SO-FN-IF (RM1) Angelo

    

     Anualmente os Centros de Instrução do CFN formam centenas de novos Fuzileiros Navais. São jovens provenientes das mais diversas cidades e regiões do país, com diferentes histórias de vida e motivações distintas para terem escolhido a Marinha do Brasil e o Corpo de Fuzileiros Navais como opção de carreira.

     Independente de suas origens e de seus destinos a partir da formatura, cada um desses jovens passou por um longo processo seletivo, composto por múltiplas etapas.

     O processo de recrutamento constitui-se, portanto, em engrenagem fundamental do Corpo de Fuzileiros Navais. Estamos falando da porta de entrada de todas as Praças Fuzileiros Navais (que hoje figuram em torno de 17.600 militares), do primeiro contato que o candidato, ainda civil, tem com a Marinha do Brasil.

     Tendo servido por 18 anos naquele que hoje conhecemos por Departamento de Recrutamento e Seleção do Comando do Pessoal de Fuzileiros Navais (CPesFN) e acumulado uma vasta experiência nos diversos aspectos que norteiam a condução dos processos seletivos para o CPFN, nosso entrevistado deste mês é o Suboficial da Reserva, Fuzileiro Naval Infante, Nivaldo Angelo dos Santos, o SO Angelo.

     Por meio de seu depoimento, poderemos ter acesso a um pouco da história e da evolução do recrutamento no CFN, em aspectos como inscrição, realização das provas e transição da formação, além de conhecermos histórias curiosas e o relato de sua experiência pessoal de recrutamento, ao ingressar na Marinha, no início da década de 80.

 

     O SO Angelo começou sua história com o Recrutamento e Seleção quando servia no GQC (Guarnição do Quartel Central), hoje conhecido como Batalhão Naval. Ele havia acabado de se graduar em Psicologia e, pelo fato de uma das atividades conduzidas pelo setor ser justamente a avaliação psicológica dos candidatos, ele fora convidado para apoiar nessa fase do processo, inicialmente como um destaque temporário. Os destaques começaram em 1995 e sua movimentação fora efetivada em 1998. Desde então, o SO Angelo se dedicou exclusivamente às tarefas do Recrutamento e Seleção, com um pequeno intervalo para cumprir tropa no ano de 2003, tendo se desligado definitivamente (quando já atuava como TTC – Tarefa por Tempo Certo) em maio de 2016.

 

     Entre as diversas etapas que ocorrem nos processos seletivos, o SO Angelo inicia sua narrativa discorrendo sobre a que considera uma das mais importantes e envolventes para os que trabalham na área: o processo de inscrição – sobretudo ao se considerar o contexto das histórias narradas, as quais ocorrem na década de 1990, quando a inscrição ainda era manual. Sendo assim, um dos “personagens” mais importantes nesse cenário era o Posto de Inscrição.

     O Posto de Inscrição do CFN possui uma história rica, marcada por muitas mudanças e adaptações, conforme nos narra o entrevistado nos próximos vídeos:

 

 

     E assim, em meio a um período de inscrição de candidatos para o Concurso a Soldado Fuzileiro Naval, fora demolido o Posto de Inscrição na área do Comando do 1º Distrito Naval.

 

A solução provisória, após negociações, foi nos juntarmos ao pessoal que fazia a inscrição para os demais concursos da Marinha. Não era a solução ideal, pois gerou uma confusão muito grande para os diferentes candidatos, que procuravam diferentes concursos para ingresso na Marinha.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

 

     Conseguiu-se, dessa forma, contornar o problema momentâneo e concluir as inscrições para aquele concurso. Mas era necessário pensar em uma solução a longo prazo.

 

 

E nós temos hoje, acho que de forma definitiva, um posto de inscrição que funciona na Penha. Uma solução adequada, que atendeu perfeitamente a necessidade. Então nós estamos felizes com o desfecho dessa história do Posto de Inscrição, porque resolveu um problema que nós tivemos muita dificuldade ao longo dos anos.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

     Se ainda hoje, com a maior parte das inscrições sendo realizadas via internet, o Posto de Recrutamento do CFN no CEFAN se configura como uma instalação de extrema importância, atendendo a centenas de candidatos todos os anos, pode-se imaginar o quão fundamental era o seu papel 20 anos atrás, quando a grande maioria dos candidatos aos concursos era do Rio de Janeiro e realizava a inscrição pessoalmente.

 

     Em virtude das transformações aceleradas qeu temos testemunhado em diversos campos da sociedade nos últimos anos, é possível falar em história mesmo quando nos reportamos a um período de tempo ocorrido já no século XXI. A velocidade das mudanças atuais faz com que, muitas vezes, poucos anos nos dias de hoje equivalham a décadas em épocas mais remotas.

     No vídeo que se segue, o SO Angelo nos conta um pouco sobre a evolução do processo de inscrição de candidatos, desde os tempos da ficha de papel (que ele mesmo preencheu ao se inscrever para a Marinha) até o primeiro ano em que as inscrições puderam ser realizadas via internet, o que ocorreu apenas a partir dos Concursos de 2004.

 

 

Sob a orientação do Comandante Nunes e com a ajuda do Comandante Chianeli, foi possível dar esse salto qualitativo, fantástico, para o nosso processo de inscrição. E isso desonerou uns 40% ou mais de todo o nosso volume de trabalho no Departamento de Recrutamento e Seleção.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

 

     Deve-se considerar ainda que o volume de trabalho mencionado era intensificado pelo fato de que as inscrições, até o ano de 2009, eram divididas para as turmas I e II de Soldado. Houve anos, inclusive, que chegou-se a ter três aberturas de inscrições – visto que além da formação de SD-FN no Rio de Janeiro, havia ainda as formações regionais, as quais eram conduzidas pelos Grupamentos de Fuzileiros Navais.

     Portanto, a evolução descrita foi crucial, principalmente porque o número de candidatos só se avolumou com o passar dos anos, atingindo o recorde de 34 mil inscritos no ano de 2016, para o Concurso de Soldado FN. Sobre a variação e os fatores que influenciam o número de inscritos, o SO Angelo discorre no próximo vídeo.

 

 

     Outro fator que passou por importantes evoluções foi a questão do local de realização da prova.

Quando a gente pensava em uma logística para fazer o concurso, a gente tinha que levar em conta o volume de candidatos, inclusive nos locais fora de sede. Porque a dificuldade para eles realizarem a prova era até maior do que a nossa aqui no Rio de Janeiro.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

 

 

No Rio de Janeiro, os espaços mais adequados podem ser tanto o estádio do Engenhão quanto o Maracanã. O estádio tem uma vantagem, ele facilita a coordenação. Uma coordenação centralizada em um único lugar, em uma região onde há um grande número de candidatos, favorece muito a própria segurança do concurso.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

     E a partir do momento em que se chegou aos estádios como a melhor solução para o concurso, sobretudo no Rio de Janeiro, definiu-se a mudança do dia de realização da prova. Devido às partidas de futebol realizadas aos fins de semana, um concurso desse porte só poderia ser realizado durante a semana – por isso o Concurso para Soldado Fuzileiro Naval é o único realizado em um dia útil, dentre aqueles conduzidos pelo CPesFN.

 

     Assim como são notáveis as transformações e evoluções pelas quais passaram os processos relacionados ao concurso como um todo, constata-se que ocorreu também um fundamental aperfeiçoamento no próprio setor que cuida do recrutamento e seleção no CFN. De acordo com o SO Angelo, tais mudanças foram impostas pelo crescimento do vulto dos concursos realizados e também pela necessidade crescente de conferir maior segurança a todo o processo seletivo, sobretudo à elaboração e distribuição das provas.

     Conta ele que o setor existia inicialmente como uma divisão do Departamento de Ensino (CPesFN-30), mas não ficava localizado junto a esse Departamento. Ocupou locais diferentes, sendo o primeiro deles, na lembrança do SO Angelo, o espaço onde hoje fica a Secretaria do Comando do CPesFN. Em seguida, utilizou-se das instalações da atual Assessoria Jurídica, até que, em 2001, foi elevado à condição de Departamento (quando surgiu o CPesFN-40) e passou a ocupar, por alguns anos, o espaço físico hoje destinado à Comissão de Promoção de Praças. Apenas em julho de 2007, após uma série de obras destinadas a moldar a melhor configuração a fim de atender a todas as necessidades do Departamento, o CPesFN-40 se mudou para a instalação atual.

 

Então, nesse período, o Departamento começa a ter um espaço bem mais adequado para a gente lidar com a questão das provas. A gente passou a ter salas específicas, adquiriu equipamentos de segurança como câmeras, e todo o material passou a ser manuseado nesses espaços.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

 

Todas as providências adotadas a partir dessa evolução dão uma segurança muito grande para o Departamento. Tanto para os membros do Departamento, que lidam com a questão, como também para o usuário, que às vezes não tem noção de que o processo é feito dessa forma. E quando ele procura saber como é feito, ele fica surpreso com o nível de segurança que esse Departamento desenvolveu e chegou na atualidade.” SO-FN-IF-RM1 Angelo

 

     As melhorias implementadas e a segurança alcançada influenciariam diretamente no aperfeiçoamento de todos os processos conduzidos pelo setor, pois além do Concurso para Soldado Fuzileiro Naval, ele é responsável também pela condução do Concurso para Sargentos Músicos e dos concursos internos para os Cursos de Especialização e de Habilitação a Sargento.

 

     Outro ponto que foi aperfeiçoado ao longo dos anos foi a questão da regulamentação dos concursos, até se chegar ao instrumento que hoje proporciona todo o suporte jurídico aos processos seletivos: o edital.

 

 

     Ao abordarmos os processos seletivos para os concursos ao CPFN, devemos lembrar que existem sempre os dois lados da história: o da Instituição que realiza o recrutamento, personificada neste relato pelo Departamento de Recrutamento e Seleção do CPesFN; e também o do candidato, aquele que inicialmente é apenas um número de inscrição, mas que, concluindo com êxito seu processo de ingresso no CFN, torna-se parte da história do Corpo de Fuzileiros Navais.

     Todos os anos o CPesFN lida com milhares de candidatos, cada um com origens e histórias distintas, mas com um sonho em comum: se tornar um Fuzileiro Naval.

     No momento do ingresso, cada um desses jovens traz consigo uma bagagem pessoal – não apenas a material, aquela que eles carregam nos exercícios iniciais no dia da apresentação, mas também a emocional, aquela que comporta traços de suas raízes, seja no sotaque, nos costumes, em menções constantes ao estilo de vida que mantinham até adentrarem os cursos de formação. O processo de militarização desses candidatos, a sua transformação em Fuzileiros Navais, muitas vezes se estende além dos cursos de formação. Os anos se encarregam de diminuir as diferenças regionais, atenuar os sotaques, mas sem que se deixe para trás raízes que tornam cada indivíduo um ser único e que proporcionam ao Corpo de Fuzileiros Navais uma composição tão plural no que diz respeito ao seu pessoal.

     Não foi diferente com o SO Angelo. No vídeo a seguir, ele nos conta como foi a sua própria experiência como candidato do Concurso ao Curso de Formação de Soldados Fuzileiros Navais, realizado em 1980.

 

 

     Entre o seu processo de inscrição e a aprovação no concurso, passaram-se dois meses. Era o mês de maio de 1980, mas a convocação só viria de fato em julho e o início da formação seria em setembro. Nesse ínterim, o SO Angelo havia pedido demissão do emprego em Natal, e não poderia voltar pra casa, no interior da Paraíba, visto que precisava se reapresentar semanalmente ao Grupamento de Fuzileiros Navais de Natal, a fim de verificar quando o embarque para o Rio de Janeiro ocorreria. Com isso, ele viveu uma situação curiosa, a qual relata no próximo vídeo, e que antecipou a sua adaptação à vida militar, tornando tudo bem mais familiar quando chegou, finalmente, à Ilha da Marambaia para a sua formação.

 

 

     A Ilha da Marambaia, local tão caro ao nosso entrevistado, deixaria de ser a sede da formação, para dar lugar ao novo CR que seria inaugurado em Campo Grande em 1981 – e que veio a receber, em 1994, a denominação de Centro de Instrução Almirante Milcíades Portela Alves (CIAMPA).

 

     Assim como a sua história pessoal é pontuada por fatos inusitados, também encontramos histórias marcantes entre os milhares de candidatos que passaram pelo Departamento de Recrutamento e Seleção ao longo dos 18 anos de experiência do SO Angelo.

     O vídeo a seguir retrata a dificuldade que alguns candidatos precisam superar para realizar um sonho e o quanto, às vezes, se torna inevitável que a frieza do processo seletivo dê lugar a um tratamento humanizado por parte dos profissionais envolvidos.

 

 

     Os concursos para Soldado Fuzileiro Naval e para Sargento Músico inscrevem milhares de candidatos anualmente. Para aqueles que estão envolvidos, trabalhando nesse grande processo, os candidatos devem ser tratados como um número de inscrição, de maneira a manter a isonomia do concurso. Entretanto, situações inusitadas, como as que aqui acompanhamos, acontecem, o que torna inevitável que a equipe responsável por conduzir os processos seletivos se sensibilize com situações e dramas pessoais.

     Assim, ao finalizarmos aqui esse recorte da história, que expõe a evolução do Recrutamento no CFN ao longo de pouco mais de 30 anos – desde o relato pessoal do recrutamento de nosso entrevistado, no ano de 1980, até os dias atuais – é possível perceber que se trata de uma atividade impactada por múltiplos fatores e de alta complexidade. Fica demonstrado assim, mais uma vez, o permanente compromisso do Corpo de Fuzileiros Navais em acompanhar as inevitáveis transformações sofridas por toda a sociedade com o transcorrer dos anos.

 

Fim