Fungos antárticos têm eficiência contra doença na citricultura

PROANTAR

Existe uma doença que afeta todas as espécies e variedades cultivadas pela citricultura: o cancro cítrico.

Existe uma doença que afeta todas as espécies e variedades cultivadas pela citricultura: o cancro cítrico. A doença é causada pela bactéria Xanthomonas citri, originária da Ásia, onde ocorre de forma endêmica em todos os países produtores de citros. Embora haja algumas formas de combate, nenhuma delas tem total eficácia na eliminação da doença. Daí ser essencial a busca de novos métodos químicos ou biológicos para proteger os pomares.

A equipe liderada pelos professores Daiane Cristina Sass, Lara Durães Sette e Henrique Ferreira, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, identificou 29 fungos com ação comprovada contra Xanthomonas citri. E a origem desses fungos é surpreendente. Eles foram isolados de amostras de solo e de sedimento marinho da Antártica.

“Nosso grupo trabalha na busca de microrganismos que produzam compostos com ação antibacteriana para aplicação na agricultura”, disse Sass, que coordena o projeto “Potencial biotecnológico de metabólitos secundários de fungos da Antártica com atividade contra bactérias fitopatogênicas”. Assim surgiu a ideia de investigar a coleção de fungos estruturada ao longo de expedições realizadas durante os verões antárticos de 2013 e 2015, no arquipélago das Shetland do Sul, no âmbito do projeto Microsfera (PROANTAR/CNPq). Sette conduz o projeto “Micologia Marinha e Antártica: diversidade e aplicação ambiental”.

Na ilha Deception, foram isolados 33 fungos filamentosos a partir de amostras coletadas em solo abaixo de madeira podre. Já nas águas da baía do Almirantado, na Ilha Rei George, foram isolados 53 fungos filamentosos de sedimentos marinhos, localizados a 20 metros de profundidade. Todas as linhagens de fungos estão depositadas na coleção do Instituto de Biociências intitulada Central de Recursos Microbianos da Unesp (CRM-Unesp).

“Esses fungos vivem em condições de isolamento e se proliferam em ambientes inóspitos, com baixas temperaturas e elevado índice de radiação ultravioleta. Quais seriam as suas adaptações para conseguir sobreviver em um ambiente tão hostil à vida? Queríamos ver se tais fungos produzem moléculas com estruturas únicas, capazes de protegê-los de infecções e que, portanto, teriam ação antibacteriana”, disse Sass.

O cancro cítrico se caracteriza pelo crescimento descontrolado das células da planta infectada, gerando tumores nas folhas, frutos e ramos. Por meio dessas lesões, a bactéria se dissemina. Os sintomas não afetam a qualidade nem o sabor do produto, mas afetam as suas vendas.

O controle da doença é feito pelos próprios citricultores. São indicadas medidas como pulverizações do pomar com produtos à base de cobre e a substituição de plantas infectadas por mudas sadias e de variedades mais resistentes. Além disso, recomenda-se o controle da larva minadora ou minador-dos-citros (Phyllocnistis citrella). Trata-se de uma mariposa cujas larvas provocam ferimentos na planta, abrindo entradas para a penetração da bactéria do cancro cítrico.

“O principal método de combate ao cancro cítrico é a aplicação nos pomares de compostos de cobre. O lado negativo é que, mesmo em quantidades pequenas, com o uso prolongado o cobre acaba por se acumular nos frutos, no solo e nas águas, acabando por contaminar todo o meio ambiente. É por isso que buscamos novos compostos que sejam menos agressivos ao meio ambiente e menos prejudiciais ao ser humano”, disse Sass.

O cancro cítrico foi constatado pela primeira vez no Brasil em 1957, nos Estados de São Paulo e Paraná. Desde então, a doença se tornou endêmica e vem causando prejuízos crescentes aos produtores de laranja, limão e tangerina. Segundo o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), em 2012 somente 1,39% dos pomares de São Paulo tinha frutas contaminadas. Em 2017, o índice subiu para 13%.

Dentre os 86 fungos isolados na Antártica, os pesquisadores verificaram que 29 (19 de origem marinha e 10 terrestres) têm compostos de comprovada ação antibacteriana contra Xanthomonas citri.

O trabalho para o isolamento dos compostos produzidos pelos fungos e a verificação da sua atividade antibacteriana envolve diversas etapas. Desde o isolamento dos fungos, seguido do crescimento destes por vários dias em placas de cultura com nutrientes, até a obtenção dos extratos intracelulares e extracelulares.

Ao todo, foram obtidos 158 extratos. “Queríamos verificar qual seria a concentração mínima de cada extrato capaz de inibir em 90% dos casos o crescimento de Xanthomonas”, disse Sass.

Equipe Microsfera preparando coleta

Uma vez identificados os extratos com ação contra Xanthomonas, os pesquisadores procuram agora saber quais são os compostos químicos presentes nos extratos e que lhes conferem ação antibacteriana.

“Estimamos que em até um ano e meio deveremos ter identificado, purificado e realizado testes toxicológicos para alguns desses compostos bioativos”, disse Sass.

Os pesquisadores esperam patentear os compostos identificados. Ao mesmo tempo, desejam conseguir sensibilizar indústrias voltadas para o setor agrícola para desenvolver, a partir desses extratos, produtos de uso comercial para o combate ao cancro cítrico.

O artigo Terrestrial and marine Antarctic fungi extracts active against Xanthomonas citri subsp. de Gabrielle Vieira, Jelena Puric, Luana Galvão Morão, Juliana Aparecida dos Santos, Fábio José Inforsato, Lara Durães Sette, Henrique Ferreira e Daiane Cristina Sass, está publicado em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/lam.12890.

Agência FAPESP