Boletim quinzenal · Área de Estudo I
Número11
Data21 AGO 2026
AutorCF L. C. Lemos Alves J.
Leitura estimada12 minutos

ENSINAMENTOS PARA O COMANDANTE OPERACIONAL

Por que isso é importante

Milan Vego dedica o capítulo final de Operational Art: Theory and Practice a nove preceitos da liderança operacional em combate. Escolhe deliberadamente a palavra tenet, isto é, preceito, ensinamento, e não “princípio”, “máxima” ou “axioma”. A distinção não é ao acaso: princípios de guerra colidem entre si e obrigam o Comandante a escolher qual violar; preceitos, não. São mais amplos, menos rígidos, e derivam da observação de que sua inobservância complicou o planejamento e a execução de campanhas em todas as eras.

O Contra-Almirante Alfred Thayer Mahan já advertira que aceitar princípios sem hesitação e com pouca reflexão é fonte do maior dos perigos: uma vez incorporados a instruções navais e regulamentos de campanha, esses supostos princípios prendem a mente dos oficiais em laços que não se rompem.

O confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã, aberto em 13 de junho de 2025 e ainda sem desfecho, oferece um caso raro: uma campanha contemporânea, documentada em fontes abertas, na qual os nove preceitos aparecem simultaneamente; alguns observados com rigor exemplar, outros violados com consequências mensuráveis. O valor do caso está menos nos meios empregados e mais no que ele demonstra sobre o custo que a decisão operacional impõe, meses depois, a seus desdobramentos.

Nota de corte temporal: os dados deste informativo são referidos a 20 de agosto de 2026. O conflito permanece em curso.

“Em um conflito convencional de alta intensidade, o objetivo principal deve ser a destruição ou o aniquilamento das forças inimigas, e não a captura ou a retenção de território ou área economicamente importante.”

O que está impulsionando a notícia

Em 13 de junho de 2025, Israel deflagrou a Operação RISING LION: duzentas aeronaves de caça sobre mais de cem alvos, atingindo simultaneamente a infraestrutura nuclear iraniana e a cúpula militar do país. Morreram o Comandante-em-Chefe do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, Hossein Salami, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Mohammad Bagheri, e quatro cientistas nucleares.

Em 21 e 22 de junho, os Estados Unidos passaram a atuar diretamente, na Operação MIDNIGHT HAMMER. Segundo o briefing do Pentágono conduzido pelo General Dan Caine, sete bombardeiros B-2 Spirit partiram da Base Aérea de Whiteman, no Missouri, em missão de dezoito horas; mais de 125 aeronaves compuseram o pacote; quatorze bombas penetrantes GBU-57 caíram sobre Fordow e Natanz em janela de vinte e cinco minutos; mais de duas dúzias de mísseis Tomahawk foram lançados de submarino contra Isfahan. Em 23 de junho o Irã retaliou contra a Base Aérea de Al Udeid, no Catar, avisando previamente o país anfitrião e o governo norte-americano; não houve baixas. O cessar-fogo veio em 24 de junho.

O que se seguiu importa mais que a campanha em si. As hostilidades foram reabertas em 28 de fevereiro de 2026; em 2 de março o Irã declarou fechado o Estreito de Ormuz; em 13 de abril os Estados Unidos impuseram bloqueio naval a portos iranianos; em 17 de agosto expirou, sem acordo, o memorando de entendimento que deveria encerrar o conflito. Vinte meses depois do primeiro ataque, o objetivo declarado que o justificou segue em disputa.

Análise

Primazia Absoluta da Política e da Estratégia. A política domina a estratégia, e a estratégia domina a arte operacional e as táticas. Mas a política jamais deve exigir o que é militarmente impossível, e ways e means precisam estar em harmonia. O caso em lide ilustra o preceito por contraste. Em catorze meses, o objetivo político declarado transitou da eliminação da capacidade nuclear iraniana para a insinuação de mudança de regime, depois para o desmantelamento do aparato de segurança do Estado e, em junho de 2026, para um acordo que admitiria mísseis balísticos limitados e adiaria a questão nuclear. Quando o fim político se desloca, o planejamento operacional perde a referência contra a qual mede o próprio êxito.

Foco Firme e Inabalável no Objetivo. Vego adverte que constância de propósito não significa perseguir objetivo claramente inalcançável com os meios disponíveis: erro que atribui a Hitler, que dissipou recursos escassos em objetivos simultâneos e nunca compreendeu que não se pode ser forte demais no ponto decisivo (nota: Vego se refere algumas vezes a “ponto decisivo” com uma conotação distinta ao PPC; ele se refere a um ponto crucial, um ponto ao qual seus esforços devem ser direcionados). Avaliação preliminar da Defense Intelligence Agency estimou atraso inferior a seis meses no programa nuclear iraniano: instalações subterrâneas com acessos bloqueados, não destruídas; urânio enriquecido removido antes dos ataques; centrífugas em grande parte intactas. A Agência Internacional de Energia Atômica registrou dano muito significativo, sem acesso in loco para confirmação, e alertou para possível retomada do enriquecimento em meses. A pergunta que Vego nos obriga a fazer não é se os alvos foram destruídos, mas se o objetivo era alcançável. Uma instalação enterrada pode ser destruída; o conhecimento técnico que a construiu, não.

Obtenção e Manutenção da Liberdade de Ação. Sem liberdade de agir, perde-se a capacidade de exercer a iniciativa; e o comandante deve reduzir, desde o primeiro momento, a liberdade de ação do inimigo. Na campanha de 2026, as Forças de Defesa de Israel afirmam ter obtido superioridade aérea sobre o Irã em vinte e quatro horas, precedida do desmantelamento sistemático do domínio eletromagnético sobre o país antes que a primeira aeronave cruzasse a fronteira. É a aplicação literal do preceito. Mas o mesmo episódio expõe o seu limite: Vego relaciona o apoio logístico inadequado entre os fatores mais críticos de redução da liberdade de ação, e o consumo acelerado da munição da defesa aeroespacial israelense contra os mísseis balísticos iranianos mostrou que liberdade de ação sobre o alvo não se confunde com liberdade de ação ao longo do tempo.

Exercício da Iniciativa. Iniciativa é a capacidade de estabelecer ou alterar os termos do combate pela ação; Moltke recomendava, na dúvida e na névoa, proceder ativamente em vez de esperar a lei do inimigo. O ataque de 13 de junho de 2025 é a iniciativa em forma exata: atingir cúpula e programa em sincronia não busca desgaste, busca desorganizar a capacidade adversária de reagir de modo coordenado. O contraste veio dez dias depois: a retaliação iraniana contra Al Udeid, anunciada de antemão e sem baixas, cumpriu exigência política interna sem provocar escalada. É ação sem iniciativa, porque nada impôs ao adversário.

“Na guerra não se busca uma luta justa, mas sim uma luta injusta.”

Emprego de Poder Avassalador. Na guerra não se busca uma luta justa, mas uma luta injusta; e hoje a força não precisa ser fisicamente concentrada, desde que produza efeito de massa no lugar e no momento decisivos. A Operação MIDNIGHT HAMMER é ilustração quase literal dessa formulação: não houve massa física, foram sete aeronaves, houve efeito de massa no ponto decisivo, com o único vetor capaz de alcançar o alvo subterrâneo. Registre-se que esses números provêm do próprio beligerante, sem verificação independente.

Alta Velocidade de Ação. Clausewitz considera ímpeto e velocidade indispensáveis para derrotar o inimigo, e conclui que a teoria exige os caminhos mais curtos para o objetivo. Vego acrescenta a advertência: a velocidade não deve ser levada ao extremo, como fez Schlieffen, cujo plano de 1905 previa fase única, sem pausa operacional e sem reservas, e por isso não absorveu as mudanças inesperadas de agosto de 1914. A campanha de 2025 foi excepcional em execução: dezoito horas de voo, reabastecimentos fora do alcance dos sensores de rastreamento civil no Atlântico, comunicação restrita, ataque em vinte e cinco minutos, campanha encerrada em doze dias. É aqui que a advertência sobre Schlieffen se aplica: a campanha teve fase única e nenhuma sequência planejada para consolidar o resultado, e oito meses depois as hostilidades foram reabertas. A velocidade é indispensável para derrotar o inimigo, mas não substitui a escolha correta do objetivo.

“Surpresa é um multiplicador de força: seu efeito no moral do inimigo é devastador.”

Aceitação de Riscos Altos, mas Prudentes. A decisão no nível operacional é inerentemente baseada em riscos altos, mas prudentes, que não são apostas e, sim, decisões calculadas. Vego invoca MacArthur em Inchon e registra o outro lado da mesma biografia: ao ultrapassar o Paralelo 38, MacArthur pareceu perder a segurança de julgamento que demonstrara.

O risco aceito em junho de 2025 era nomeável desde o início. Atacar diretamente o território iraniano expunha ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde cruzam, em tempo de paz, vinte por cento do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Punha-se em jogo o fluxo energético global para destruir três instalações. O cálculo confirmou-se: a retaliação iraniana veio calibrada e avisada, e o cessar-fogo chegou em dois dias. Risco alto e prudente, na acepção de Vego, porque a consequência mais grave foi antecipada e a decisão foi tomada com ela à vista.

É no ciclo seguinte, com objetivo ampliado, que a prudência se perde, e o custo recaiu sobre o Domínio Marítimo. O Estreito de Ormuz está fechado desde 2 de março de 2026; os Estados Unidos mantêm bloqueio naval a portos iranianos desde 13 de abril, tendo, segundo o Comando Central, desabilitado oito navios e desviado outros cento e trinta e quatro. O barril passou de sessenta e cinco a mais de cento e vinte e seis dólares. O que em 2025 fora risco calculado tornou-se, em 2026, custo corrente.

Obtenção da Surpresa. Quanto mais alto o nível de condução das operações, mais importante é a surpresa e mais difícil alcançá-la; seus elementos são sigilo, velocidade e ocultação, e trata-se de fator temporário. Os japoneses atacaram Port Arthur em 8 de fevereiro de 1904, dois dias antes da declaração formal de guerra. Em junho de 2025 a geometria foi a mesma, e vale explicitar os papéis. Quem atacou foi Israel, na sexta-feira 13 de junho. O pano de fundo que tornava aquela data improvável era diplomático: a sexta rodada de negociações nucleares entre Estados Unidos e Irã estava marcada para o domingo seguinte, em Omã. Teerã cancelou a rodada. A negociação em curso cumpriu, para o atacante, a função que Vego atribui à transparência no geral: ocupava a atenção do adversário enquanto o essencial permanecia insuspeitado.

Na entrada norte-americana, nove dias depois, a dissimulação foi explícita e teve resultado verificável. Oito bombardeiros B-2 seguiram rumo a Guam, no Pacífico, como isca, enquanto sete cruzavam para leste. Os rastreadores de fonte aberta acompanharam o grupo que ia para oeste; os sete que atacaram Fordow e Natanz só se tornaram públicos depois de cumprida a missão, quando o próprio Pentágono revelou o embuste. A surpresa foi obtida sobre o adversário e, ao mesmo tempo, sobre o observador não beligerante.

Sobre a temporariedade, Vego é explícito: a surpresa cria a oportunidade de infligir perdas consideráveis em prazo curto e de desorganizar o controle das forças e os planos do adversário, não um resultado que se sustente por si. Em junho de 2025 a surpresa foi plena e o efeito imediato, real; oito meses depois o conflito recomeçou.

Criatividade. O Comandante Operacional deve ser ousado e inovador, e não empregar suas forças de maneira tradicional; nada é mais desconcertante do que enfrentar situação para a qual não há resposta pronta. Vego oferece o contorno dos pontos fortes japoneses nas Salomão e na Nova Guiné: Rabaul isolado, Wewak com quinze mil homens ultrapassado, enquanto o ataque acontecia onde a defesa era mínima. O caso contemporâneo inverte a geometria clássica da ofensiva aérea. O serviço de inteligência israelense montou, dentro do território iraniano, uma base de veículos aéreos não tripulados, ativada na noite do ataque contra lançadores de mísseis superfície-superfície; veículos contrabandeados com sistemas de armas neutralizaram defesas aéreas. Parte do ataque não veio de fora: nasceu dentro da defesa.

OS NOVE PRECEITOS DA LIDERANÇA OPERACIONAL 1Primazia Absoluta da Política e da Estratégia2Foco Firme e Inabalável no Objetivo3Obtenção e Manutenção da Liberdade de Ação4Exercício da Iniciativa5Emprego de Poder Avassalador6Alta Velocidade de Ação7Aceitação de Riscos Altos, mas Prudentes8Obtenção da Surpresa9Criatividade
Figura 1 — Os nove preceitos da liderança operacional, segundo Milan Vego

Um traço comum aos nove. O ambiente da campanha foi multidomínio, como define a Doutrina Militar de Defesa. Os Domínios Aéreo e Terrestre já foram tratados. No Domínio Marítimo, além do estreito fechado e do bloqueio recíproco, mais de mil e setecentos eventos de interferência de navegação afetaram seiscentos e cinquenta e cinco navios no Golfo, conforme registro da Lloyd's List Intelligence.

No Domínio Eletromagnético, Cibernético e Cognitivo concentram-se as ações de que aquela interferência é apenas o efeito visível no mar: a supressão prévia do espectro sobre o território iraniano, a destruição de dados no Banco Sepah, a subtração de cerca de noventa milhões de dólares da maior casa de câmbio de criptoativos do Irã, o ataque à televisão estatal durante transmissão ao vivo e o aviso de evacuação dirigido a cerca de trezentos e trinta mil moradores do centro de Teerã.

No Domínio Espacial, a constelação da Força Espacial norte-americana proveu alerta antecipado de mísseis, enquanto o falseamento de sinais de posicionamento exibia embarcações sobre aeroportos e usinas nucleares. A assimetria de que Vego fala já não é escolha entre domínios: é composição simultânea deles.

“Os Comandantes Operacionais devem ser ousados e inovadores: não devem empregar suas forças de maneira tradicional.”

Algumas implicações

O objetivo mal escolhido não é corrigido por excelência de execução. A execução foi, em vários aspectos, exemplar: sigilo, velocidade, concentração de efeitos, dissimulação. O objetivo, contudo, era a destruição de instalações, quando o que sustentava a ameaça era a capacidade de reconstruí-las. Vinte meses e duas campanhas depois, a questão nuclear iraniana segue aberta.

O Domínio Marítimo absorve o custo de decisões tomadas em outros domínios. Nenhuma das decisões relevantes desta campanha foi tomada no mar, e é no mar que o custo se acumulou: estreito fechado, prêmios de seguro em alta, rotas desviadas, navegação por satélite não confiável em área de elevada densidade de tráfego. O comércio exterior brasileiro depende de linhas de comunicações marítimas que atravessam pontos focais de natureza análoga. A lição é de planejamento: quem gerencia o risco operacional precisa pesar também os efeitos de segunda ordem que recairão sobre domínios que não foram objeto de sua decisão, pois os domínios são interconectados.

Preceitos, não regras. Vego encerra o capítulo advertindo que os preceitos da liderança operacional não devem ser tratados como dogma, que quanto menos preceitos melhor, e que nenhuma lista será universalmente aceita. Mas cada Força deve chegar a um consenso sobre os seus, sob pena de não haver base comum para educação e adestramento. O caso examinado aqui não valida uma doutrina: oferece material para que a nossa seja discutida.

Para se aprofundar no tema

A leitura integral do capítulo 10 de Operational Art: Theory and Practice é o caminho natural, acompanhada dos exemplos históricos que o próprio Vego mobiliza: Manstein no Donets em 1943, as Ardenas em 1940, Port Arthur em 1904, Inchon em 1950 e o contorno de Rabaul, pois é neles que os preceitos deixam de ser enunciados e passam a ser critérios de decisão. Sobre o caso contemporâneo, as fontes primárias do Departamento de Guerra dos Estados Unidos, do Comando Central e da Agência Internacional de Energia Atômica permanecem em acesso aberto, e vale examiná-las lado a lado. Sobre o mesmo fato, o dano às instalações nucleares, o governo norte-americano descreveu os alvos como destruídos, sua própria agência de inteligência de defesa estimou atraso de poucos meses e a agência internacional registrou dano significativo sem confirmação.

🔗 Referências bibliográficas

Expediente
Publicação Informativo OPERAÇÕES NAVAIS
Periodicidade Quinzenal
Corpo editorial Área de Estudo I (AE-I)
Instituição responsável Escola de Guerra Naval (EGN) — Av. Pasteur, 480 · Urca · Rio de Janeiro · RJ · CEP 22290-255
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