A onda de danos a cabos submarinos no mar Báltico transformou o leito dos mares e oceanos em um “novo” espaço de tensão geopolítica. A necessidade de proteção dessa infraestrutura invisível que sustenta a maior parte do tráfego de dados do mundo tem apresentado desafios e inquietações de governança, defesa e segurança que precisam ser discutidas apropriadamente. O Brasil, cujo litoral concentra parte crítica dessa malha, não é exceção.
Por que isso é importante
Em 2026 foram mapeados mais de 600 cabos submarinos ativos e planejados, número que muda constantemente à medida que novos cabos entram em serviço e outros são desativados. Atualmente, os cabos ativos transportam quase 100% das comunicações digitais transoceânicas.
Essas estruturas são responsáveis pela transmissão de dados financeiros, governamentais, científicos e de comunicação entre continentes. Qualquer interrupção nesses sistemas pode gerar impactos econômicos significativos e comprometer a soberania digital de um País. Por isso, a proteção dessas estruturas é considerada prioridade estratégica para a segurança nacional.
Aaron Bateman, professor assistente de história e assuntos internacionais na Universidade George Washington, descreve apropriadamente a rede de cabos submarinos como o “ponto vulnerável” da potência global americana.
O Brasil depende fortemente dessa infraestrutura para garantir a continuidade dos serviços de telecomunicações e o funcionamento de aplicações em nuvem, inteligência artificial (IA) e outras tecnologias emergentes essenciais à economia digital.
Uma sequência de incidentes expôs o quanto as infraestruturas críticas submarinas são vulneráveis: a sabotagem do Nord Stream (gasoduto Rússia–Alemanha), em 2022, e os cortes dos cabos Estlink 2 (2024) e C-Lion1 (2024–2025). Esses dois últimos casos, sem que as autoridades finlandesas provassem a intencionalidade dos navios envolvidos.
O que está impulsionando a notícia
- Shadow Fleet: cresce a atenção sobre navios de propriedade obscura, com capacidades para mapear, localizar e ameaçar cabos e dutos no leito marinho no Atlântico Norte.
- Incidentes recentes: no dia 31 de dezembro de 2025, a operadora Elisa detectou o rompimento de um cabo entre Helsinque (capital da Finlândia) e Tallinn (capital da Estônia). A polícia finlandesa apreendeu um cargueiro suspeito de arrastar o ferro (âncora) sobre os cabos.
- Resposta da OTAN: a Operação Baltic Sentry tornou-se um laboratório operacional que combina presença naval com veículos não tripulados de superfície (USV), subaquáticos (UUV), drones e vigilância assistida por IA, com o objetivo declarado de dissuadir e defender a infraestrutura submarina crítica.
- O Brasil na rota: Fortaleza (CE) concentra o maior número de sistemas de cabos submarinos da América do Sul e responde por cerca de 90% do tráfego internacional de dados do Brasil; a Marinha do Brasil realizou exercícios inéditos de proteção desses cabos no litoral cearense, mobilizando navios, tropas e aeronaves.
Fortaleza (CE) concentra o maior número de sistemas de cabos submarinos da América do Sul.
Análise
Danificar um cabo é uma ação de menor custo e pode ser disfarçada de acidente, enquanto detectar e reparar apresentam custos elevados, são lentos e tecnicamente complexos.
Quase sempre a autoria é difícil de provar, e é essa zona cinzenta, entre acidente e ato hostil, entre dano civil e guerra híbrida, que transforma os fundos marinhos em espaço de tensão. A negação plausível é a arma, tanto quanto o dano físico.
O “boom da IA” e a transição energética provavelmente aumentarão o número de cabos submarinos, e os governos não podem mais assumir que eles só seriam danificados por acidente.
O elo que transforma sensores em decisão é a fusão de dados. Sozinho, nenhum meio, tripulado ou autônomo, nem satélite resolve o problema; integrar radar, AIS, acústica, imagens e padrões de tráfego marítimo num quadro único para detectar o anômalo é a lógica com que os centros regionais de fusão de dados ampliam a consciência situacional marítima.
A IA atua em duas frentes. Na coleta, permite que poucos meios não tripulados vigiem áreas enormes, filtrando o irrelevante. No processamento, comprime o tempo entre o sinal e o alerta, sinalizando ao operador o que merece atenção, sem substituir o julgamento humano, ainda indispensável para qualificar a ameaça e sustentar a atribuição. Autonomia na ponta somada à fusão de dados na retaguarda é o que torna viável o “detectar para dissuadir” em escala oceânica.
Proteger essa infraestrutura é igualmente um esforço diplomático, regulatório e público-privado. A participação de múltiplas agências e empresas privadas demonstra que a proteção de infraestruturas críticas exige abordagem integrada e colaborativa. A coordenação entre Estados, operadores e organismos internacionais contribui para a dissuasão.
No plano regulatório, a ANATEL colocou a atualização das regras de cabos na sua agenda 2025–2026.
A capital cearense está entre os pontos brasileiros mais próximos dos Estados Unidos, da Europa e da África. Tal concentração geográfica de pontos de aterragem é “força”, mas também evidencia riscos associados à centralização, como vulnerabilidades a incidentes físicos e cibernéticos.
O exercício em Fortaleza (CE) reafirma o compromisso da Marinha do Brasil em fortalecer suas capacidades operacionais para proteger infraestruturas essenciais, assegurando a continuidade e a segurança das comunicações vitais para o País e o mundo. A vigilância das rotas se apoia no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz).
A negação plausível é a arma, tanto quanto o dano físico.
Algumas implicações
- Ampliação da consciência situacional marítima nos leitos marinhos de interesse.
- Identificação e priorização das infraestruturas submarinas críticas nacionais.
- Sistemas não tripulados, somados a IA e fusão de dados, são um dos caminhos para vigiar infraestruturas críticas submarinas com meios limitados.
- A proteção é interagências e público-privada.
- Fortaleza é um ponto crítico: priorizar a vigilância das rotas de aterragem no Ceará e no Atlântico Sul dentro do SisGAAz.
- Consolidação da capacidade permanente da Marinha do Brasil de proteção de infraestruturas submarinas críticas, integrada à consciência situacional marítima.
Para se aprofundar no tema
Sugere-se a leitura do relatório técnico do CEPE-MB que descreve o desafio brasileiro no que tange à garantia da segurança dos cabos submarinos de interesse nacional. O referido relatório consta como referência bibliográfica deste informativo.