
Vice-Almirante Salgueirinho, Comandante do 4º Distrito Naval, teve contato com o tema durante seu estágio na Escola Superior de Guerra (Imagem: MN Mauricio Halim)
Militares e servidores civis lotados no Comando do 4º Distrito Naval, em Belém (PA), tiveram a oportunidade de revisitar a história do maior conflito armado da América do Sul. No dia 26 de março, o Comandante do 4º Distrito Naval, Vice-Almirante Sergio Renato Berna Salgueirinho, ministrou uma palestra sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), na qual o Império do Brasil juntou-se à República Argentina e à República Oriental do Uruguai contra a ditadura instalada por Solano Lopez no Paraguai. Realizada no auditório “Portal da Amazônia”, a palestra teve como público os militares e servidores civis da Marinha lotados em Belém.
O conflito teve início em dezembro de 1864, quando o presidente do Paraguai, Francisco Solano López, ordenou que suas tropas invadissem a província brasileira de Mato Grosso. A guerra encerrou-se em março de 1870, com cerca de 370 mil mortos entre militares e civis.
A palestra foi promovida com o propósito de esclarecer os fatores que motivaram a deflagração do conflito e como ele se sucedeu. Interessante notar que, conforme apresentado, a luta foi travada contra a ditadura de Solano López, e não contra a nação paraguaia, com quem o Brasil manteve boas relações diplomáticas. “A Guerra deve ser tratada como Guerra da Tríplice Aliança, uma vez que a luta não foi travada contra o povo paraguaio, mas sim contra o Governo autoritário de Solano López”, afirmou o Vice-Almirante Salgueirinho.
No entendimento do Almirante, um dos mitos que se deve rechaçar sobre a Guerra da Tríplice Aliança é a versão de que o conflito teria sido patrocinado pela Inglaterra, supostamente receosa quanto ao avanço industrial do Paraguai, que deixaria de depender das manufaturas inglesas.
“Essa versão tem origem nos anos 1960/1970, durante a Guerra Fria. Entretanto, as evidências e os estudos mais recentes demonstram que esse argumento não se sustenta”, disse o palestrante. À época, a industrialização do Paraguai não existia, praticamente, e não haveria sentido em incitar uma guerra que dizimaria a população, caso a Inglaterra desejasse a formação de um mercado consumidor. Outro fator era a chamada “Questão Christie”, embate diplomático que gerou o rompimento das relações entre Brasil e Inglaterra no período de 1863 a 1865.

Avanços tecnológicos
No início da Guerra da Tríplice Aliança, a Marinha do Brasil dispunha de 45 navios armados. Destes, 33 eram navios de propulsão mista, a vela e a vapor, e 12 dependiam exclusivamente do vento. A propulsão a vapor, no entanto, era essencial para operar nos rios.
Os navios brasileiros, no entanto, mesmo os de propulsão mista, eram adequados para operar no mar e não nas condições de águas restritas e pouco profundas dos rios Paraná e Paraguai.
As inovações tecnológicas proporcionadas pela Guerra Civil Americana trouxeram muitas novidades para a guerra naval e, especificamente, para o combate nos rios. Na Guerra da Tríplice Aliança, essa influência foi notada, sobretudo, pelo aparecimento da mina naval e dos navios protegidos por couraça de ferro, da classe “Monitor”.

“Caverna mestra” da Armada, Monitor “Parnaíba”, incorporado em 1937, tem seu projeto derivado dos monitores da Guerra da Tríplice Aliança (Imagem: Marinha do Brasil)
Conflito deixou 370 mil mortos entre militares e civis
Após as vitórias da Tríplice Aliança nas batalhas de Itororó, Avaí e Lomas Valentinas, série de eventos conhecida como "dezembrada" (dezembro de 1868), Duque de Caxias, Comandante-Chefe das forças do Império do Brasil, considerou a Guerra como encerrada.
No entanto, o desejo do Imperador, Dom Pedro II, era guerrear até a morte de Solano López. López foi morto na Batalha de Cerro Corá, no dia 1º de março de 1870, fato que encerrou, definitivamente, as operações militares.