CA (Refº-FN) Giovanni e CMG (Refº-FN) Perlingeiro

  

 

   A edição deste mês do Projeto Memória traz a entrevista do Contra-Almirante (Refº FN) Giovanni Gargiulo e conta com a participação especial do CMG (Refº-FN) Perlingeiro, Oficial que foi seu assistente pelo período de 3 anos e com o qual compartilhou importantes histórias aqui narradas.

 

  

   Giovanni Gargiulo nasceu na Itália em 1930 e veio para o Brasil bem pequeno, em 1932, como imigrante. Cresceu com o sonho de se tornar um militar da Marinha. Para isso, precisou primeiro conseguir a nacionalidade brasileira. E antes de passar no concurso para o “Curso Prévio” da Escola Naval, passou para a Marinha Mercante, onde ficou por um ano. Em 1951, então, ele adentraria as fileiras da Marinha do Brasil, onde permaneceria até a década de 1980, quando passou para a reserva remunerada, como Contra-Almirante Fuzileiro Naval.

   Conta-nos o Almirante Giovanni que o curso naquela época era bastante restrito, havia sido reduzido para apenas três anos e eram poucas as vagas para oficiais FN. Em dezembro de 1953, ele saíra Guarda-Marinha e fora então para a fase do estágio em terra, que ocorria na chamada Companhia Escola na Ilha do Governador. Lá chegando, os Guardas-Marinha conviveram de perto com os Recrutas FN, cujo alojamento estava sendo construído na época, pois toda aquela estrutura era recém-criada na Ilha do Governador. O Almirante Giovanni relata neste ponto a profícua convivência que se deu naquele período entre os jovens que ingressavam no Corpo de Fuzileiros Navais por diferentes caminhos.

 

“Aprendi muito com os recrutas. Aprendi a singeleza do Fuzileiro Naval que vem do nordeste, vem do interior, vem do sul de onde seja e lá todos são nivelados na mesma ordem e no respeito. Um Cabo FN tinha mais respeito do que tem hoje um magistrado. Respeitado pelo conhecimento, nunca por medo. Então eu aprendi a grande diferença do mandar para o comandar.” Contra-Almirante Refº (FN) Giovanni

 

   Em seguida, seria a vez do estágio no mar, quando fizeram a viagem de ouro no Navio-Escola Almirante Saldanha (que seria desativado no ano seguinte para virar navio hidrográfico). Essa viagem ficara marcada pelo suicídio do então Presidente da República Getúlio Vargas, o que ocasionou a necessidade de retorno do navio ao Brasil, que ainda enfrentou a formação de um furacão durante o regresso.

 

   Os fatos que se seguiram ao suicídio do Presidente Getúlio Vargas culminaram em um episódio político-militar que ficou marcado na história brasileira como o movimento que garantiria a posse do novo presidente eleito, Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956. Naquele delicado momento da história nacional, houve uma diferença entre Marinha, Exército e Aeronáutica. Segundo nos relata o Almirante Giovanni, havia o receio de que o Exército invadisse instalações da Marinha e ele, que estava a bordo além do horário, fora chamado a reforçar os postos do 1º Distrito Naval, o que o levaria a participar diretamente dos acontecimentos daquele dia 11 de novembro de 1955, quando o Cruzador Tamandaré, em que estavam o Presidente em Exercício Carlos Luz e também Carlos Lacerda, fora alvejado por tiros de artilharia que partiram do Forte de Copacabana, conforme nos relata nosso entrevistado no vídeo a seguir.

 

 

 

A partir daí, o Brasil passou por uma transformação, e com ela, nós todos.” Contra-Almirante Refº (FN) Giovanni

 

   A agitação política era grande naqueles finais dos anos 1950 e início da década de 1960. E o Almirante Giovanni, em 1963, já como Capitão-de-Corveta, viria a participar de outro fato de grande relevância na história do Corpo de Fuzileiros Navais, quando, juntamente com outros 27 Oficiais, assinara um manifesto em que não reconheciam a autoridade do recém-nomeado Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, o Vice-Almirante (FN) Cândido da Costa Aragão.

 

 

   O capítulo da história que fora aberto com o episódio do Manifesto e consequente prisão dos oficiais envolvidos viria a ter o seu ápice nos acontecimentos do dia 31 de março de 1964, quando o Almirante Giovanni participou diretamente da tomada da Guarnição do Quartel Central (hoje Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais), onde estava, naquele dia, o Almirante Aragão.

 

Finalmente vieram as missões e a missão que nós recebemos, Almirante Drummond, Tissenbau, eu e o filho do Drummond: tomar a Guarnição do Quartel Central, onde hoje é o Comando-Geral (...). E eu como oficial superior tive o prazer de colaborar com isso, foi um marco na minha vida” Contra-Almirante Refº (FN) Giovanni

 

   Uma das transformações sentidas a partir daquele momento se referia especificamente ao prestígio que o Corpo de Fuzileiros Navais desfrutava junto ao restante da Marinha, dado que, até então, segundo o Almirante Giovanni, o CFN estava sendo visto como possível “traidor”. A partir daqueles acontecimentos, então, ocorreria a recuperação da moral do Fuzileiro, e o Corpo passaria “de traidor, a homenageado”, conforme relata o Almirante Giovanni. “A lealdade vem acima do orgulho de ser Fuzileiro”, teria dito o Almirante Drummond, ao ocuparem a Guarnição do Quartel Central naquele 31 de março. E a resposta, por parte da Marinha, em relação ao Corpo de Fuzileiros Navais – que poderia ter prejudicado a revolução, mas não prejudicou –, foi bastante positiva.

   A presença dos Fuzileiros Navais dentro da Marinha pouco a pouco ia se transformando e o CFN ia deixando de ser uma Força de Guarda para se tornar uma Tropa Operativa. Essa transição é abordada pelo Almirante Giovanni no próximo vídeo.

 

 

Começamos a buscar um sentido além das portas do quartel, dos muros do quartel, de Guarda e Representação e Banda de Música. Começamos com contribuições intelectuais na Escola, (...) começamos a fazer diferenciação no emprego, e isso passou a entrar não só na Escola como, posteriormente, nos Cursos da Escola de Guerra Naval.” Contra-Almirante Refº (FN) Giovanni

 

   Assim, o Corpo de Fuzileiros Navais deixaria pouco a pouco de ter como função primordial a de suprir a Marinha de Guarda, Segurança e banda de música, para se estabelecer como o braço operativo da Força.

   Um importante episódio na história do Corpo, refere-se à sua participação, por meio de uma Companhia do Batalhão Riachuelo, na Operação Papagaio, durante o período do Regime Militar. A operação destinava-se a combater a Guerrilha do Araguaia, estabelecida pelo Partido Comunista Brasileiro na região norte do país, com objetivos de fomentar uma revolução socialista. O CMG (Refº-FN) Perlingeiro era Segundo-Tenente no referido Batalhão e participou da Operação Papagaio, conforme nos relata no vídeo a seguir.

 

 

Na despedida do Grupamento, ao sair do Rio de Janeiro, nós todos tínhamos a certeza que iríamos morrer.” CMG (Refº-FN) Perlingeiro

 

   Quando comandou o Batalhao Paissandú, o Almirante Giovanni teve oportunidade de participar de um importante exercício na região amazônica e um aspecto que ele ressalta nesse tipo de operação, é o fator humano e as ações sociais que se desdobravam a partir de cada missão. Os Fuzileiros Navais engajavam em ações que iam além de suas atribuições precípuas. Ao realizarem exercícios pelo interior do país, buscavam usar de sua influência e experiência para auxiliar na solução de problemas de diversos tipos que aquelas populações enfrentavam, conforme nos relata o Almirante no próximo vídeo.

 

 

Quando a gente fazia uma operação, a gente tinha que ver duas coisas: a missão, mas também a parte colateral, que é a cívico-social, que é ajudar o povo.” Contra-Almirante (Refº-FN) Giovanni

 

   Ao deixar o Comando do Batalhão Paissandú, o Almirante Giovanni fora designado para a Escola Superior de Guerra (ESG), onde teve a oportunidade de desfrutar de um rico período de intercâmbio de ideias com importantes membros da sociedade civil, políticos, etc. Esse estreitamento de laços e construção de relacionamentos interpessoais, que a ESG proporcionava e proporciona até os dias atuais, rendeu frutos ao Corpo de Fuzileiros Navais.

   Graças a importantes articulações no meio civil e político, uma delas protagonizada pelo nosso entrevistado, foi possível acelerar a conquista da quarta estrela para o CFN, fato que foi concretizado na figura do antigo Comandante-Geral, Almirante de Esquadra Domingos de Mattos Cortez, no início da década de 80, e que o Almirante Giovanni nos conta no vídeo a seguir.

 

 

Eu estava aqui, eu era Imediato da Companhia de Polícia, no dia que saiu a notícia das quatro estrelas para o Comandante-Geral. Então eu achei por bem reunir a Companhia de Polícia e explicar a eles o que seria a decorrência dessa mudança (...). Com essa passagem para as quatro estrelas, ele perdeu seu poder operativo e ganhou poder político.” CMG (Refº-FN) Perlingeiro.

 

   Outra importante articulação de que participou o Almirante Giovanni ao longo de sua carreira, foi aquela que deu origem à oportunidade para que Fuzileiros Navais fizessem a guarda de algumas Embaixadas no exterior, fato que se deu quando ele passou um ano agregado ao Itamaraty, já como Almirante, numa função do Estado-Maior das Forças Armadas. O Comandante Perlingeiro aborda esse assunto no próximo vídeo.

 

 

   No transcurso de sua longa carreira, o Almirante Giovanni teve acesso a histórias que resgatam tradições do Corpo de Fuzileiros Navais, hoje desconhecidas por muitos de seus integrantes. Um dos registros que ele nos trouxe em sua entrevista, foi a respeito da origem do termo “ADSUMUS” O ano era 1957, quando era Chefe do Estado-Maior o Almirante Leônidas Telles Ribeiro. Sabia-se que a Marinha dos Estados Unidos tinha um lema, que era o “Sempre Fidelis”. Os Fuzileiros Navais queriam ter o próprio lema e foi aberta então a oportunidade para enviarem sugestões. Venceu aquela enviada por D. Violeta, esposa do Almirante Leônidas, que seria o “ADSUMUS”. Seu significado: “Aqui estamos”.

 

Isso tomou corpo. Hoje, em qualquer lugar, a gente escreve, o Exército reconhece e eu acho que é uma coisa muito interessante o “ADSUMUS”. Então esse lema foi criado na Rua do Acre, nº 21 (sede do Estado-Maior da Armada).” Contra-Almirante (Refº-FN) Giovanni

 

No vídeo a seguir, o Almirante Giovanni registra ainda as origens do gorro de fita e do uniforme caqui dos Fuzileiros Navais.

 

 

 

Antes do uniforme caqui, que é o uniforme de serviço para todo Fuzileiro Naval, o Almirante nos contou também sobre as origens da cor vermelha do uniforme garança:

 

Nossos Fuzileiros Navais participaram das campanhas todas, da Independência e outras tantas. E sempre há retratos deles desembarcando, e o interessante é que os uniformes tinham cores vivas. E essa tradição, do desembarque da Marinha, em determinado momento, para mostrar ao inimigo que não tínhamos medo do combate, pintaram a camisa de vermelho. Sangue com sangue torna-se igual. E foi adotada a cor vermelha. Distinguia-se o inimigo pelo uniforme. Mas hoje não, são todos camuflados. São todos parecidos.” Contra-Almirante (Refº-FN) Giovanni

 

Nossos entrevistados relatam dois marcos importantes na história do CFN. No primeiro deles, o Almirante Giovanni menciona uma curiosidade, relativa à relação do Corpo com o carnaval. No ano das comemorações do sesquicentenário, em 1958, a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro resolveu homenagear o Corpo de Fuzileiros Navais e solicitou autorização para desfilar com fantasias que imitavam os uniformes do CFN. Com isso, o Almirante Giovanni, que era Ajudante de Ordens do Comandante-Geral da época – Almirante Serejo –, era convidado a ir aos ensaios junto com seu Comandante, como nos conta no vídeo abaixo.

 

 

Já num segundo momento, na época das comemorações dos 180 anos do Corpo, o Comandante Perlingeiro nos conta sobre algumas ações comemorativas da época. Uma delas fora a tentativa de promover uma maior integração das Bandas Sinfônica e Marcial, por meio da inclusão do naipe de Gaitas de Fole em uma música a ser apresentada em Concerto. A música escolhida faz parte do repertório da Banda Sinfônica até hoje, se configurando em um grande sucesso junto ao público: a canção Amazing Grace.

Ele menciona ainda a homenagem que foi prestada à escritora Rachel de Queiroz naquele aniversário do CFN e, em seguida, uma curiosidade a respeito das duas partituras oficiais existentes para execução do hino nacional brasileiro, cada uma em um tom diferente. Vejamos no próximo vídeo:

 

 

 

Por fim, entre tantos relatos interessantes e curiosidades históricas, o Comandante Perlingeiro nos brinda com a explicação sobre como o Almirante Joaquim Marques Lisboa – o Almirante Tamandaré, Patrono da Marinha – recebeu o título de Marquês, ainda na época do Império, por Dom Pedro II.

 

 

O Almirante Tamandaré, Almirante Joaquim Marques Lisboa, chegou a Marquês. Não chegou a Duque poque a última promoção dele foi em 1888, e a Proclamação da República já seria no ano seguinte, em 1889.” CMG (Refº-FN) Perlingeiro

 

 

Quando eu entrei para o Corpo de Fuzileiros Navais, eu aprendi a ver que havia um espírito diferente dos demais. Todos que entram vestem o uniforme e vestem a Corporação no corpo.“ Contra-Almirante (Refº-FN) Giovanni