CMG (Refº-FN) Nunes

     Na entrevista de estreia do Projeto “Memória é patrimônio: olhares sobre o CFN”, temos como convidado o Capitão de Mar e Guerra Reformado Fuzileiro Naval Edison da Silva Nunes Filho –  Comandante Nunes. Tendo ingressado na Marinha pelo Colégio Naval em 1957, o CMG (Refº-FN) Nunes se tornou um Fuzileiro Naval, na especialidade de Engenharia. Fez parte da segunda turma da Escola Naval que teve o Curso de Formação de Oficiais estendido para quatro anos de duração para o Corpo de Fuzileiros Navais, igualando a formação do Fuzileiro Naval a dos Oficiais do Corpo da Armada.  A sua turma seria também a primeira a se formar após a revolução de 1964.

     Em seu depoimento, o CMG (Refº-FN) Nunes relata uma série de fatos que marcaram a evolução do setor operativo do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). As histórias narradas remontam à década de 1960, ou seja, a Força de Fuzileiros da Esquadra era recém-criada, muitas das suas Organizações Militares subordinadas, que hoje conhecemos, sequer existiam. Logo, nota-se que o CMG (Refº-FN) Nunes fez parte de uma geração de Fuzileiros Navais que desbravou mares desconhecidos e teve o privilégio de acompanhar o aprimoramento do preparo e do emprego de nossa Força, em uma época em que ainda não havia um detalhamento doutrinário do setor operativo.

       Ainda como Aspirante do 4º ano da Escola Naval, o CMG (Refº-FN) Nunes participou da Operação Dragão I.

 

 

Essa operação foi realizada na costa de Vitória-ES e nós fomos transportados no navio aeródromo Minas Gerais, para os navios transporte que estavam levando a Força de Desembarque. Eu fiquei adido do pelotão do Primeiro Batalhão de Infantaria, que era a nossa única unidade operativa, o Batalhão Riachuelo.

     Houve ainda uma tentativa dos Aspirantes participarem da Operação Dragão II, mas na ocasião houve um problema com o navio aeródromo Minas Gerais, o que obrigou o retorno dos mesmos ao Rio de Janeiro.

     Posteriormente, já como Guarda-Marinha, o CMG (Refº-FN) Nunes realizou o estágio de adaptação no Centro de Instrução do Corpo de Fuzileiros Navais (CICFN), que hoje conhecemos por Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC), e embarcou no Navio de Transporte Custódio de Mello, para uma das viagens de instrução mais curtas já realizada: foram apenas 42 dias de exterior, devido às restrições orçamentárias impostas pelo difícil momento vivido pelo país naquele ano de 1964. Isso não impediu, entretanto, que os Guardas-Marinha recém-formados usufruíssem da troca de conhecimentos e do intercâmbio cultural proporcionados pelo contato com outros povos e outros costumes.

     Voltando da viagem, com o navio já atracado, depararam-se com uma situação inusitada: a necessidade de um embarque imediato de pessoal e material do 1º contingente que se deslocaria para Santo Domingo – República Dominicana, em uma operação real (os Fuzileiros Navais integraram a Força Armada Interamericana, enviada a Santo Domingo com o propósito de conter a guerra civil em curso naquele país).

 

“Foi o primeiro trabalho de desembarque onde, em 48 horas, tivemos que tirar todo o nosso material, botar no cais, porque o Custódio de Mello iria receber o material da tropa que estava indo para Santo Domingo.”

     Era a primeira experiência de um grupo que regressava de uma viagem de instrução com uma operação real, em que um navio da Esquadra se deslocava transportando Fuzileiros Navais para uma área de operações.

     Reapresentados à Escola Naval, os Guardas-Marinha foram então distribuídos pelo Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais (CGCFN) para suas unidades de destino. Nesse momento, outro fato inédito na história do CFN: era a primeira vez que todos os GM (FN) eram movimentados para Unidades Operativas, com previsão de comissão mínima de dois anos. Pela primeira vez se buscou dar um cunho operativo à designação desses oficiais, a buscar que enveredassem pelo setor operativo, o que era a determinação do Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais da época.

     O CMG (Refº-FN) Nunes foi então apresentado ao Batalhão de Pioneiros – antigo nome do Batalhão de Engenharia de Fuzileiros Navais –, localizado na Rodovia Washington Luiz, conhecida como Rio-Petrópolis, onde, àquela época, eram realizados adestramentos.

“Hoje em dia, quem iria imaginar fazer exercício militar ao longo da Rio-Petrópolis? Mas naquele tempo, a Rio-Petrópolis só tinha uma via de mão dupla. Era o movimento todo de acesso ao Rio de Janeiro, mas permitia que nós fizéssemos esses nossos exercícios.”

     Era o ano de 1966, quando os militares daquele Batalhão vivenciaram o planejamento de uma Operação, um Exercício Anfíbio, que iria acontecer na costa nordestina, próximo à região de Recife: a Operação Graviola. Foram deslocados para o local diversos elementos da Força de Fuzileiros da Esquadra, como a Engenharia, a Artilharia, Comunicações, Operações Especiais, entre outros. O deslocamento foi realizado pelo Navio de Transportes Ary Parreiras, aproveitando-se uma viagem de carga do mesmo.

“Naquela época, a então Força de Transporte da Marinha tirava uma parte dos seus rendimentos fazendo serviço de cabotagem. Funcionava levando material e carga entre os portos do Rio de Janeiro. Nessa Operação Graviola, uma parte da carga fomos nós, quando fomos levados para Recife.”

     Essa operação teve um caráter de ineditismo tanto na carreira do Oficial que nos narra essa história, como para algumas das Organizações Militares (OM) participantes, como o Grupamento de Fuzileiros Navais de Natal e o então Grupamento de Fuzileiros Navais de Recife. Ambas as OM não possuíam na época condições de realizar um exercício de tal porte. Não havia material necessário para isso: não havia navios, não havia EDVP’s (Embarcação de Desembarque de Viaturas e Pessoal), então não havia como se adestrar.

 

 

     Era manhã de 06 de dezembro, as condições do mar não estavam muito favoráveis ao desenrolar das fainas e as equipes empregadas na operação já constatavam um certo retardo nas atividades. Toda a atenção estava voltada naquele momento para a preparação visando à utilização inédita de esteiras de apoio ao desembarque de viaturas na praia, as quais haviam sido doadas pelo Corpo de Fuzileiros Navais Americano, durante o contato que as tropas tiveram em Santo Domingo, República Dominicana.

 

     Às dificuldades naturais encontradas, pelo fato de ser a primeira vez que realizavam tais procedimentos, somavam-se as condições de mar e vento, apontando para um cenário que ia, claramente, piorando. Nesse contexto, o CMG (Refº-FN) Nunes nos narra um dos momentos que viriam a marcar sua carreira, quando teve início uma série de encalhamentos no exercício de desembarque na praia.

 

“As embarcações começaram a encalhar na área de desembarque. Não existia nada na praia que pudesse auxiliar o desembarque, fazer o desencalhe. Então nós da Engenharia, do Grupamento, teríamos que buscar, de qualquer maneira, o desencalhe dessas embarcações. O que a gente tinha naquele momento era força de vontade e muque. E foi quando ocorreu o primeiro incidente na Operação Graviola.”

 

     Superado o primeiro susto da Operação, os militares envolvidos passariam por momentos ainda mais difíceis. Momentos esses que marcariam para sempre a história do Batalhão de Engenharia de Fuzileiros Navais, e que seriam lembrados ano após ano, todo dia 06 de dezembro, pela bravura dos que ali estavam presentes e por atos heroicos que se delinearam naquela data.

 

     Diante dos fatídicos acontecimentos, era a hora de entrarem em cena os mergulhadores que realizariam o resgate daqueles que ainda estavam presos sob a embarcação, em uma operação que se tornaria ainda mais complexa devido à presença de tubarões na área.

 

"Nossos mergulhadores, na busca dos corpos, tiveram que descer em gaiolas. E foi feito um trabalho em equipe em que todos participaram. Muita coisa foi vista, muita coisa foi aprendida, através de uma experiência traumática, mas que nos permitiu também aprender alguma coisa. Isso que foi importante.”

   Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos da história aqui narrada, o Batalhão de Engenharia realiza, todo dia 06 de dezembro, uma cerimônia em lembrança e homenagem aos companheiros que se foram nessa Operação Graviola. Sobre um desses companheiros, o CMG (Refº-FN) Nunes narra uma história curiosa no vídeo abaixo.

 

 

     No ano seguinte, em 1967, o Batalhão de Pioneiros participaria da Operação Dragão II. A data era marcante: 06 de dezembro. Exatamente um ano depois dos dramáticos acontecimentos da Operação Graviola. O principal desafio dos Oficiais envolvidos naquela manobra, realizada em Caraguatabuba – SP, era lidar com a parte emocional daqueles que tornariam a participar de uma grande operação.

 

“E você conseguir motivar aqueles elementos, que tinham participado daquele naufrágio, a voltarem para executar o nosso trabalho anfíbio sem traumas, esse foi talvez o nosso grande trabalho. E convencer a todos que iria dar tudo certo, que não ia acontecer nada e íamos participar porque somos profissionais.”

     Outra experiência relevante na vida do Oficial que nos narra essas lembranças foi a sua participação na Operação Véridas. Foi uma operação interaliada,

 

realizada em conjunto com as Forças Armadas Norte-Americanas, na Ilha de Vieques, em Porto Rico. O momento não poderia ser mais significativo para aquela troca de experiências: era o auge da Guerra do Vietnã.

 

     Posteriormente, o CMG (Refº-FN) Nunes participou de um grande exercício, ainda pelo Batalhão de Pioneiros, que foi a Operação Alvorada 2 – um deslocamento motorizado Rio-Brasília, com o objetivo de participar das comemorações do Dia do Soldado. Fez parte do deslocamento um comboio de Infantaria, Artilharia, Banda de Música, Polícia e Paraquedistas. Foram cerca de cem viaturas ao todo. Um deslocamento de tal porte, com tantos militares envolvidos, geraria certamente alguns fatos curiosos e inusitados, como o que é relatado no próximo vídeo.

 

     A Operação foi trabalhosa, tanto pelo pessoal embarcado quanto pelo material que estava sendo transportado. Mas havia uma razão para realizá-la.

 

“Era o então Comandante-Geral o Almirante Heitor Lopes de Souza, amicíssimo do então Presidente da República, o General Costa e Silva. Nós tínhamos acabado de receber as viaturas Chevrolet 4x4/6x6 novinhas e nós fomos participar desse evento do Exército, do Dia do Soldado, mas na realidade era para marcar presença: os Fuzileiros estão aqui, estão com material bom, e esse foi um dos grandes motivos da nossa participação.”

     O grande número de militares envolvidos causaria alguns transtornos e dificuldades no percurso, como por exemplo, o fato de terem precisado dormir acampados no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte - MG, e também de não terem conseguido participar completamente do desfile militar em Brasília.

 

 

     Tempos depois desses últimos fatos, o CMG (Refº-FN) Nunes viria a ser Imediato do Grupamento de Fuzileiros Navais de Belém, voltando assim à terra onde nascera e de onde havia saído ainda muito pequeno, em um navio rumo ao Rio de Janeiro. A cidade vivia naquele momento uma série de acontecimentos que culminaram no movimento que ficou conhecido como “Guerrilha do Araguaia”.

 

“Em decorrência disso, nós tivemos naquela época uma visita do Vice-Presidente da República, que era o Almirante Rademaker. Ele fez um trajeto ao longo da fronteira oeste. Pouquíssimos Presidentes se aventuraram a fazer a fronteira oeste. Hoje já é difícil, imagina naquela época.”

     Foi um evento de grande magnitude para o Grupamento de Fuzileiros de Navais de Belém, pois eles estavam fazendo a segurança do Vice-Presidente da República.

     Devido à heterogeneidade própria à carreira do Fuzileiro Naval, o CMG (Refº-FN) Nunes teve a oportunidade de passar ainda por outras vivências no CFN. Durante determinando período, foi Assistente do então Contra-Almirante Grego, o qual havia sido nomeado Presidente da Comissão de Desportos da Marinha. Na nova função, o CMG (Refº-FN) Nunes manteve-se em contato direto com os atletas da Marinha, sobre os quais também guarda algumas histórias curiosas.

 

 

     Hoje o CMG (Refº-FN) Nunes se encontra na reserva há cerca de 20 anos e encerrou por completo suas atividades profissionais na Marinha em 2010, como Oficial em Tarefa por Tempo Certo (TTC). Após esse período, a forma que escolheu para manter seus laços com a Força foi por meio da atuação e acompanhamento junto à Associação de Veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais (AVCFN). Na época, convidado pelo Almirante Grego, que havia acabado de assumir a presidência da Associação, o CMG (Refº-FN) Nunes foi um dos precursores e idealizadores do projeto “reviver”, que tinha por objetivo promover a participação de militares da reserva em Operações conduzidas pela Força de Fuzileiros da Esquadra. A cada Exercício realizado, uma comitiva de veteranos era conduzida para acompanhar e reviver, assim, aspectos marcantes de suas carreiras na ativa.

 

“Sem fazer propaganda da Associação de Veteranos, mas sempre foi um elo muito importante, a nossa união. É assim que nós conseguimos nos manter juntos e fieis aos ideais e tradições do Corpo de Fuzileiros Navais.”

     Assim se encerra o relato do CMG (Refº-FN) Nunes, o qual ressaltou, em diversos trechos do depoimento, a importância da liderança dos Oficiais Fuzileiros Navais e a responsabilidade que recai sobre eles, ao assumirem uma posição em que devem ser exemplo e inspirar confiança aos seus subordinados.

 

“Aí que eu digo, como é importante a presença, diuturna, constante, do oficial com a sua base, olhando olho no olho. Saber o que está sentindo, o que está passando. É esse homem que pode estar do seu lado e pode ser responsável pelo seu sucesso ou não.”

 

 

“O que eu consegui fazer, nada fiz sozinho, reitero. Sempre uma equipe, gente trabalhando comigo, de valor. Trabalho dignificante, amizade, esforço, tenacidade: esse é o nosso Fuzileiro Naval.”