Os exercícios "Joint Sword", realizados pela China em torno de Taiwan desde 2024, revelam uma evolução significativa do emprego do poder marítimo chinês. Mais do que preparar uma invasão anfíbia em larga escala, Pequim parece estar consolidando uma capacidade de coerção marítima gradual, capaz de isolar Taiwan por meio da combinação de meios militares e não militares, sem necessariamente desencadear um conflito aberto.
Por que isso é importante
Os exercícios mais recentes sugerem que a China pode estar priorizando uma alternativa operacional menos custosa e potencialmente mais eficaz do que uma eventual invasão anfíbia em Taiwan: a imposição progressiva de uma quarentena ou bloqueio marítimo.
A interoperabilidade entre as forças do Exército de Libertação Popular (PLA) e da Guarda Costeira da China (CCG) em exercícios navais e ações de presença em áreas de interesse, somados a instrumentos de pressão diplomática, demonstra uma forma contemporânea de coerção capaz de produzir efeitos políticos e estratégicos sem recorrer imediatamente ao uso da força em um conflito armado.
Fonte: ResearchGate, 2026.O que está impulsionando a notícia
- Joint Sword-2024A: realizado em maio de 2024 após a posse do presidente Lai Ching-te (Taiwan), simulou operações de cerco e controle de acessos marítimos e aéreos ao redor da ilha.
- Joint Sword-2024B: ampliou a escala das operações e consolidou a participação da CCG em áreas tradicionalmente associadas a exercícios militares.
- Crescente emprego integrado da CCG, reforçando a capacidade de atuar na chamada "zona cinzenta".
- Continuidade da expansão das capacidades anfíbias e expedicionárias da PLAN, incluindo incorporação de novos meios e incremento dos treinamentos com navios de assalto anfíbio e forças de desembarque.
Análise
Uma invasão anfíbia em Taiwan continua sendo uma operação militar das mais complexas do mundo contemporâneo. A travessia do estreito sob vigilância constante, a conquista de áreas para o desembarque, a sustentação logística de forças em terra e a possibilidade de intervenção externa tornam esse cenário extremamente arriscado, elevando demais o custo da conquista, mesmo para uma potência militar em ascensão.
Os exercícios "Joint Sword", e outros semelhantes que se seguiram, indicam que a liderança chinesa busca ampliar seu leque de opções estratégicas para lidar com a "Questão de Taiwan". Em vez de depender exclusivamente de uma campanha de invasão, a China demonstra crescente interesse em desenvolver mecanismos capazes de controlar linhas de comunicação e acessos essenciais para a economia taiwanesa, impondo custos políticos e econômicos progressivos ao governo da ilha.
A participação coordenada da PLAN e da CCG merece atenção especial. Essa integração cria condições para emprego de um instrumento de coerção muito mais flexível do que uma força naval tradicional, permitindo a adoção progressiva de medidas coercitivas passíveis de serem apresentadas como ações administrativas, regulatórias ou de fiscalização marítima, dificultando respostas imediatas da comunidade internacional.
Estudos recentes apontam que a China vem aperfeiçoando sua prontidão operacional, a integração entre forças e a capacidade de mobilização rápida. Os exercícios deixam de representar apenas treinamento e passam a funcionar como demonstrações recorrentes de capacidade, sinalizando que Pequim possui meios para restringir acessos marítimos em curto prazo.
As atividades observadas em 2025 e 2026 reforçam essa tendência dissuasória. O aumento da frequência de patrulhas combinadas, a presença constante de meios navais e a continuidade do desenvolvimento de capacidades anfíbias indicam que a coerção marítima se tornou componente permanente da estratégia chinesa para Taiwan.
Do ponto de vista operacional, a principal inovação não está necessariamente na capacidade de conquistar a ilha, mas na possibilidade de cercá-la. Ao criar condições para uma eventual quarentena marítima, a China passa a dispor de uma alternativa intermediária entre a dissuasão e a guerra aberta, ampliando significativamente sua ambiguidade estratégica.
Por fim, os exercícios analisados oferecem um exemplo relevante de como o Poder Naval pode ser empregado no ambiente estratégico do século XXI. Para marinhas responsáveis pela proteção de amplos espaços marítimos, como a Marinha do Brasil, compreender esse contexto torna-se tão importante quanto acompanhar a evolução dos meios navais chineses.
Algumas implicações
- A fronteira entre normalidade, crise e conflito torna-se cada vez mais difusa no domínio marítimo.
- Operações na "zona cinzenta" ampliam a relevância da integração entre forças militares, instrumentos não militares e órgãos de fiscalização marítima.
- Consciência situacional marítima contínua tem papel fundamental na análise e no tratamento de crises.
- A proteção de grandes áreas marítimas, como a Amazônia Azul, exige a integração permanente entre sensores, inteligência, estruturas de comando e controle, mecanismos de coordenação interagências, e sistemas capazes de responder proativamente às potenciais ameaças.