Fábio Hazin, Jorge Pablo Castello, Ronaldo Cavalli e Jaime Fernando Ferreira. Do ponto de vista pesqueiro, entretanto, apesar do seu extenso litoral, em razão das características oceanográficas nele prevalecentes, a riqueza do mar brasileiro é relativamente limitada. O país participou, em anos recentes, com pouco mais de 0,5% do total produzido no mundo pela pesca marítima, com uma produção, no ano de 2007, próxima a 540 mil toneladas.

A despeito dessa reduzida participação na produção mundial de pescado, porém, a atividade pesqueira nacional possui uma grande importância social, respondendo pelo emprego direto de cerca de 800 mil pescadores. A herança sociocultural e as perspectivas de futuro dos povos do mar no Brasil são tratadas por Angelo Brás Fernandes Callou, no último capítulo deste dossiê.

A herança do mar brasileiro em termos de seu patrimônio genético e da biodiversidade, por sua vez, representado pelas centenas de milhares de espécies que têm no mar brasileiro o seu habitat, é avaliada em artigo de José Angel Alvarez Perez. Já Belmiro Mendes Castro e coautores examinam o ambiente marinho, sob a perspectiva de um planeta em transformação, particularmente em conjunção com as mudanças climáticas e com o aquecimento global. Por fim, somam-se a todos os aspectos acima citados a enorme importância do mar para a atividade turística no Brasil, representando, ademais, a mais importante e democrática fonte de lazer e cultura de toda a população brasileira, com nada menos que 80% de sua população vivendo a menos de 200 km da costa. A despeito de tais fatos, o Brasil ainda parece permanecer deitado de costas para esse berço esplêndido, azul e salgado, por meio do qual, ironicamente, nasceu.

Como se pode constatar do acima exposto, este Núcleo Temático buscou reunir alguns dos mais destacados pesquisadores não só para apresentar o estado da arte das ciências do mar no Brasil, nas suas respectivas áreas de conhecimento, mas, e ainda mais importante, para sinalizar os caminhos futuros a serem trilhados com o objetivo de assegurar a herança da Amazônia azul para as futuras gerações de brasileiros e brasileiras. Certamente, porém, tal objetivo não será jamais alcançado se o esforço não se encontrar firmemente alicerçado no desenvolvimento das ciências do mar no país.

Fábio HissaVieira Hazin é professor associado do Departamento de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), presidente da Associação Brasileira de Engenharia de Pesca e presidente da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT).

NOTA BIBLIOGRÁFICA

1. Explotar: [do grego exploiter] tirar proveito econômico de (determinada área), sobretudo quanto aos recursos naturais. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição, revista e aumentada. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Ed. Nova Fronteira. 1986.