1823-1914

   O período que se seguiu à Independência é caracterizado pela presença de missões francesas incumbidas de realizar campanhas hidrográficas para dar continuidade ao conhecimento de nosso litoral.

   Três franceses se destacam na primeira metade do século XIX, em campanhas hidrográficas no litoral brasileiro: o Capitão-de-Mar-e-Guerra Albin Reine de Roussin e os Capitães-de-Corveta Louis Marius Barral e Tardy de Montravel(gravura).

   Roussin chega em 1819, na corveta La Bayadére, e trabalha, até 21, entre as Ilhas do Maranhão e de Santa Catarina. Disso resultam o roteiro Le Pilote du Brésil e, sobretudo, a Carta Geral da Costa Brasileira, além de catorze cartas particulares, tudo publicado entre 1822 e 1827.

   Na Gabarra Émulation, em 1831, Barral estende o levantamento, da Ilha de Santa Catarina ao Arroio Chuí. Duas cartas e três planos particulares eram publicados em 1833.

   Por fim, dessa primeira fase de atuação francesa, Tardy de Montravel, com o Brigue La Boulonnaise, opera, de 42 a 45, no trecho entre o Cabo Orange e o Maranhão, no Rio Amazonas, até Óbidos, e em parte do Tapajós. Nove cartas na região foram publicadas.    Em 1842, missão francesa chefiada pelo Capitão-de-Corveta Tardy de Montravel realiza levantamento do trecho da costa desde o Maranhão ao Cabo Orange, levantamento do Rio Amazonas até Óbidos e trecho do Rio Tapajós, levantamento do Rio Pará e levantamento da Baía de São Marcos.

   Em menos de trinta anos, o vasto litoral tinha sido cartografado: uma boa semente, plantada em terra boa.

   Com respeito, especificamente, ao roteiro e às cartas produzidas por Roussin , cabe ressaltar que foram de ampla utilização para a navegação das costas brasileiras, até o surgimento das obras cartográficas de Mouchez, sobre as quais, a seguir, são tecidos alguns comentários.

   É digna de menção especial a última campanha hidrográfica francesa realizada no Brasil, chefiada pelo Capitão-de- Fragata Amedée Ernest Barthélémy Mouchez. No período de 1856 a 1860, Mouchez realiza o levantamento do Rio Paraguai, do Paraná até Assunção, o levantamento do porto de São Francisco do Sul e o reconhecimento do Arquipélago de Abrolhos, cujo Capitão-de-Fragata Mouchez levantamento vai terminar, posteriormente. Inúmeras são as cartas resultantes do paciente e meticuloso trabalho de Mouchez. São publicadas, em 1863, as cartas da Bahia ao Rio de Janeiro, da Bahia a Olivença, dos recifes de Itacolomis a Olivença, de Benevente à Barra Seca, de Benevente ao Cabo de São Tomé, da Ilha de Santa Maria a Tramandaí, de Tramandaí à Ilha dos Lobos, além dos planos dos portos de Vitória e Cabo Frio. É ressaltado, como magistral obra de hidrografia, realizada por Mouchez, o plano do Arquipélago de Abrolhos. Os trabalhos de Mouchez, nas costas do Brasil, de norte a sul, estenderam-se até 1868.

   Os trabalhos desse grande oficial da Marinha e hidrógrafo francês vieram coroar, de modo ainda mais expressivo, a enorme contribuição de seus antecessores, Roussin, Barral e Montravel.

   No comando sucessivo de três navios, Mouchez notabilizou-se por um labor incansável, que estimulou o desenvolvimento do serviço e a formação de profissionais de hidrografia.

   Percorrendo 900 milhas nos rios Paraná, Uruguai e Paraguai, até Assunção, com o Lê Bisson, realiza levantamentos, de 1857 a 1860. Em 1861, no D’Entrecasteaux, hidrografa abrolhos e a costa leste, desde a Bahia até o Rio de Janeiro, apoiado pelo Primeiro-Tenente Ignácio Joaquim da Fonseca, na Canhoneira Itajaí.

   Finalmente, o ilustre oficial consolida o sucesso de sua contribuição, no período de 1863 a 1868, cobrindo o restante do litoral brasileiro. Usava como base trabalhos anteriores, de seus compatriotas e de Vital de Oliveira. As inúmeras cartas náuticas que publicou e, particularmente, as de Cabo Frio, São Sebastião, Sepetiba e Ilha Grande, muito contribuíram para celebrizá-lo entre os hidrógrafos nacionais.

 
   O nome do Comandante, mais tarde Almirante Mouchez, ficou marcado como legenda de competência, dedicação e amor ao serviço, no começo de nossa Hidrografia.
 
    Deve ser feita alusão, ainda, a cartas particulares editadas em 1867, como a da Baía de São Marcos ao Morro de São Paulo, a carta de aterragem do Maranhão e a do porto do Maranhão, a carta dos Recifes e do Canal de São Roque e os planos de Aratu e do Porto de Salvador.
 
   No ano de 1868, é editada carta do Ceará à Bahia e, em1869, a carta da Bahia de Todos os Santos.Cabe observar que as cartas de Mouchez, referentes à região entre Cabo Frio e a Ilha de São Sebastião e as de Sepetiba e Ilha Grande primam pela precisão e riqueza de pormenores de interesse do navegante.
   No período que se seguiu à Independência, devem ser mencionadas, além das missões francesas, as missões inglesas de Sullivan (Porto de Benevente e Itapemirim 1851) e as de Dillon e Johnson (Porto do Rio Grande do Sul 1869).
   Em meados do século XIX, iniciam-se os trabalhos de hidrografia realizados por oficiais de nossa Marinha. No ano de 1847, é realizado pelo Capitão-Tenente Joaquim Raimundo de Lamare levantamento da Baía de Guanabara, com base em triangulação feita em 1810.
Em 1859, o então Primeiro-Tenente Antonio Luiz von Hoonholtz escreve o Compêndio de Hidrografia e, de 1862 a 1864, esse brilhante oficial de nossa Marinha realiza levantamentos hidrográficos no canal de Santa Catarina,em Laguna e em Porto Belo.
 
   É, no entanto, Manoel Antonio Vital de Oliveira o oficial brasileiro que realiza trabalho hidrográfico de maior envergadura no século XIX.

   Os inestimáveis serviços de Vital de Oliveira, prestados à Hidrografia, iniciam-se no Iate “Paraibano”: planta de Pitambu e São Bento; levantamento das Ilhas Rocas e seus Baixios; cartas diversas da Província de Alagoas e do trecho de litoral que vai do Rio Capitão-de-Fragata Vital de Oliveira Mossoró à foz do São Francisco. No Vapor “Jaguarão”, leva a termo serviços hidrográficos diversos na área próxima ao Cabo de Santa Marta. No “Beberibe”, na região de Cabo Frio, faz pesquisas de perigos isolados.

   Em 1864, em decorrência da situação de beligerância do País, suspende as atividades hidrográficas e assume o comando do Vapor de Guerra “São Francisco”, realizando transporte de voluntários do Norte e do Nordeste do Brasil para o campo de luta.

 Em 1866, traz, da França para o Brasil, o Monitor-Encouraçado “Nemesis” que é incorporado, logo após a chegada, como Couraçado “Silvado”, à 2ª Divisão de Esquadra de Operações de Guerra do Paraguai. E o hidrógrafo padrão, perfeitamente integrado à missão precípua da Esquadra, cai mortalmente ferido ao participar do bombardeio de Curupaiti e Lagoa Pires.

   Em 1869, postumamente, é publicado o Roteiro de Vital de Oliveira por sua viúva, D. Adelaide Calheiros da Graça Vital. Na apresentação desse Roteiro, foram por ela escritas as comoventes palavras: “A morte veio em fatal remate embaraçar ainda mais esta publicação. O abalo natural que em mim produziu o mais funesto acontecimento que podia sobrevir a minha existência não me facultou de então para cá uma oportunidade em que me dedicasse incontinenti ao imperioso dever de concluir a referida publicação, o que agora faço.”

   O Capitão-de-Fragata Manoel Antonio Vital de Oliveira, por justa razão, é considerado o Patrono da Hidrografia e, na data de seu nascimento, 28 de setembro,é comemorado o Dia do Hidrógrafo.

    O ano de 1876 é auspicioso para a Hidrografia Brasileira. Por decreto do Governo Imperial, no dia 2 de fevereiro, é criada a Repartição Hidrográfica, que tem como primeiro Diretor o Capitão-de-Fragata Antonio Luiz von Hoonholtz – Barão de Teffé – sendo Ministro da Marinha o Conselheiro Luiz Antonio Pereira Franco.

    Poucos dias antes (26 de janeiro), havia sido criada a Repartição de Faróis que, mais tarde, seria integrada à Repartição Hidrográfica.Em 1888, a 4 de abril, é criada a Repartição Central Meteorológica e, a 7 de novembro de 1891, são reunidas as três Repartições em uma única, a Repartição da Carta Marítima.
  O período que vai de 1876 a 1891 é marcado pela elaboração de esboço de plano de levantamento da costa brasileira idealizado pelo Barão de Teffé, pelo levantamento do porto de Santos (Barão de Teffé), pela publicação, no Rio de Janeiro, do Tratado de Geodésia, do Capitão-Tenente José Cândido Guillobel, pela determinação da posição de Cabo Frio, a cargo do Capitão- Tenente Francisco Calheiros da Graça, sendo empregado, pela primeira vez, em nossa Marinha, o telégrafo elétrico, na transmissão de sinais horários.

 

   Em 1896, a Repartição passa a chamar-se Superintendência da Carta Marítima. No final do século, em 1898, a 12 de abril, o Capitão-Tenente Américo Brazílio Silvado elabora as primeiras Instruções Meteorológicas da Diretoria de Meteorologia da Superintendência da Carta Marítima, que marcou as atividades de nosso primeiro serviço meteorológico nacional, sistemático. Ainda nesse ano, são elaboradas as primeiras cartas isobáricas de superfície.
 
 
   A Superintendência da Carta Marítima, em 1906, é transferida da Rua Conselheiro Saraiva nº 5 para a Rua Dom Manoel nº 5 e mantém-se, nesse local, até 1914, quando é transferida para a Ilha Fiscal (foto acima), já com a denominação de Superintendência de Navegação(mudança de nomenclatura ocorrida em 29 de maio de 1908).

  Em 1907, sendo Diretor da Repartição o Almirante Arthur Jaceguay (Arthur Silveira da Motta, Barão de Jaceguay), é iniciada a publicação de coletânea de cartas da costa, conhecida como “Coleção Jaceguay”, com base na compilação de todas as informações até então existentes. Essa coleção tem sua publicação concluída em 1909.