História

    As Bodas de benjoim (bálsamo oriental) da Caixa de Construções de Casas para o Pessoal da Marinha representam os anos de existência e resistência às sucessivas reformas econômicas e mudanças políticas que o Brasil passou neste período, sem contar com as alterações normativas que governos se viram obrigados a editar diante de problemas econômicos-sociais que mexeram com o principal sonho da família brasileira: a casa própria.

    A CCCPM surgiu num momento em que o Rio de Janeiro, então Capital da República, enfrentava uma crise sem precedentes no setor de habitação popular provocada pelas reformas urbanas levadas a cabo pelos governos municipais, desde o século anterior, que demoliram milhares de moradias insalubres e impróprias e onde residia a maioria dos trabalhadores. Paradoxalmente, agravava este quadro o fato de que a cidade atraía imigrantes de todo o Brasil, agrário e pré-industrial, em busca de ocupação nas grandes obras tocadas pelo setor público. A Marinha era na época uma grande empregadora de mão de obra em seu Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, então instalado no continente. Ao mesmo tempo, empregava milhares de trabalhadores temporários nas obras de construção do novo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras (AMIC), sem contar a tripulação dos navios e bases da Esquadra sediados na cidade.

    Reformulando o Plano de Melhoramentos aprovado em 1875, no início do século XX grandes obras são efetuadas no Rio de Janeiro pelo Presidente Rodrigues Alves, como a construção do Porto do Rio de Janeiro, conclusão das obras do Canal do Mangue, demolição do Morro do Senado e abertura de grandes avenidas, como a Avenida Central (atual Rio Branco). Estas reformas foram feitas durante a administração do Prefeito Pereira Passos, em seu Plano de Embelezamento e Saneamento da Cidade do Rio de Janeiro, realizando intervenções de ordem sanitária, viária e estética, dando nova fisionomia arquitetônica à cidade através da erradicação dos cortiços, casas de cômodo e valorização dos espaços centrais. Antigas vielas são substituídas por ruas arborizadas e mais largas. O antigo casario colonial é posto abaixo, ou proibido de nesses imóveis serem realizadas obras de reconstrução, consertos ou acréscimos, inviabilizando os cortiços onde milhares de famílias viviam amontoadas.

    Mais tarde, na década de 1920, o Prefeito Carlos Sampaio (1920 a 1922) deu continuidade às obras de remodelação da cidade desmontando o Morro do Castelo, sítio histórico onde foi fundado o Rio de Janeiro, para aeração e higiene da área central da cidade. O morro abrigava o assentamento mais antigo da cidade e também um dos mais pobres. O tecido degradado deu lugar a uma valorizada esplanada que, antes de ser loteada e vendida pelo Poder Público a particulares, sediou a Exposição Industrial Internacional de 1922, comemorativa do Centenário da Independência. Além de eliminar do Centro as áreas residenciais de baixa renda, foi aberta a Avenida Rui Barbosa, dando continuidade à Avenida Beira-Mar, ligando o Centro à Copacabana.

    O Morro do Castelo havia se transformado em local de residência de inúmeras famílias pobres, que se beneficiavam dos aluguéis baratos das antigas construções ali existentes. Situava-se, entretanto, na área de maior valorização do solo da cidade, a dois passos da Avenida Rio Branco. A terra retirada do Morro do Castelo foi usada para aterrar parte da Urca, Lagoa Rodrigo de Freitas, Jardim Botânico e muitas áreas da Baía de Guanabara, inclusive onde está instalado o Aeroporto Santos-Dumont. Desalojada desses aglomerados urbanos, restou à população de baixa renda buscar moradia nos morros da cidade ou no subúrbio, o mais próximo possível dos locais de trabalho.

    Neste cenário de reformas radicais promovidas pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, com escassez de moradias e com a grande massa da população deslocada de suas residências no Centro da Cidade para o subúrbio ou para os morros próximos, com a Marinha recrutando pessoal para trabalhar nas suas obras e para compor a tripulação de seus navios, é que surge a CAIXA DE CONSTRUÇÕES DE CASAS PARA O PESSOAL DA MARINHA.